quinta-feira, 21 de julho de 2016

Projecionistas resistem ao tempo e declaram seu amor ao ofício


Projecionistas resistem ao tempo e declaram seu amor ao ofício.
Escrito por: Tiago Faria e Yale Gontijo.
Fonte: Correio Braziliense.

Nas sessões de cinema, eles estão à sombra do espetáculo. É uma profissão sem muitas glórias — que, aos olhos do espectador mais desatento, pode parecer apenas a aplicação de uma técnica. Mas, apesar de ameaçado pela invasão da tecnologia digital, os projecionistas à moda antiga resistem no circuito de Brasília. Talvez sem o romantismo de Alfredo, o inesquecível personagem de Cinema Paradiso, eles tratam o ofício com um misto de dedicação, rigor e, finalmente, prazer pela arte.

Em alguns casos, são cinéfilos de longa data. Por vezes, simplesmente devotam aos filmes um carinho espontâneo, até mesmo inocente. Vigiam a película — esse bicho em extinção — com familiaridade, primeiro na montagem dos rolos de longas-metragens e depois no acompanhamento de cada exibição, para evitar escorregões. Ainda assim, acidentes acontecem — e é aí que o público finalmente percebe a existência de um profissional silencioso no comando do show. O Correio conta as histórias cinematográficas de Carlos Camurça, Almerinda Soares, Salustiano Gomes e Edson Martins.

Arte em dupla.

Salustiano Gomes, 40 anos, testemunhou o fim de um dos últimos cinemas de rua da capital federal. O Cine Bristol oferecia cerca de 600 lugares no Setor de Diversões Sul quando ele começou a trabalhar lá em 1994. No começo, servia drinques no bar anexo à sala de projeção. Apesar das gorjetas gordas, cismou que deveria aprender as artimanhas do ofício tão antigo quanto a criação da sétima arte. No começo era só observador, mas depois passou a regular com as próprias mãos o toque na película cinematográfica. Recebeu com surpresa a notícia da demissão de todos os funcionários do Bristol, que aconteceria no dia seguinte. Trabalhou algum tempo como fiscal da Viplan. Mas o gosto pelo cinema acabou tomando conta de Salustiano. “A gente tem de gostar do que faz”, resume Salu, como é chamado no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) onde trabalha hoje ao lado do colega, Edson Martins, 34 anos.

Os dois são responsáveis pelo único cinema de arte de Brasília. Por ali, o vilão é o tempo. Não aquele que causa ansiedade e o estresse por ter de cuidar de várias projeções simultaneamente, mas tempo que provoca o desgaste das películas e deixa em apuro cópias que um dia foram perfeitas. “Nós temos uma responsabilidade tremenda aqui. Em geral, exibimos filmes muito antigos. Muitas películas chegam aqui desgastadas”, adverte Martins. “Os espectadores não fazem ideia do que acontece aqui dentro”, suspeita o projecionista sobre o trabalho dentro da cabine de projeção.

Os filmes que Edson exibe hoje são bem diferentes daqueles que costumava exibir no estabelecimento de shopping onde trabalhava anteriormente. Lá eram nove salas para cuidar sozinho. “Aqui é um mamão com açúcar. Uma sala só, menos público”. Vencido o choque inicial ao perceber que havia abandonado a automação para finalmente colocar as mãos em lentes e películas de diferentes formatos, os dois profissionais de vez em quando precisam enfrentar desafios enormes. Os rolos de Stalker, de Andrei Tarkovski, tiveram de ser recolocados em ordem com o auxílio de um DVD do mesmo filme. Detalhe: a cópia estava tão danificada que foram necessários cerca de 50 remendos só nos primeiros minutos do filme.

O contato com a arte de diretores “difíceis”, digamos assim, não é motivo de reclamação. Salu passou a admirar os diretores franceses depois de uma série de exibições de títulos da nouvelle vague. E Edson só perdeu a paciência mesmo com as 11 horas de duração do longa-metragem Evolução de uma família filipina, do diretor Lav Diaz. Naquele dia, o turno foi de 12 horas no total e a lentidão da narrativa desviou a atenção do projecionista. Mas, bom mesmo foi rever os filmes da infância na mostra dedicada ao faroeste italiano no ano passado. “Django, Keoma, O retorno de Sabata, todos esses eu vi com o meu pai na Sessão Bang-Bang da tevê Bandeirantes. Nunca imaginei que projetaria esses filmes”, relembra Gomes. Algo do que reclamar, rapazes? “Não existe curso de formação de projecionista no Brasil. Você tem de aprender com alguém que queira te ensinar”, ressente-se Edson. “Isso aqui é uma profissão para passar de pai para filho. Não dá para passar para qualquer arrogante que tem por aí, não”, avisa Salu.

Quatro por uma.

Quando o relógio indica o início da sessão, uma cena de ação se desenrola todos os dias nos corredores do shopping Liberty Mall, na Asa Norte. Almerinda Soares, a protagonista da história, dispensa dublês para subir e descer escadas, adaptar rolos de películas aos projetores grandalhões, ajudar no som e dar a partida na programação de quatro salas — cujos horários, nos dias mais tensos, calham de coincidir. Nas primeiras horas da tarde, enquanto o outro projecionista não chega para ajudá-la no batente, o corre-corre é tão intenso que a piauiense de 54 anos não consegue ver os longas-metragens do começo ao fim. Se contenta com sessões picotadas, cenas em ordem aleatória, um quebra-cabeça. “Faço a montagem dos filmes depois, na minha cabeça”, conta.

A curto-circuito de imagens não desnorteia Almerinda, que só descobriu filmes quando começou a tomar aulas nas cabines de projeção do Liberty, há 15 anos. Antes, trabalhou por um ano no caixa, cobrando os ingressos. “Hoje moro no cinema, vivo cinema, me alimento de cinema. Só vou para casa dormir. Mas é o melhor dos trabalhos. Eu me divirto”, resume. Se mantém atualizada com comédias românticas, dramas e fitas de ficção científica. Terror, prefere evitar. Recentemente, aprovou Nosso Lar, a fita espírita inspirada nos escritos de Chico Xavier. “Gosto quando o filme mostra coisas que eu nunca vi”, afirma. Em casa, prefere os DVDs de música. No aconchego, cinema dá sono.

Quando dois projetores digitais foram instalados no Liberty, temeu perder o emprego. “E eu ia ficar em casa fazendo o quê? Lavando prato?”, comenta. “Aí descobri que o projetor digital também precisa do dedo humano”, conta. Na cabine, teto baixo, Almedrinda se posiciona no canto da parede. Não adianta gritar de dentro da sala, pedir para aumentar o som: lá em cima, só se ouve a trilha do filme, transmitida por um pequeno amplificador. O ruído do projetor, como o de uma máquina de costura, não é dos mais confortáveis. Mas isso ela releva. “São 15 anos com esse barulho na cabeça”, observa. Os projetores digitais, em comparação, soam mais silenciosos. “A tecnologia vai melhorar nosso trabalho. Ela chega, entra na nossa casa, vem para ficar”, admite. Sem nostalgia.


Texto reproduzido do site: fndc.org.br

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Cine Horizonte na sucata

Sílvio Lima mostra película do longa canadense 
"O Segredo de Sangue", exibido no Cine Horizonte.
 Foto de João Cláudio Fragoso.

Publicado originalmente no 'blogs.odiario.com'. em 27 de novembro de 2014.

Cine Horizonte na sucata.
Por Wilame Prado.

É no presente que encontramos pistas ou pedaços do passado. E parte da história dos vários cinemas de rua que funcionaram em Maringá entre 1940 e os anos 2000 pode ser encontrada em um ferro-velho na Avenida Pedro Taques, local onde os irmãos Lima guardam, em meio a toneladas de objetos acumulados nos últimos 50 anos, projetores de filme em 8, 16 e 35 milímetros, peças dispersas desses projetores e latas com rolos de filmes antigos, todos pertencentes ao Cine Horizonte, ícone cultural da Vila Operária, um dos bairros mais tradicionais da cidade.

Sílvio Lima, 66, um dos proprietários do ferro-velho, explica que compraram há pouco tempo as peças do Cine Horizonte. Os filmes, diz, foram adquiridos de uma enormidade de películas guardadas por Valter Del Grossi, pioneiro da cidade que morreu no ano passado e que era conhecido como o “Valtinho do Cine Horizonte”. Para as fotos, Sílvio permitiu que a equipe de reportagem abrisse uma das latas. Dentro, um rolo de 35mm do longa-metragem canadense “O Segredo de Sangue”, do qual pouco se tem informações na internet.

Ao contrário dos pedaços de motores fundidos, rodas, panelas e outros infinitos metais que os sócios buscam para fazer girar o negócio com o ferro-velho, a opção de ter adquirido aqueles objetos do antigo cinema de rua maringaense em nada ter a ver com dinheiro, segundo Cecil Lima. “A molecada invadia o prédio abandonado do Cine Horizonte para estragar tudo. Eles não têm ideia da importância que isso tem para a história da cidade. Por isso, resolvemos comprar alguns desses objetos perdidos. E é difícil vender, a não ser que fosse para alguém do ramo, que saberíamos que faria algo para preservar a história do cinema”, afirma.

Em meio ao labirinto de ferro, espremido por entre pilhas com até três metros de altura de sucata, olhando para os projetores de filme, os irmãos relembram velhas histórias envolvendo o Cine Horizonte, cinema de rua inaugurado em 1951/52 em um barracão de madeira na Avenida Brasil e que, em 1966, mudou-se para um grande terreno de esquina na Avenida Riachuelo, na Operária. “Esse aqui é um projetor de vários filmes passados nesse projetor ali onde hoje funciona o Posto Maluf, na Brasil. Projetores como esses eram muito comuns em cineclubes da época, igrejas, associações e em salas de aula da universidade, principalmente nas décadas de 1960 e 70.”

Popular e resistente.

O Cine Horizonte marcou época e funcionou como chamariz para moradores de outros bairros maringaenses irem até a Vila Operária não apenas para assistirem a filmes, mas também para se encontrar com outras pessoas. O historiador do Patrimônio Histórico de Maringá, João Laércio Lopes Leal, morou 27 anos no bairro e assistiu no Cine Horizonte uma infinidade de filmes. “Foi lá o meu ritual de iniciação de cinema, conheci cinema a partir dali. Além de ter sido um importante instrumento cultural, social e econômico, tenho uma relação afetiva e sentimental com o Cine Horizonte, que extrapolava a questão de apenas ver filmes. Mais que isso, era espaço de sociabilidade, reunião, encontro, uma referência que sem dúvida ajudou a transformar a Vila Operária em um dos bairros mais importantes de Maringá”, considera o historiador.

Com os outros cinco cinemas de rua – Cine Primor, Cine Ryan, Cine Maringá, Cine Peduti e Cine Teatro Plaza – encerrando suas atividades entre o decorrer das décadas 1950 e 1980, o Cine Horizonte ainda sucumbiu nos anos 90. Isso, graças ao apelo popular do cinema, que, com sua capacidade para até 1.600 lugares, em seu estágio final, repetia filmes já exibidos em outros cinemas a preços módicos, além das sessões de filmes eróticos.

Ao final, duas igrejas ainda tentaram exercer atividades no imóvel, mas logo foram fechadas. Antes do que ser o que é hoje – um canteiro de obras prevendo a construção de duas torres residenciais –, a invasão de mendigos no local incomodou vizinhos e proprietários, estimulando ainda mais a demolição do prédio. Filme triste, afinal, como tem sido o destino de quase todos os cinemas de ruas do País.

Colecionadores podem ajudar.

Na opinião do historiador João Laércio Lopes Leal, é possível se achar, principalmente em residências de pioneiros da cidade, verdadeiras raridades envolvendo a história cultural, em especial a história dos cinemas de rua que um dia existiram por aqui.

Ele conta que o patrimônio detém alguns relatos históricos de antigos proprietários, fotos raras e documentos que poderiam ser o início de um projeto pensando na conservação histórica dos cinemas de rua que já funcionaram em Maringá. “Desde que estou aqui, algumas monografias de estudantes de Jornalismo e História já foram feitas sobre os antigos cinemas de rua da cidade”, conta Leal.

Para o geógrafo e diretor do Museu da Família (MF) Edson Pereira, as peças do Cine Horizonte encontradas recentemente no ferro-velho citado pela reportagem poderiam motivar o pensamento de se criar um museu cultural na cidade. Ele cita a Lei Municipal 904/2011, que institui o Inventário do Patrimônio Cultural de Maringá, como alternativa para se pensar em um museu físico que propiciasse a conservação histórica dos cinemas de rua.

“É necessário fazer um inventário cultural, envolvendo o município e colecionadores particulares, para que todos esses acervos sejam colocados em uma mesma base de dados. Acredito que pode ser elaborado um inventário cultural, mas também campanhas junto a colecionadores para que esse acervo, mesmo que dividido em diversas coleções, possa ser reunido, ainda que, inicialmente, de forma virtual”, sugere Pereira.

*Reportagem publicada em 29 de agosto de 2014 no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná.

Texto e imagem reproduzidos do site: blogs.odiario.com/wilameprado

terça-feira, 13 de outubro de 2015

A vida de Eurico Reis é dar filmes aos outros



Publicado originalmente no site Diário do Alentejo, em 19-08-2011.

A vida de Eurico Reis é dar filmes aos outros

A vida de Eurico Reis, projecionista, poderia dar um filme. Mas o que o mais lhe interessa é poder projeta-los e mostrá-los às pessoas. Às pessoas que continuam a ir às salas de cinema ou a assistir aos filmes ao ar livre. O homem que cresceu e viveu com os olhos postos nos ecrãs de fundo branco continua na cabine, agarrado à máquina. Até porque é aqui que se sente bem, no seu cinema paraíso.

Texto Bruna Soares

Eurico Reis projeta filmes há anos. Há tantos anos que já lhe perdeu a conta. Não sabe quantas películas lhe passaram pelas mãos, porque esse somatório também há muito que o deixou de fazer. As histórias e as emoções dos filmes interessam- -lhe mais do que os números.

Num dia igual a tantos outros, onde o vento não sopra e o sol não brilha, Eurico Reis abre a porta da sua casa. Começa por mostrar umas fotografias que repousam sobre uma mesa. As mais gastas pelo tempo exibem-no ainda sem o cabelo grisalho. As provas estão à vista. É, sem dúvida, o ofício de uma vida.

Eurico Reis, como não poderia deixar de ser, revê-se na história de um filme. "Cinema Paraíso". A película conta a história de um rapazinho que, tal como Eurico, se apaixonou pelos encantos da sétima arte bem cedo. Em "Cinema Paraíso", "Totó", personagem principal, em criança, fugia para o cinema, espreitando as projeções dos filmes. Eurico, com oito ou nove anos, também era para lá que corria, fazendo companhia ao projecionista. Foi nos bastidores, tal como o ator principal do seu filme de eleição, que Eurico Reis aprendeu a amar o cinema.

"Cinema Paraíso" foi rodado em Itália. O enredo da vida de Eurico Reis, esse, passa-se em Aljustrel.

"Comecei a ir muito cedo para o Cine-oriental, dada a proximidade a que este estava da casa dos meus pais. Sempre me interessei. O senhor Francisco Conceição era, na altura, o proprietário do cinema e eu mostrava muito interesse, o que o levou a simpatizar comigo. Ajudava no que podia. Ia buscar com um carrinho de mão ou com uma carreta os filmes à estação de comboios e à rodoviária de Aljustrel. Colava os cartazes das películas em exibição no largo principal. Comecei por fazer estas tarefas. Em troca podia assistir aos filmes", conta Eurico, com um sorriso.

O menino que passou a infância com os olhos postos no ecrã de fundo branco fez-se homem. Cresceu em altura e consigo cresceram também as responsabilidades. "Quando já tinha uns 18 anos a Lusomundo comprou o cinema de Aljustrel e fiquei à frente da sala. Já estava preparado para assumir essa responsabilidade. Depois fui chamado para cumprir o serviço militar e tive de abandonar o cinema. No exército, no entanto, ingressei na especialidade foto-cine – Fotografia e Cinema dos Serviços Cartográficos do Exército. Aprendi inúmeras coisas na tropa. Interessei-me muito pela fotografia e comecei a fazer fotorreportagem. Deixei, nesta altura, um pouco o cinema, mas o bichinho ficou sempre cá".

Os dias do cinema Eurico Reis é, na verdade, um apaixonado por inúmeras artes. Para além de passar grande parte da sua vida agarrado à máquina de projeção, vendo os filmes através da própria cabine, passa também grande parte do seu tempo a pintar, a fotografar e a fazer serigrafia. "Sou um interessado pelas artes em geral. É este mundo que me fascina e que me move".

O cinema, sempre o cinema, porém, é o que o ocupa profissionalmente. Atualmente projeta filmes no auditório António Chainho, em Santiago do Cacém. É o homem da máquina de projeção. Conhece-lhe a mecânica, o ouvir do trabalhar. Faz parte de si, até porque o fez sempre.

Eurico, contudo, está consciente do que se passa atualmente no mundo do cinema. "O cinema, ao longo dos tempos, tem tido altos e baixos" E, como sabe do que fala, explica: "Quando apareceram as cassetes o cinema ressentiu-se. Muita gente começou a ver os filmes em casa. Depois vieram os DVD e, atualmente, a Internet disponibiliza todo o tipo de filme. Muitos, inclusive, ainda estão em exibição no seu país de origem. A magia do cinema, aquela pela qual se esperava meses para se ver o filme mais famoso, perdeu-se".

Eurico foi desse tempo, do tempo em que se esperava para ir ver o filme ao cinema. "Para as películas chegarem à província era necessário esperar muito. Primeiro rodavam nas grandes salas, que estavam nas grandes cidades. Só passado muito tempo é que chegavam e nesse dia, no dia em que eram exibidos, a sala enchia. O povo vestia-se a rigor e ia ao cinema, que era um ponto de encontro e de convívio".

De uma coisa, contudo, Eurico tem certeza. "Quem gosta de cinema continua a ir. O ambiente da sala, os sons, a grandeza do ecrã e toda a envolvência são coisas que não se conseguem reproduzir em casa. Podemos ter um ecrã de topo, com alta definição, que não temos as mesmas sensações de estar a ver o filme no cinema. Essa é a magia que nunca se perderá".

Eurico continua a promover o cinema como pode e tenta levá-lo a todos os sítios. Tanto que, há uns anos, adquiriu uma máquina de cinema portátil. "Posso passar cinema em todos os sítios. Basta-me ter uma parede ou uma tela branca". É o cinema na rua, ao ar livre, lembrando as antigas esplanadas.

Em 2000 Eurico avançou para ideia de fazer cinema itinerante. E a sua máquina, de origem chinesa, já correu inúmeros recantos do Alentejo. "Dá-me prazer levar o cinema às freguesias mais isoladas. Estive em vários sítios onde as pessoas nunca tinham visto cinema. Por exemplo, na aldeia de Estrela, no concelho de Moura, a primeira vez que as pessoas viram cinema foi através do meu sistema. Isto são experiências e sensações que não se esquecem".

O cinema ao ar livre, para Eurico Reis, "é muito cativante". "A máquina de projeção está no meio das pessoas. As pessoas acompanham todo o processo. Veem os rolos das bobines, as películas, ouvem o barulho da máquina a rodar. É um cinema de proximidade. As crianças ficam totalmente encantadas e a sensação é muito boa".

Mas também o cinema itinerante já teve melhores dias. "Este verão está muito fraco. As verbas para este tipo de atividades estão reduzidas e é muito difícil".

Eurico continua, porém, a meter a máquina a trabalhar. "Pode estragar-se por rodar muitos filmes, mas também pode estragar-se por estar demasiado tempo parada", ironiza.

Passados tantos anos, Eurico Reis continua com os olhos postos no ecrã de fundo branco. Continua a ver muitos dos filmes através da cabine e o futuro é coisa que não o assusta. E, neste sentido, o cinema digital também não. "Tudo evolui. É o progresso", considera, até porque, como diz uma das frases mais célebres do mundo do cinema ("E tudo o vento levou"), "afinal de contas, amanhã será outro dia!".

Texto e imagem reproduzidos do site: da.ambaal.pt

65 anos de história, 40 a projetar filmes


Publicado originalmente no blog Cultura de Borla, em  23/03/15.

65 anos de história, 40 a projetar filmes.

O Cine-Teatro de Estarreja faz hoje 65 anos. A 12 de março de 1950, Estarreja via nascer um novo edifício, um projeto do arquiteto Rodrigues Lima inaugurado com a exibição do filme “Aventuras do Príncipe Charlie” (1948), de Anthony Kimmins. Um espaço que faz parte da história. Polo de atração de públicos dos vários cantos da região, tanto pelo cartaz de cinema como pelas peças de teatro e revista. José Sá, um elogiado projecionista, já que “exibia filmes na perfeição”, entregou a vida ao Cine-Teatro de Estarreja durante 42 anos de trabalho. Hoje com 72 anos, começou a trabalhar aos 13 e, mesmo a fugir da polícia, aguentou-se na cabine de projeção e dela só saiu quando o espaço fechou portas definitivamente. São “aventuras” que José Sá faz questão de partilhar, vividas na primeira pessoa, na segunda metade do século XX. O espelho de outra época entre as mesmas, embora renovadas, paredes.

Como surgiu o Cine-Teatro de Estarreja na sua vida?

Sempre gostei muito de cinema. Costumava ir com os meus pais ao Cinema Velho, que existia do outro lado da rua. Quando o Cine-Teatro começou a ser construído andava sempre a brincar nas escadas e depois, quando foi inaugurado, vinha para aqui espreitar os filmes, sem bilhete. Subia também lá cima, à cabine, encostava-me à parede e diziam-me: “Oh menino, não pode estar aqui dentro!”. Eu gostava disto. Com o passar do tempo, os funcionários viam-me tantas vezes que já diziam: “Olha, varre ali que aquilo está cheio de lixo” ou “vai pôr ali um disco para se ouvir”. E assim fui ficando.

E acabou por chegar a projecionista.

Eu vim para aqui aprender. Primeiro a aprender com a vassoura, na cabine, na altura tinha 13 anos. Estava fora da idade e, por isso, tive que me esconder da polícia, porque não era permitido trabalhar com essa idade. Entretanto, já mais à vontade dentro da cabine, ia vendo como é que aquilo funcionava. Brincava um bocadinho com a máquina sem ninguém ver. Com ela parada, claro. Via como arrancava, como parava. Mais tarde, ajudava o projecionista da altura a enrolar o filme e apagava a luz da sala, até que um dia me perguntaram se eu já era capaz de fazer a montagem do filme. Disse que sim e foi aí que comecei com essa tarefa, sempre com a supervisão do projecionista. Com o passar dos anos passei também a pôr a máquina a trabalhar.

Uma arte que aprendeu sozinho. Ia observando e também aprendi muito em África, durante a guerra. Andava sempre com a mania das invenções. Comecei a trabalhar como ajudante de projecionista e cismei que havia de tirar a carteira profissional de projecionista, o que não foi fácil, pois era preciso ser eletricista e eu não era. Meti-me no curso de Eletricista e depois fui fazer o exame de Projecionista ao Cinema São João (Porto). Passei e fiquei projecionista de segunda. Queria ser projecionista de primeira mas, devido à localização aqui do Cine-Teatro e ao tipo de cinema que era, pois não rodava diariamente, não pude subir de categoria.

Andava sempre nas invenções?

Sempre, um dia cismei que o som não devia vir só da frente. Quando estive no Ultramar havia lá bons cinemas ao ar livre, já com stereo. Então, coloquei duas colunas na plateia e duas colunas no balcão. Era totalmente diferente. Um dia cheguei aqui, olhei para os cantos e faltavam as colunas. Estavam à altura da mão dos espetadores e devem-nas ter tirado. Não pus mais nada.

Esteve apenas no Cine-Teatro? Estive na Murtosa uma temporada porque na altura abriram lá um cinema num clube e não tinham ninguém que trabalhasse com a máquina. Até me vinham buscar a casa e tudo. Houve também uma altura que percorria os cinemas todos aqui no Distrito de Aveiro como fiscal de bilheteira.

Era uma profissão rara?

Era e não era assim muito fácil. Quem é que quer estar preso entre quatro paredes? 

Quem é que se interessa por estar de volta da fita?

Em 42 anos de serviço, deve ter muitas histórias para contar. Recorda-se de alguma?

Os cortes da censura. A censura cortava os filmes. Os pedaços de filme ficavam guardados nos cofres da empresa distribuidora que não podia deitá-los ao lixo. Então, a distribuidora colava os bocadinhos e fazia bobines de 1 hora. Enviava-nos e nós passávamos. Por exemplo, depois da sessão de domingo, vínhamos à porta, víamos quem podia ver – só quem conhecíamos – e dizíamos que, a partir da meia-noite, ia haver sessão. E isto enchia. Não tinha interesse, não tinha sequência nenhuma, mas a malta gostava, batia palmas. Era uma autêntica romaria.

Como era na altura em termos de procura? Vinha muita gente ao Cine-Teatro?

Vinha tanta gente que esgotava. Na altura levava cerca de 900 pessoas e ainda se punham cadeiras normais pelos corredores fora. Eram quatro e cinco filmes por semana. Quando era um filme de classe ao domingo, passava também à segunda. A terça era o dia normal de dar cinema, depois quinta, sábado e voltávamos ao domingo. Acabava por não haver descanso quase nenhum. Além disso, os contratos obrigavam à exibição de determinados filmes. Como não tínhamos espaço para os exibir, esses filmes entravam também à terça e à quarta. Mas vinha pessoal de Ovar ver cinema aqui, de Oliveira de Azeméis e até de Aveiro, que já tinha dois cinemas. Havia uma camioneta que trazia também pessoas de Pardilhó e da Murtosa de propósito para virem ao cinema. A qualidade de imagem atraia pessoas de todo o lado.

O Cine-Teatro de Estarreja foi muito importante para o desenvolvimento do concelho. Na sua opinião, o que o levou a fechar portas?

Este espaço decaiu na altura em que a televisão começou a passar filmes. O estado do cinema começou a ir abaixo. Já chovia dentro da sala também. Depois de estar tanto tempo fechado o pessoal desabituou-se, mas as obras tinham que ser feitas.

Quando hoje entrou aqui que memória teve? 

A memória daquilo que eu tinha antigamente, embora renovado. Dá-nos uma sensação estranha.
Saudade? Muita. Eu casei-me e dizia à minha mulher - “olha, vou ter com a tua colega” -, que era a máquina. Estava casado com duas mulheres, a minha mulher e a máquina. Não fazia mais nada. Era uma doença. Gostava imenso disto. Se fosse hoje voltava tudo ao mesmo.

Texto e imagem reproduzidos do blog: culturadeborla.blogs.sapo.pt