sábado, 14 de janeiro de 2017

Vida Solidária – O catador de imagens e cidadãos


Vida Solidária – O catador de imagens e cidadãos
Por Cláudia Piche*

Jornalista com 18 anos de experiência, sabe que, em TV ou em revista, retratar o perfil de um personagem exige acima de tudo uma história interessante, e sensibilidade e inteligência para contá-la. É isso o que o leitor de Idéiasocial terá neste perfil de José Luiz Zagati, o catador de papel que construiu um cinema em Taboão da Serra. Como jornalista de TV, Cláudia acostumou-se a casar imagem com texto, o que explica a forma inusual e a concessão metalingüística deste perfil: a vida do cinéfilo comunitário é contada aqui a partir de uma seqüência de cenas e imagens.

E aí seu Zé, vai ter filme hoje?

Se a resposta for afirmativa, uma fila de crianças começa a se formar na entrada do Mini Cine Tupy, na Gleba C, do Jardim Record, bairro pobre da periferia de Taboão da Serra, na Grande São Paulo. Com a ajuda de alguns amigos e poucos comerciantes locais, mais as economias conseguidas no lixo, como catador de sucata, é ali que está construído o sonho de José Luiz Zagati, ou simplesmente Zagati como é conhecido. Um sonho que ele começou a sonhar ainda bem pequeno, aos 5 anos de idade, em Guariba, sua terra natal, na região de Ribeirão Preto, interior de São Paulo.

No colo da irmã, entrou pela porta de emergência no único cinema da cidade para assistir a um filme que ele sequer lembra do nome. Sabe que tinha cavalos e homens de chapéu. (Anos mais tarde, a irmã diria tratar-se de “Billy the Kidy”). Foi encanto definitivo. “Quando vi aquela sala escura, a luz que vinha do projetor, a imagem em movimento na tela, tive a certeza de que era aquilo que queria para a minha vida: ter uma sala e passar filmes para que as pessoas pobres, como eu, tivessem essa oportunidade” – conta Zagati, com os olhos marejados. E ele conseguiu. No dia 21 de dezembro de 2003, aos 53 anos de idade, inaugurou uma pequena sala de quatro metros de largura por dez de comprimento, tela de 2,5 x 3,0m e 50 cadeiras, algumas plásticas, encontradas no lixo; outras doadas por amantes de antigas salas de cinema. Corta!!!

Ainda no mesmo ano em que Zagati descobriu o cinema (1955), sua família mudou-se para Taboão da Serra. Mas só cinco anos depois, aos 10 de idade, o menino voltaria à sala de projeção, agora do extinto Cine Tupy, no Largo do Taboão. Para conseguir o dinheiro do ingresso (e do saquinho de pipoca, claro!!), Zagati engraxava sapatos e enchia caixas d’água da vizinhança. “Todo sábado, eu mesmo passava a ferro de carvão minha melhor roupa e ia para o Cine Tupy. Não importava o filme: via os cartazes, as pessoas na fila e achava tudo maravilhoso!”

As suas brincadeiras infantis também eram variações remendadas sobre a sétima arte. “Divertia-me em recortar as revistas de fotonovela da minha irmã e pegar sabão escondido da minha mãe, para colar as figuras numa tábua de madeira e fingir que era um filme.”

Aos 12 anos, ele construiu seu primeiro projetor: com uma caixa de madeira, lente de óculos e uma lanterna, divertia a família exibindo trechos de um filme que encontrara na rua. Só depois de adulto descobriria que eram cenas de Chico Fumaça, de Mazzaropi, ainda hoje, seu maior ídolo do cinema nacional.

Depois de trabalhar como pedreiro, borracheiro e montador de baterias de automóvel, em 1990, aos 40 anos de idade, Zagati ficou desempregado. E decidiu catar papel na rua para sustentar a família (cena atual do Zagati junto aos 9 filhos e 6 netos). Na medida em que puxava o carrinho de sucata pelas ruas do Taboão, ia encontrando, no lixo, a matéria-prima para alimentar o sonho do cinema: pedaços de película que emendava com durex! Faltava, no entanto, o mais importante: o projetor. Um dia, conheceu o dono de um projetor de filmes 16mm que o utilizava para exibição de filmes em igrejas. Tentou comprá-lo, mas não conseguiu. Um mês depois, o homem o procurou em casa e, sabendo que Zagati tinha conhecimento em mecânica, propôs que ele consertasse o seu carro em troca de uma informação sobre onde poderia adquirir um projetor. Zagati não teve dúvidas: passou o sábado trocando suspensão de automóvel para conseguir uma indicação imprecisa, sem o nome da loja, apenas algumas poucas descrições do lugar.

Já na segunda-feira, foi atrás do equipamento, numa peregrinação pela região da Santa Efigênia, rua tradicional do comércio de eletroeletrônicos do centro de São Paulo. Estava quase sucumbindo, quando viu uma lojinha de uma porta só na rua do Triunfo, entulhada de computadores e aparelhos de TV usados. Perguntou pelo tal projetor, sem se dar conta de que estava tropeçando num exemplar único. O vendedor – “um tal senhor Virgílio” – recorda Zagati – colocou sobre o balcão, testou, mostrou que o áudio funcionava. E disse o preço: 80 reais. “Aí eu falei assim: olha, eu moro em Taboão da Serra. Vou até lá buscar o dinheiro e volto para levar o projetor. O vendedor botou de volta no chão e mal me olhou na cara.” Zagati lembra que, para economizar tempo e dinheiro, pegou um ônibus da Estação da Luz até o Jardim Macedônia, “torcendo para que ele não parasse nos semáforos”, e literalmente correu alguns quilômetros até sua casa em Taboão. Lá, recolheu os exatos 80 reais que tinha como economia ( “coincidências não existem” – frisa Zagati): 50 obtidos com a venda de sucata e outros 30 ganhos como presente de aniversário do filho mais velho. De volta à rua do Triunfo, o vendedor mal acreditou: “O senhor é mineiro??” – perguntou, querendo dizer que mineiros são pessoas de palavra. “Não, sou paulista. Mas paulista também tem palavra” – respondeu. “Essa eu não podia deixar passar, né??”

A PRIMEIRA PROJEÇÃO A GENTE NUNCA ESQUECE…

“Eu tinha aqueles pedaços de filme em casa, aí no primeiro domingo, à tarde, pendurei um pano numa parede, coloquei o projetor na mesa (treinei um pouquinho em casa, antes, para botar o filme, o som…). E não falei nada para as crianças lá do Sítio das Madres, o bairro onde morava. Tinha muita criança carente. ‘O que é isso seu Zagati??’ É cinema!! E passei então aqueles pedaços de filme que tinha encontrado no lixo. Com aquela curiosidade de criança, olhavam no pano e na luz, não entendiam como funcionava. Não tinha sentido, porque era só pedaço de filme emendado. Mas foi muito importante para mim. Era a primeira vez que aquelas crianças, e até adultos também, viam cinema…”

Isso foi em 1997. Só um ano depois, ele conseguiria seu primeiro filme completo. Àquela altura, já havia feito contato com a Associação Brasileira de Colecionadores de Filmes 16mm, cujas reuniões passou a freqüentar todos os sábados, depois de contar sua história ao presidente da casa. Num dos encontros, ganhou de presente de Arquimedes Lombardi o filme Cruéis Dominadores, uma fita americana de 1951, em preto e branco. “Não via a hora de acabar a reunião para passar o meu filme com começo, meio e fim. Cheguei em casa quase uma hora da madrugada. No domingo de manhã, mal agüentei esperar amanhecer para pegar os dados do filme, que eu não conhecia, e fazer a cartolina com as informações sobre a estória que seria exibida à noite.” Além do elenco, e do nome do diretor, Zagati escreveu: “Hoje, o Mini Cine Tupy apresenta Cruéis Dominadores, às 19 horas.”

“Era um belo domingo, e o pessoal todo endinheirado, gastando, indo pra feira, não podia deixar de ver o cartaz. Caprichei no anúncio do filme. Aí era um cinema de verdade! ” Sem conter as lágrimas, Zagati lembra que nessa noite veio muita gente: uns traziam cadeiras, outros bancos, outros, ainda, blocos de concreto. “Tinha um barzinho do seu Barriga ao lado, bem montado, que vendia refrigerante e salgadinho. Foi o melhor dia de venda pra ele. Vendeu muito!! Todo mundo tomava sorvete, refrigerante, falava do filme. Estava inaugurado o Mini Cine Tupy.”

Dessa noite em diante, o novo cinema comunitário do Taboão da Serra passou a ter programação semanal, sempre aos domingos, com os filmes que Zagati trazia emprestado da Associação dos Colecionadores. Durante a semana, a cada 10 reais obtido por ele com a venda de sucata, dois eram poupados para a compra do milho de pipoca, porque, afinal de contas, cinema sem pipoca não é cinema de verdade!

CESTA BÁSICA DA CULTURA

O que faz um homem pobre, da periferia de Taboão da Serra, oferecer cultura, de graça, para crianças e adultos de poucas oportunidades, em vez de distribuir, por exemplo, leite em pó, roupas, remédios ou cestas básicas? Zagati nunca freqüentou nenhum seminário sobre terceiro setor, por isso desconhece o fim do paradigma assistencialista no campo das ações sociais. Mas sua resposta é certeira. Do alto da sabedoria dos sonhadores, diz: “Cesta básica é uma coisa que acaba. Cultura não: a pessoa vai colher mais tarde o que ela aprende agora. A cultura permanece com a pessoa, amadurece com ela.”

Com suas projeções dominicais de cinema, Zagati é, há cinco anos, um distribuidor comunitário de cultura. Sejam na garagem de sua casa ou no meio da rua de outros bairros, já alcançados pela fama de Zagati, as suas sessões apenas são canceladas debaixo de um argumento incontestável: a chuva.

Um dia, observando que as escolas da região permaneciam fechadas aos domingos, ele cismou de consegui-las emprestadas para as projeções do Mini Cine Tupy. Achou o telefone da Secretaria de Cultura de Taboão, foi até um orelhão e pediu para falar com ninguém menos do que o titular da pasta. Obviamente não conseguiu. Mas como desistir é palavra riscada do seu dicionário, voltou para casa, trocou de roupa e seguiu rumo à Prefeitura, determinado a conversar com o secretário cujo nome nem mesmo sabia. Acabou sendo recebido por uma assessora que, diante da veemência de Zagati, lhe propôs, dias depois, a realização do primeiro festival de cinema brasileiro de Taboão da Serra, no auditório da secretaria. Ponto para Zagati, que daí para a frente, nunca mais seria um anônimo…

A FAMA QUE NÃO TRAZ CAMA…NEM MESA

A história do catador de papel que se transformou em coordenador de um festival de cinema, e de quebra acumulava uma surpreendente trajetória de superação e perseguição de um sonho, atraiu emissoras de televisão e jornais de grande circulação. Tamanha superexposição acabou rendendo a Zagati um outro convite, desta vez da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. “O secretário da época me chamou e perguntou quanto ganhava como catador de papel. Disse que tinha estabelecido uma meta de 10 reais por dia, o mínimo para sustentar minha família.” Assim ele foi contratado, em 2000, com salário de 300 reais por mês. Trocou o carrinho de sucata pela função de promotor de eventos de cinema do governo do Estado, cargo que exerce até hoje. No começo, exibia seus filmes nas favelas da Grande São Paulo. Depois, nos asilos de idosos. E até no Hospital Psiquiátrico do Juqueri, onde esteve por duas vezes.

Uma saga tão rica – claro – só poderia mesmo virar cinema. Três curtas metragens nacionais já levaram às telas a história de Zagati (ver quadro) e um longa com roteiro pronto está em fase de captação de recursos. A TV francesa também produziu um documentário.

Zagati fez fama. Mas não consegui deitar na cama! É certo que as andanças por São Paulo o levaram para mares nunca dantes navegados. No entanto, o sonho ainda não estava completo: era preciso construir uma sede própria para o Mini Cine Tupy, até para que algumas sessões não tivessem de ser canceladas pela chuva. Foram três anos investindo parte do salário na compra de material de construção para levantar a tão sonhada sala, na frente da casa onde mora. Para essa tarefa, não teve o financiamento de nenhuma empresa socialmente responsável, nem contou com a benção de nenhuma fundação ou o aporte das muitas ONGs internacionais que despejam algumas centenas de dólares em empreendimentos sociais no Brasil. O único apoio que teve veio das pessoas mais simples, gente com a mesma origem dele: a comunidade de Heliópolis, uma das maiores favelas de São Paulo, colaborou com uma vaquinha de mil reais!!

Até hoje, Madalena, mulher de Zagati, não se conforma. Para ela, a fama não melhora em nada a vida da família. “Isso me dói muito. Ela e muita gente que até zomba de mim não sabem o quanto ganho com isso. Não ganho dinheiro, mas nunca fiz por dinheiro. Imagine cobrar 50 centavos que seja de uma criança de periferia”, desabafa. “A criança de periferia, nasce aqui, cresce aqui, casa aqui, morre aqui e nunca vai ao cinema!! Acho que deve ser assim em todas as periferias do Brasil.”

IMPACTO SOCIAL

Para tristeza de Madalena, a vida de Zagatti pode não ter mudado além da fama nacional e internacional que passou a ter. Mas a vida de sua comunidade mudou muito. Embora nem mesmo o catador de sucata saiba dizer quanto e como. Homem simples, de poucas letras, faltam-lhe as palavras certas: ao tornar acessível para pessoas de baixa renda um bem cultural como o cinema, o seu esforço contribui para educar e construir a cidadania. “Quando a gente bota aqui um monte de crianças, ou até adultos, para assistir um filme, além de sair da rua, e estar num lugar seguro, algumas delas com certeza vão ter um futuro promissor, porque estão vendo uma coisa boa para sua formação. A gente mostra um outro caminho, uma outra direção”. Com a expressão de quem nunca pensou muito sobre o assunto, ele continua: “Algumas crianças aqui já quiseram fazer teatro, por causa dos filmes. Outras, quando vêem a gente dar entrevista, falam que querem ser jornalistas. Penso que algumas dessas crianças podem ser prefeito, vereador, e até presidente da República no futuro”, filosofa o catador de cidadãos.

Nas sessões do Mini Cine Tupy, há exemplos vivos que confirmam a crença do cinéfilo. Andréia, de 12 anos, freqüenta o cinema de Zagati desde pequena. Está na sexta série do ensino fundamental. E nunca repetiu de ano. Diz que assistir aos filmes ajuda a ter melhores idéias para as redações na escola. A mãe de Andréia, Eliandra Oliveira Sales, tem mais duas filhas: Bruna, de 14 anos, e Stefanie, de dois meses, que “freqüenta o cinema desde que estava na barriga”, orgulha-se. Eliandra conta que uma vez foi ao shopping do Taboão porque as filhas queriam “conhecer um cinema de verdade”. Chegando lá, o dinheiro só dava pra dois ingressos. “Elas não quiseram entrar sozinhas porque falei que era muita escuridão lá dentro. Voltamos pra trás. Mas elas perceberam que o cinema daqui não é muito diferente.” Eliandra, que freqüenta as projeções de Zagati desde que elas aconteciam na rua e cada um levava sua cadeira, confessa que só foi mesmo umas poucas vezes ao cinema comercial: “Acho que umas quatro.” E arremata: “Prefiro o daqui. É perto de casa, de graça e o seu Zé explica muita coisa boa pra gente!!”

Atualmente, as sessões do Mine Cine Tupy também complementam o programa “Agente Jovem” – uma parceria do governo federal com as prefeituras municipais – em que adolescentes entre 15 e 17 anos em situação de vulnerabilidade social recebem ajuda financeira para permanecer na escola, além de participar de atividades profissionalizantes e culturais extra-classe. Zagati dedica duas sessões por semana ao atendimento do projeto. Mas não recebe nenhum dinheiro extra – apenas o salário de monitor estadual que hoje gira em torno dos 600 reais.

Além disso, uma vez por mês atende pacientes psiquiátricos de um centro comunitário da região. Segundo Zagati, eles vêm a pé acompanhados de psiquiatras e enfermeiros. “Hoje não é mais como antes, que os pacientes ficavam presos. Você tem que conversar com eles, arrumar a cabeça deles. Aqui eles se sentem normais, porque assistem o filme, conversam com todo mundo, comem pipoca. Não sei como explicar, mas eles sentem que fazem parte da sociedade!!” . Falou, dr. Zagati!!

EMPREENDEDOR SIM!! POR QUÊ NÃO??

A narração dessa história pessoal na boca de Zagati soa invariavelmente como um roteiro de cinema. Ouvi-la traz a impressão de que ele mesmo se enxerga como um personagem da telona, coisa que já o foi, e continua sendo, nos tantos filmes sobre sua vida. Mas, para além do personagem, é possível enxergar claramente um Zagati empreendedor social, embora, muito provavelmente, ele não se enquadre neste ou em qualquer outro conceito. Em princípio, ao ser provocado, estranha até mesmo o termo empreendedor, mas rende-se ao fato de que ele cabe sim dentro dele: “Nunca tive essa intenção. .. Mas, por tudo o que aconteceu, chegar aonde chegou, acho que posso me considerar um empreendedor! Estou conseguindo realizar coisas importantes….”

Qual o significado da palavra empreendedor, afinal? Zagati pensa um pouco. E arrisca: “Empreendedor é aquela pessoa que o patrimônio cresce. Tudo o que ele se propõe a fazer dá certo e ele tem a certeza de que vai dar certo. É, sou um empreendedor. Social!”

De fato, o patrimônio de Zagati cresceu. E se modernizou. Além da sede própria, o Mine Cine Tupy tem, hoje, uma coleção com 8 projetores 16mm, mais uns 4 ou 5 em super 8, além de um VHS e, claro, o DVD – preferência unânime da garotada (muitas das fitas de Zagati, entretanto, estão danificadas, por falta de acondicionamento apropriado do arquivo).

Atualmente, o empreendimento de Zagati está constituído juridicamente como uma OSCIP – a Associação Cultural Zagati – resultado do cumprimento de uma promessa de campanha do atual prefeito de Taboão da Serra. O próprio Zagati confessa, no entanto, desconhecer os benefícios do título. Os apoiadores do Mini Cine Tupy continuam os mesmos de todo o sempre – a comunidade, claro, o Depósito Trianon e o Center Rebelo – duas pequenas lojas de material da construção – além da Imobiliária Pirajuçara, “que ajuda nas festas de Natal e do Dia das Crianças com os comes e bebes e mais os brinquedinhos para as crianças” – diz.

Mas, efetivamente, o principal patrimônio do empreendedor Zagati não pode ser medido pelo passivo de imóvel e equipamentos. Está na mudança que promove na comunidade. “O que cresce é o que a gente está dividindo, partilhando com as pessoas, que é o cinema, a cultura. Então acredito que é um grande empreendimento”.

CINEMA PARADISO TUPINIQUIM

Para o leitor que se ressentiu até aqui da inevitável e obrigatória comparação da saga do Mini Cine Tupy com o filme de Giuseppe Tornatore (Cinema Paradiso, 1989), ok, aqui vai ela!

Zagati vê, sim, muita semelhança entre a história dele e a do projecionista Alfredo e seu ajudante, Toto. Ao contrário do menino da ficção, no entanto, Zagati não deixou sua comunidade para retornar mais tarde como um cineasta de sucesso. Continua fazendo cinema, à sua moda, na mesma periferia pobre da mesma Taboão da Serra onde chegou 51 anos atrás.

Quem disse, porém, que ele não sonha em ser cineasta???

“Acabo de dirigir um curta metragem, em VHS, chamado Pai. Trata do problema dos transplantes e da doação de órgãos no Brasil. O roteiro é de um rapaz aqui da comunidade, o Luiz Bezerra, que é ator. Além de dirigir o filme, interpreto Pedro, personagem principal, pai de Luiz.”, conta com certa timidez.

Zagati revela, ainda, que tem outro roteiro pronto, escrito por ele: O Pescador de Lambari – “um drama sertanejo”. Mas é também aqui, na periferia de Taboão da Serra, que ele pretende escalar seu elenco. Em seus filmes – atente para o plural! – Zagati quer tratar as questões da comunidade. E exibi-lás, obviamente, no Mini Cine Tupy.

Ele ainda não tem uma câmera na mão. Mas, com certeza, anda cheio de idéias na cabeça…

FIM

Filmes já produzidos sobre a história de Zagati

Zagati
 Direção: Nereu Cerdeira e Eduardo Felistoque/ SP
Ano de Produção: 2001
Formato: 35mm/PB/documentário dramatizado
Tempo: 17min
Onze prêmios em festivais nacionais, entre eles o Prêmio Especial do Júri e o Prêmio Canal Brasil no Festival de Cinema de Gramado em 2002.

Mine Cine Tupy
Direção: Sérgio Block/ RJ
Ano de Produção: 2002
Formato: vídeo/colorido/documentário
Tempo: 6 min

Z.inema
Direção: Carol Thomé
Ano de Produção: 2005
Formato: vídeo/colorido/videorreportagem documental
Tempo: 20 min

*Cláudia Piche é repórter de TV. Com passagens pelo SBT, TV Bandeirantes, CNT e TV Cultura, foi finalista do Prêmio Embratel 2005, na categoria Televisão, pela série 30 anos sem Vladimir Herzog.

Texto reproduzido do site: ideiasustentavel.com.br

Cinema Paradiso e a Educação

Cena do filme Cinema Paradiso.
Foto ilustrativa: www.espalhafactos.com

Enviado em 3 de julho de 2014 | No programa: Tempo de Vida.
Escrito por William Sanches | Publicado por Rádio Boa Nova

Cinema Paradiso e a Educação.

O filme “Cinema Paradiso” começa com o menino Totó, numa Itália abalada pela guerra – o próprio personagem principal sofreu um revés irreparável, seu pai foi enviado para os campos de batalha e não voltou. Órfão de pai, vivendo apenas sob a tutela da mãe, Totó tem uma grande paixão: o cinema.

Totó é um amante da sétima arte e como todas as pessoas apaixonadas e envolvidas em situações como essa, arrisca-se diversas vezes para que esse amor seja vivido com intensidade, com realidade e não mede esforços para conseguir o que deseja.

Em determinadas situações, utiliza o dinheiro que a mãe lhe dá para comprar mantimentos realizando seus sonhos, encontrando-se com seu ardente desejo, indo ao cinema, vendo os filmes… Nos anos que antecederam a chegada da televisão, logo depois do final da Segunda Guerra Mundial, Alfredo (Philippe Noiret), é o único projecionista da cidade, apaixonado pela que faz: Alfredo cuida do cinema como cuida da própria respiração. O cinema é a única forma de entretenimento da cidade.

Todos estes acontecimentos chegam em forma de lembrança, quando agora Salvatore (o pequeno Totó) cresceu e se tornou um cineasta de sucesso, que se recorda da sua infância quando recebe a notícia de que Alfredo havia falecido.

No clássico “Cinema Paradiso”, de 1989, o diretor e roteirista italiano Giuseppe Tornatore transforma o pequeno e sensível protagonista Totó em uma forma de inspiração e reflexão sobre o próprio cinema. A obra é metalingüística, ou seja, o próprio cinema contando sua própria história, é como se fosse uma autobiografia.

A mágica do filme está na paixão de Totó pelo cinema e sua perseverança em aprender e conhecer o ofício de projecionista. Totó acaba descobrindo o mundo por meio de uma escola diferente, uma escola que não possui quadro negro justamente porque o substitui pelas imagens, sons e pelas emoções e sentimentos traduzidos pelas belas projeções comandadas pelo Alfredo que é uma espécie de professor, pai e amigo de Totó.

Cinema.

O cinema e a arte em geral educam justamente porque encantam com sua beleza, cor e subjetividade. Apaixona aqueles que conseguem sentir sua sensibilidade e o leve toque retratado nos mais simples dos detalhes.

O sábio e experiente Alfredo utiliza-se dos filmes e de suas histórias para fazer do menino Totó um ser humano melhor. Ensina não só os saberes necessários para uma vida com qualidade, ensina também a importância do sonho, a importância de acreditar e a necessidade de lutar para que se tornem realidade. Alfredo percebe a paixão e vida estampadas no brilho dos olhos do pequeno menino e mesmo depois de ficar cego, Alfredo continua o instruindo e ensinando o fascínio da vida.

Na verdade, Alfredo é um professor na acepção mais completa do termo. Essa é a função do verdadeiro educador e das instituições de ensino: descobrir e despertar potenciais.

As salas de aula podem ser tão atraentes quanto as telas de cinema. Até porque é por meio delas que começamos a aprender mais sobre nós mesmos e sobre os que estão à nossa volta.

Nas salas de aula aprendemos com a riqueza da literatura, com o segredo dos números, com as palavras e onde mais se iniciam relações interpessoais marcantes e marcadas por toda a vida? É lá que os melhores professores nos orientam sobre o quanto podemos ser detentores de nosso destino.

São momentos dedicados ao crescimento intelectual, social e moral dos indivíduos. Alfredo também educa por meio de suas histórias de vida, às vezes, até mais fascinantes do que as projetadas na tela do cinema. Os melhores professores podem “apaixonar” seus alunos para a beleza da vida e para as diversas maneiras de torná-la melhor a cada dia. Uma escola perfeita é aquela capaz de deixar nossos aprendizes como o pequeno Totó: repletos de entusiasmo, energia e autoconfiança.

“Cinema Paradiso” nos proporciona reflexões e nos permite acreditar que apostar em nossos sonhos e paixões pode dar grandes lucros. Atualmente, há muitos jovens que abraçam formações e profissões que podem lhes garantir melhores salários, maior prestígio ou mais conforto em suas vidas materiais.

Isso até pode acontecer, porém em alguns casos essas pessoas constituem carreiras como o Direito, a Medicina, a Engenharia ou a Odontologia, que são as profissões mais procuradas e disputadas, não por serem estimulantes ou atraentes para os estudantes, são escolhidas em virtude de fatores como dinheiro ou colocação social. Acontece que, passados alguns anos, temos alguns casos de profissionais eficientes, capazes e até de sucesso, mas frustrados e infelizes com vida que levam.

Com o passar do tempo, Totó adquire a maioridade e um rompimento se faz necessário. O que poderia parecer o fim de um sonho acaba concretizando um casamento definitivo entre o garoto, adolescente e agora jovem Totó com o cinema. Ele se torna um realizador, um produtor, um cineasta de sucesso.

De admirador das imagens em preto e branco que fascinaram sua infância e sua adolescência, de colecionador de fotogramas censurados pelo padre, de projecionista do Paradiso em sua cidade de origem, Salvatore acabou se tornando um produtor de sonhos. Suas imagens passam, a partir de então, a encantar milhares de pessoas em seu próprio país e fora dele.

Totó não se contentou em apenas sonhar, tornou-se também um construtor de sonhos.

Texto e imagem reproduzidos do site: radioboanova.com.br/artigos/cinema

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

O Cinema da Lumber


O Cinema da Lumber.

Os anos se passaram e muitos documentos e livros de registros da “Lumber” foram desaparecendo com o tempo. Sobre o cinema, sabemos apenas que logo no início das suas atividades, a “Lumber” possuía um cinema na Vila Argentina, que servia de entretenimento aos seus funcionários. Era o Cine Monroe.

Mais tarde, esse mesmo cinema teria sido mudado para a sede da empresa, atual CIMH. O projetor usado no cinema, era a base de “carvão” e produzia uma imagem excelente. Os tresbarrenses mais antigos nos contam que enquanto uma lâmpada produzia mil wates de potência, o carvão gerava três mil wates.

Em setembro de 1952, com a posse do Exército sobre a área da “Lumber”, o cinema se tornou conhecido como: “Cine Militar”.

O cinema fez parte da história de Três Barras e teve seus momentos de glória e magia através de várias gerações.Era o ponto máximo da cultura tresbarrense.

Suas últimas sessões aconteceram no início de 1980.

Entre as pessoas que trabalharam no Cinema da Lumber (projecionista, bilheteiro, lanterninha, porteiro, etc.) são lembrados com saudades: Vitorino Ferreira, Feres Mansur, Mínero Bitencourt, Antônio Toporoski, Orlando Pecharca, Basílio Bídus, Jeremias Massaneiro, Friederich Brauhardt, Atanázio Braz e seus filhos Víctor João Braz, Déde e Nivaldo Braz, Sebastião Garcia e Antônio.

O descaso com a cultura tresbarrense, deixou em ruínas um espaço que até hoje poderia estar sendo útil para apresentações teatrais, palestras e demais atividades culturais.

É lamentável que as pessoas sejam tão egoístas e acomodadas, chegando ao ponto de deixarem que a nossa história seja esquecida ou levada para fora.

Um povo que não tem memória, jamais terá uma história para contar.

 “O Cinema em Três Barras”.

Três Barras teve como ponto de partida da sua colonização, a Vila Argentina.
E lá, nos idos de 1915, já funcionavam dois cinemas:

O cinema brasileiro (Cine Variedades) e o cinema da Lumber (Cine Monroe).
Nas décadas de 30 e 40, outro cinema funcionou junto ao Clube Recreativo Tresbarrense (centro).

O cinema do qual os tresbarrenses mais sentem saudades, foi o cinema da Lumber, (depois mantido pelo Exército, com sessões abertas ao público em geral).

No início de 1980, em todo o Brasil, muitos cinemas fecharam suas portas e com eles,
também o Cine Militar.

Os tresbarrenses que tinham como ponto de encontro e bate papo, o “Cinema da Lumber”, ainda nos contam que:
• O cinema era mudo e só mais tarde veio o som.
• Os filmes eram em partes. A todo momento havia um intervalo. Depois vieram os filmes colados.
• A tela era pequena e quadrada. Muito depois, é que passou a Cinemascope (tela grande e retangular).
• Se a cópia do filme fosse muito gasta, arrebentava a todo momento e o projecionista recebia uma grande vaia.
• A maioria dos filmes chegavam através do trem, em latões que pesavam de trinta a quarenta quilos.
• O projetor do cinema da Lumber era a base de carvão e não de lâmpada, como outros projetores.
• O cinema da Lumber possuía um total de 250 cadeiras.
• Durante vinte anos ou mais, o cinema utilizou uma música de Tchaikovski (Concerto nº1 para piano), como prefixo musical, que anunciava o início das sessões.
• Nas décadas de 50 e 60, o cinema da Lumber serviu de espaço para atividades teatrais e solenidades de formaturas do Grupo Escolar “General Osório”.
• A maioria das sessões aconteciam somente nos finais de semana: Sábado à noite, Domingo à tarde e à noite.
• Era tradição, em todo 12 de outubro as escolas ganharem uma sessão gratuíta de matinê, em homenagem ao dia das crianças.
• Por que os cinemas fecharam?
Porque os filmes novos passaram a ser liberados mais cedo para a televisão, o vídeo cassete nos oferece uma infinidade de opções, o vídeo game e o computador desviaram a atenção do público infanto-juvenil e a televisão por assinatura complementa a questão.
• Para entender melhor o que representava o cinema na comunidade tresbarrense, é interessante assistir ao filme “Cinema Paradiso”.
Esse filme é dedicado a todos aqueles que fizeram do cinema, a sua grande paixão.
Acredito que toda cidade do interior, tenha também uma história parecida com a nossa.
Enfim, onde existiu um cinema, sempre haverá uma história a ser contada.
• Hoje, reduzidos às capitais e às cidades com um considerável número de habitantes, os cinemas são freqüentados por aqueles que anseiam em assistir ao filme em lançamento.
Raramente, alguém vai ao cinema para ver uma reprise; como acontecia antes.
• Em novembro de 2003, estando trabalhando como professor na disciplina de sociologia,
José Francisco de Souza, juntamente com seus alunos, montaram um projeto sobre a
história do cinema em Três Barras.
O projeto foi apresentado pelos alunos na “Iª Feira Escola Viva”, do Colégio Estadual
“General Osório”, entre os dias de 21 e 22 de novembro.
Uma média de trezentas pessoas (alunos e moradores locais) visitaram a sala que conta-
va um pouco sobre o que era o cinema na nossa comunidade.
“Luz, câmera, ação!”, tinha como objetivo, resgatar um pouco da história cultural dos
tresbarrenses.

Ainda sobre o cinema...

• Os cartazes que anunciavam as novas atrações do cinema, eram expostos diante do Hotel e Bar Tupã (centro).
• Se o final de semana era de chuva forte, faltava energia elétrica. O filme parava na metade e voltávamos todos para casa.
• Em casos assim, recebíamos o ingresso novamente, para voltarmos numa próxima sessão.
• Não havia a televisão e as matinês eram esperadas com ansiedade, pela garotada.
• No ano 2001 foi realizada uma pesquisa com 20 tresbarrenses, que responderam sobre a importância do cinema na cultura da comunidade.
Muitas das informações obtidas, estão descritas aqui neste disquete.
• A influência da Lumber junto às distribuidoras cinematográficas de Curitiba, nos possibilitava assistir aos filmes recém-lançados no Brasil.
• Na pesquisa realizada, foram entrevistadas pessoas de idades diferentes, que freqüentaram o cinema em épocas diversas. Desse modo, cada um contou a história a partir do seu ponto de vista.

• Pesquisa: José Francisco de Souza.

• Três Barras – SC - Dezembro/2001.

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Luz, Câmara, Ação. 
Por José Francisco de Souza.

Houve uma época que já vai longe, em que passar algumas horas numa sala de cinema, era o momento mais importante na vida de muita gente.

Eram momentos mágicos, de sonhos e entretenimento.

Em poucas palavras, esta é a história de um antigo cinema, que durante muitas décadas foi a principal diversão de uma cidade toda.

Lá pelos idos de 1900...no pequeno povoado de Três Barras, chegaram os americanos, vindos da Califórnia e instalando ali a maior serraria da América do Sul: a Companhia Lumber.

Com a grande serraria, chegaram centenas de famílias, vindas de todas as partes em busca de trabalho.Logo, como entretenimento para seus funcionários, a Lumber construiu um cinema.

No início os filmes eram mudos, é verdade.Mas, já em 1927, o filme “O cantor de jazz” estreava como primeiro filme sonoro, dando mais vida ao mundo da sétima arte.

Meus pais, tios e demais parentes, foram assíduos freqüentadores do cinema da Lumber, nas décadas de 40 e 50, época de ouro de Hollywood.

Mocinhos e bandidos, piratas e princesas, castelos encantados, castelos assom-
brados...

Viajando pelo velho Oeste em meio às caravanas, pelo Saara em velozes tapetes mágicos ou pela selva africana, ouvindo o grito do Tarzan, a platéia vibrava sem se importar, que tudo aquilo na tela, era apenas uma fantasia.

Era uma linda tarde de domingo de 1965, quando entrei pela primeira vez no Cine Militar (ex-Lumber), para assistir a uma comédia do Charles Chaplin.

Naqueles românticos anos 60, a televisão ainda não havia chegado aos nossos lares e o cinema prosseguia com suas sessões sempre lotadas.

Era a época dos grandes épicos, dos westerns, das aventuras e dos românticos:
“La violetera” e “Dio como ti amo”.

Hitchcock assustou muita gente com seu bando de pássaros selvagens, quando aqui foi exibido: “Os pássaros”.

Perigo, aventura e suspense na tela.Mas, na platéia, o inesperado também acontecia.

A luz acabou ou a fita arrebentou?

Perguntava a platéia enfurecida, quando em meio a uma cena de ação, o filme parava de repente.Não foram uma, nem duas vezes em que recebemos os ingressos novamente, para voltarmos em outra sessão, no próximo domingo.

Quando o final de semana era de chuva forte, geralmente faltava energia elétrica e lá se ia a nossa diversão.

E se a cópia do filme fosse muito velha e desgastada, não havia “durex” que colasse.

Hoje, quando entro numa vídeo locadora, posso alugar quantos filmes desejar.

Naqueles tempos, os filmes demoravam a chegar e vinham em latões pesados, trazidos pelo trem. 

Muitas coisas mudaram até para melhor...

Porém, a magia das matinês já não existe mais.

Alguém acreditaria, que aquela era uma época dourada, em que as telas dos cinemas faziam brilhar astros e estrelas, que durante décadas a fio fizeram a alegria de várias gerações? Sim, essa época realmente existiu.

Mas o tempo foi passando...

A televisão chegou de mansinho e se expandiu pelos lares.

Nosso antigo cinema prosseguiu até 1980, tendo como últimas apresentações alguns filmes nacionais.

Nessa mesma década, de Norte a Sul do Brasil, muitos cinemas começaram a fechar, sentindo que as salas já não eram mais um filão comercial.

E com a chegada do vídeo cassete e da liberação dos filmes novos para a TV, a queda de público nos cinemas aumentou ainda mais.

O cinema, já desativado, passou a dar espaço para bailes e discoteques, para uma gera-
ção alheia à história daquele espaço.

Sendo uma construção antiga, hoje só nos restam as ruínas como lembranças.

Na última vez em que lá estive, ao tocar as mãos naquelas paredes, pensei comigo mesmo:
se elas falassem, quantas histórias não teriam para nos contar?

* José Francisco de Souza, é pedagogo e professor de teatro.

Memórias de um projecionista do Metro Passeio

Foto | Isabella Raposo.

Publicado originalmente no site do jornal O Globo, em 05/09/2013.

Memórias de um projecionista do Metro Passeio
Por Jorge Antônio Barroso. 

Em 1938, aos 26 anos, ele conheceu de perto a atriz e cantora americana Jeanette Mac Donald (1903-1965), uma estrela de Hollywood de passagem pelo Rio de Janeiro. Silvério Dias Ribeiro era o projecionista do famoso cinema Metro Passeio, inaugurado no Centro do Rio em 1936. O Metro pertencia à poderosa Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) no auge do cinema. Jeanette havia sido convidada para uma pré-estreia na cidade. Tomou uns drinques a mais e foi parar no confortável sofá da cabine dirigida por Silvério. Ali mesmo embarcou nos braços de Morfeu. Só restou a Silvério, ao final da sessão, levar a soprano para o não menos glamouroso Hotel Serrador, que ainda está de pé na Praça Mahatma Gandhi 14, e hoje é sede da empresa EBX, de Eike Batista.

O episódio com a cantora americana é apenas uma das tantas histórias que Silvério Dias Ribeiro (na foto com a filha, Sônia) guarda na memória, nos 101 anos de vida. A exemplo de Alfredo, o projecionista de "Cinema Paradiso", Silvério é um arquivo vivo de um tempo que não existe mais. Ele é um dos mais antigos projecionistas de cinema do país e por isso será homenageado no Festival CineMúsica que começa hoje em Conservatória, a capital da seresta, distrito de Valença, a 142 quilômetros do Rio. Em Conservatória há uma réplica do cinema Metro Tijuca, o Centímetro, feita por Ivo Raposo.

Nascido em São Fidélis em 29 de fevereiro de 1912, Silvério cresceu na fazenda de café do pai que quebrou com a Crack da Bolsa de Nova York, em 1929.

-- Uma das lembranças da minha adolescência foi ver as pessoas queimando café na fazenda -- contou Silvério em vídeo gravado por Hernani Heffner, professor de História do Cinema, da PUC, coordenador da Cinemateca do MAM e curador do Festival CineMúsica.

Com a crise econômica, a família de Silvério se muda para o Rio e ele vai morar em Bangu, na Zona Oeste. No bairro que se tornou célebre por causa da fábrica de tecidos e do bicheiro Castor de Andrade, Silvério começou a trabalhar como projecionista do Cinema Bangu. A atividade era um bico depois do expediente dado numa farmácia. Silvério também jogou futebol no Bangu, onde foi campeão em 1933. Três anos depois começou no emprego que marcou sua vida -- o de projecionista noturno do Metro Passeio, da inauguração em 1936 até 1964. Depois foi para o Metro Copacabana, onde ficou até se aposentar aos 70 anos, no início da década de 80.

Silvério foi testemunha ocular da época de ouro do cinema no Rio, nos anos 30. Foi quando o espanhol Francisco Serrador (1872-1941) criou a Cinelândia, inspirado na Times Square, em Nova York. Era um tempo em que as estreias provocavam filas nas portas de cinemas como os da Metro. O do Passeio -- cujo prédio no estilo art deco foi demolido e em seu lugar construído o Metro Boavista -- havia simplesmente o melhor ar condicionado de cinema da cidade ("ar de montanha", anunciava o cartaz na porta) e moderníssimos sistemas de acústica. O tapete vermelho era alto e dava ao espectador a senação de que estava nas nuvens. As pessoas iam ao cinema com a melhor roupa, mesmo que a amassassem um pouco. Uma época em que existiam os lanterninhas, que, sob o pretexto de ajudar as pessoas a acharem o lugar, acabavam denunciando animados casais de namorados.

Seu Silvério lembra com alegria da estreia de "E o vento levou", de 1939. A fila dava volta nos quarteirões para ver o dramalhão de quatro horas. O projecionista aposentado guarda também uma prova do orgulho de ter sido funcionário da MGM, numa época em que os patrões americanos faziam questão de garantir direitos trabalhistas que ainda não haviam no Brasil: a face do leão da Metro esculpida no anel de ouro que ele ganhou por 25 anos de trabalho. Ao todo foram 46 anos de serviços prestados à cultura.

O período mais difícil, lembra Silvério, foi quando, após a implantação do regime militar, ele era obrigado a projetar filmes para uma audiência muito exigente: os funcionários da Divisão de Censura da Polícia Federal, que tinham direito a sessões exclusivas para decidir o que o público poderia ou não ver. Um tipo de gente que não dava a mínima para o assustador rugido do leão da Metro. Eles eram o próprio leão.

Texto e imagem reproduzidos do site: blogs.oglobo.globo.com/ancelmo

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Histórias por trás da tela do cinema.




Publicado originalmente no site Milton Jung, em 10 de junho de 2013. 

Histórias por trás da tela do cinema.
Por Marília Taufic.

Com apenas sete anos, os fins de semana do pequeno Noel Taufic, neto de libanês, já eram tempo de fazer negócios. Rodava quase 200 quilômetros com o pai, Kamel, da pacata Leme, no interior de São Paulo, até a capital, para voltar na bagagem com mercadoria valiosa. Era início da década de 1960 e, naquela época, eles precisavam ter um produto diferente para oferecer aos clientes em cada dia da semana. “Segunda era dia de comédia, terça podia rodar um drama, as quartas eram tradicionais dos namorados, sexta a galera curtia um bang bang, sábados e domingos passavam comédia, romance, tínhamos que pensar em sessões para toda a família”. Pai e filho viajavam juntos para tratar da diversão de tantas pessoas que se emocionavam no cinema da cidade.

 As películas começaram a rodar no sangue dos dois quando Kamel ainda era adolescente. Herdeiro do prédio onde ficava o primeiro cinema de Leme, o Cine São José, Kamel não esperou atingir a maioridade para assumir os projetores. Ainda na juventude, subia com os equipamentos e as histórias em um caminhão e rodava as fazendas da região para iluminar muros ou um lençol com seus filmes. Em 1948, assumiu o São José e, claro, como um bom filho de libanês, os negócios iam bem e tinham que crescer. Onze anos depois, no dia do aniversário da cidade, em 29 de agosto de 1959, nascia o Cine Alvorada com 1.180 lugares para oferecer alegria a todos. O futuro parceiro de viagens de Kamel e com bom tino para programação da telona chegou pouco tempo antes, em abril de 1955, para nunca mais sair do cinema. “Virou um vício”, conta Noel, como se aquele espaço, as relações humanas e a emoção que ele proporciona, nunca mais pudessem sair de sua vida.

 “O cinema é onde a pessoa conheceu a namorada, deu o primeiro beijo, riu com os amigos, foi um lugar legal na vida dela. Aqui você vende alegria, emoção, é um negócio muito gratificante”. E quem conhece o empresário de 58 anos com histórias para contar que parecem que foram por mais de 100 anos no comando de cinemas, sabe que ir a uma sala com a presença do Noel é prazer na certa. Ele está na bilheteria, na bomboniere, dá uma espiadinha para ver se a projeção, o som e o ar condicionado estão bons e se rolar algum problema é correria até a sala de projeção, dinâmica que aprendeu com o pai e com tantos outros companheiros de cinema.

Em meados do século passado, quem rodava pelas ruas do centro de São Paulo poderia ver um cinema por quarteirão. “Na Avenida Rio Branco eram quatro, só entre o Largo Paissandu e a Duque de Caxias. E só no Largo Paissandu eram outros quatro: Cine Olido, Art Palácio, Cine Paissandu e o Cine Ouro”, lembra Noel, que andava pela capital como se estivesse em uma sala de aula. Na época, o Brasil chegou a ter mais de cinco mil salas, número bem maior do que as pouco mais de três mil de hoje. “Tinha muito cinema na periferia, ao ar livre, auto cine, a maior sala de São Paulo era na zona leste, o Cine Mundo, com quase quatro mil lugares. E a família Ferrador era dona da maior rede, com um grande circuito: Cine Ipiranga, Majestic e tantos outros. Mas não existia uma marca. Os cinemas tinham nome”, fala Noel fazendo referência às atuais grandes redes.

Nesta época quem via um filme na telona, só poderia ter o bis na TV cinco anos depois, janela que diminuiu para dois anos no governo Collor e que foi diminuindo cada vez mais até culminar para um futuro, que é o que ocorre hoje, de muitas pessoas terem acesso ao filme antes mesmo dele ser lançado, por meio das cópias piratas e dos downloads na internet. Noel conta que, eventualmente, filmes de sucesso eram reprisados em meses diferentes. “Eu cheguei a exibir Uma Linda Mulher cinco vezes, Dio Come Ti Amo, exibi umas dez vezes. Também foi assim com Marcelino Pão e Vinho, os bang bangs italianos, como Django, o original (de 1966), claro”. Mas este hábito não era simples, porque ele causava um problema que quem já trabalhou em uma cabine de projeção conhece bem: as películas quebradas. “A cópia vinha meio estragada e tinha que arrumar. Às vezes as distribuidoras davam duas cópias diferentes para emendar”, lembra com gosto, como se isso também fosse normal para se divertir com os negócios. “Faz parte!”.

 Mas ao mesmo tempo que o público tinha acesso a um filme diferente a cada dia da semana, os grandes lançamentos às vezes traçavam uma história diferente nos cinemas nacionais. As primeiras risadas das comédias de Mazzoropi, por exemplo, aconteciam, em sua maioria, no Cine Art Palácio. Toda semana do 25 de janeiro, data do aniversário de São Paulo, um novo filme do comediante era lançado no cinema do Largo Paissandu e lá ficava por mais de um mês para depois poder ser lançado em outros lugares. “Aqui no interior a gente preferia colocar na época da safra da cana-de-açúcar, em maio, quando o público do Mazzaropi estava com mais dinheiro”, explica Noel.

Aos 15 anos, o filho de empresário já fazia a programação dos cinemas do pai sozinho. Cinco filmes por semana, 20 por mês, cartazes e trailers escolhidos e depois de muita conversa, Noel voltava com o ônibus cheio de história para projetar. Apesar de jovem, ele já sabia atrair alguém para uma sala de cinema, contando sobre um filme, sem nem ao menos tê-lo visto. Não foi por pouco que na mesma época foi emancipado pelo pai para abrir seu primeiro cinema na cidade vizinha, Pirassununga, e por aí traçou sua própria história em muitas outras cidades: Araras, Porto Ferreira, Espírito Santo do Pinhal, Mogi Guaçu, Itu, Tietê, Tatuí, Patrocínio, Araxá, Itaúna, Divinópolis, Campinas, Peruíbe, Mongaguá, Itanhaém, Guarujá, Pedreira, Vinhedo e Santa Rita do Passa Quatro, tiveram cinemas em seu comando. Noel viu o auge e a decadência dos cinemas de rua.

 “As pessoas dão vários motivos, mas para mim, os maiores culpados para a queda do cinema foram os próprios donos, porque as salas foram se tornando ruins, o público precisava de algo novo”. Para Noel, a rede Cinemark trouxe um novo conceito para o Brasil que deu certo. “O cinema stadium (o da plateia em degraus) agradou e os exibidores começaram a prestar atenção nesta mudança. Nos Estados Unidos já existia TV a cabo e o cinema andava e aqui não, precisava de algo diferente”, acredita ele.

 Além da novidade estrutural, as novas salas também saíram das ruas para os shoppings, trazendo maior sensação de segurança e comodidade, com estacionamento, refeição e todo um complexo de compras e outros serviços. “A sociedade capitalista tem que consumir né?”, conclui ele.

Noel também não pôde investir o bastante para fazer todas essas mudanças que a sociedade desejava. Seus cinemas foram fechando e para construir o novo conceito, ele voltou para Leme. Na Avenida de entrada da cidade, está o Cine Avenida, com pouco mais de 180 lugares, stadium e som Dolby Digital. Segundo Noel, as pessoas procuram hoje o cinema para fazer festa, assistir a um show, um jogo de futebol e até a final da novela. “Hoje o cinema não é apenas um local para exibir filmes, é uma casa de espetáculo”. O último capítulo do sucesso global Avenida Brasil, lotou o cinema lemense e como um fiel e fanático corintiano, não poderia deixar de passar a final da Libertadores com o Timão. “Demos sorte!”, lembra orgulhoso. Tais oportunidades, explica ele, ficarão ainda melhor com a projeção digital. “As pessoas poderão assistir a eventos ao vivo pela telona, é um futuro diferente, porém fantástico”, fala o exibidor, que acredita que a magia está dentro do cinema, independentemente do que estiver acontecendo diante dos olhos dos espectadores.

 O recomeço do exibidor já é um sucesso reconhecido inclusive entre estudantes de administração. No último dia 3 de junho, Noel recebeu, além de outros dois empresários, o prêmio “Empreendedor Nota 10”, realizado pelo Centro Universitário Anhanguera de Pirassununga, que teve como objetivo destacar os empresários que transformaram uma boa ideia, aliada a muito trabalho, em um negócio de sucesso com geração de emprego e renda na região. Para Noel, o prêmio representa uma história de ousadias. “Todos nós somos inteligentes, mas o empreendedorismo está no sangue daqueles que têm coragem de correr riscos. Já acertei muito e já errei, o importante é tentar”, ensina.

Texto e fotos reproduzidos do site: miltonjung.com.br

sábado, 17 de dezembro de 2016

O cinema na alma

Imagem postada pelo blog Máquina de Cinema, com o fim de ilustrar o presente artigo.
Foto reproduzida do Google.

Publicado originalmente no site do Estadão, em 05 de agosto de 2007.

O cinema na alma.

Por 25 anos, ele desfilou Bergman, Antonioni, Buñuel, Godard na tela...

Laura Greenhalgh - O Estado de S.Paulo.

Coincidência não é ficção. Mesmo quando beira o improvável, como a perda de dois dos maiores diretores de cinema no século 20 na última segunda-feira, um na Suécia, outro na Itália. Pois Ingmar Bergman e Michelangelo Antonioni morreram assim, como que fazendo uma molecagem com a platéia, precedida de um pacto com Deus. Encerraram a fatura de suas vidas com horas de intervalo entre um último suspiro e outro. Tanto dia para morrer e eles se foram no mesmo comboio. Gran finale.

Mais previsíveis são as coincidências que aproximam a vida do Nelson da história do Alfredo, personagem central de Cinema Paradiso. Tanto que um programa de TV, anos atrás, fez uma entrevista apressada com o Nelson, sapecou a trilha do Ennio Morricone ao fundo e cravou: ele é o Alfredo brasileiro. Ora, ora. Não que o Nelson evite ser comparado com o personagem interpretado por Phillipe Noiret, no filme de Tornatore. É que o Nelson, com esse jeito interiorano de ser, falante e encabulado ao mesmo tempo, entende um bocado de cinema. Mais que o adorável Alfredo. Saca umas coisas incríveis, pede licença para declarar "Eu amo a sétima arte" e, com propriedade, comenta a comparação que fizeram pra cima dele: "Pode até ser interessante, mas corre o risco de ficar piegas."

Então, combinemos. O Nelson não é o Alfredo. Mas nós, ou seja, toda uma geração de freqüentadores e curtidores de cinema, viramos "Totó" nas mãos do Nelson. Acabamos por nos assemelhar ao garotinho que projetava olhares de emoção e descoberta na tela, enquanto, da cabine, Alfredo projetava fitas com beijos censurados. Porque Nelson Soares de Carvalho, 65 anos, o senhor da foto ao lado, não só nos revelou Bergman e Antonioni, mas também Fellini, Kurosawa, Malle, Buñuel, Godard, Gavras, Pasolini, Resnais, Wertmüller, Truffaut, Monicelli, entre tantos grandes diretores. Durante quase três décadas, ele foi o projecionista do Cine Bijou, ainda hoje o mais lembrado cinema de arte de São Paulo. "Antigamente, falava-se ?operador de cabine?. Depois é que inventaram o termo ?projecionista?, mais chique. A própria expressão ?cinema de arte? veio mais tarde. Primeiro dizíamos ?cinema classe A?".

De 1971 a 1996, Nelson "morou" na cabine do cineminha da Praça Roosevelt, no centro da cidade. Por ele circularam artistas e intelectuais de São Paulo, universitários ávidos por derrubar a ditadura, uma diversificada fauna urbana, hippies, desocupados, padres, senhoras bem vestidas, meninas de colégio, olheiros da repressão (vai ver até que algum era cinéfilo), fora os famosos moradores das redondezas. Quem, por exemplo? Até o vendedor de frutas do pedaço, ainda hoje com banquinha na ativa, é capaz de lembrar: Marília Gabriela, Ignacio de Loyla Brandão, Jardel Filho, Jacinto Figueira Jr., o Homem do Sapato Branco, a cantora Leni Everson...moradores da praça, sim senhor. Jô Soares, além de devorador das massas do Gigetto, também circulava no pedaço e não raro acomodava o corpanzil bem abastecido nas poltroninhas vermelhas do Bijou. Idem para a atriz Dina Sfat, ok, sem corpanzil, mas com uma beleza que faz o Nelson suspirar ainda hoje: "Vinha sempre aqui. Às vezes com o marido, Paulo José. Adoravam cinema."

A praça era lugar de bacanas e descolados na passagem para os anos 70 e o cinema vivia em boa companhia. Quase na esquina com a Consolação ficava o restaurante Baiúca, com móveis pé-de-palito, bar elegante e um piano teclado por Moacyr Peixoto, em torno do qual cantaram moçoilas como Claudette Soares e Ellis Regina - que tal? Ainda na praça, o cabeleireiro da moda (Jacques Janine) e uma doceira parisiense no estilo (a Vendôme). Pois no quartier, informa-se a quem não tem idade para saber, ficava o Bijou, inaugurado em 1962 por Harry Wilhoit, um ex-funcionário da Universal, supostamente francês, que um belo dia sumiu da praça e do Brasil.

VULCÕES DE EMOÇÃO

No final dos anos 60, Wilhoit vendeu o Bijou para Francisco Coelho, dono de cinemas no Brás e na Penha, e voltou para a Europa. Conta-se que nos primórdios, Wilhoit e a mulher, Teresa, comandavam pessoalmente a salinha de 137 lugares. Ela vendia o bilhete, ele o recolhia à entrada. Desde sempre o Bijou fez a opção pela qualidade. São Paulo tinha cinemas palacianos, como o Marabá, o Marrocos, o Olido, com platéias imensas, lustres, espelhos, escadarias, exibindo a produção de Hollywood para as massas. Já o Bijou, metido a besta, ficava com os planos heterodoxos de Resnais, os vulcões emocionais de Bergman, os silêncios de Antonioni, a visceralidade de Kurosawa.

Corta! Melhor interromper a história neste ponto, sem engatar nos 25 anos em que o Nelson ficou na cabine do Bijou, zelando pela projeção de filmes que fizeram cabeças e mudaram vidas. Porque a história de amor desse homem com o cinema, sem concessão à pieguice, começou lá trás, na cidade de Jales, interior de São Paulo. Flash back: o casal era pobre e tinha dez filhos. Destes, três morreram. Mariinha se foi aos 3 anos, dizem que ficou doente porque brincou com um gato. Eliseuzinho morreria mais tarde, como o pai, de enfarte do miocárdio. Celso, radialista, intelectual da família, admirado por todos, morreu dormindo, como Bergman. Nessa prole, Nelson é o filho que aos 11 anos foi buscar trabalho para ajudar a mãe. "Eu carregava tabuleta para anunciar o que estava em cartaz nos cinemas de Jales, até que um dia me jogaram na cabine. Aprendi na marra e fazia serviços gerais: varria o cinema, trocava lâmpadas, buscava os filmes na estação...". Jales deveria ser um barato: o gerente do primeiro cinema da cidade, o Santa Helena, era um certo Aguinaldo que, na Semana Santa, acelerava o projetor a manivela para fazer mais sessões do filme A Paixão de Cristo, melhorando a arrecadação. Digamos que inaugurou o Cristo chapliniano, apressadinho, sob vaias da platéia. "Ô Aguinaldo, pára de correr. Pára, homem! Uuuuu!!!". Ovídio, operador do cinema concorrente, foi o primeiro chefe do Nelson. Pôs o garoto diante de dois projetores 16 mm, deu instruções e passou a deixá-lo sozinho na cabine. Ovídio descia para prosear e lá ficava o Nelson, entregue a filmes como Imitação da Vida, uma espécie de desfibrilador de emoções.

É curioso: Nelson lembra muito bem do primeiro filme que projetou na vida, em 1953, mas não lembra da última sessão de cinema que comandou no Bijou. O primeiro filme chamava-se O Filho do Sol, rodado na Califórnia, cenário deslumbrante para o caso de amor da filha de um general com um índio chamado Olho D?Água - o general tinha lá suas razões, o mocinho era um canastrão, tremendo mala-sem-alça de cocar. "A fita tinha Jon Hall como protagonista", cita Nelson, tentando azeitar a pronúncia. "Falar idiomas eu não falo. Mas entendo francês, inglês, italiano, espanhol. Minha cabeça ficou assim, um montão de sonoridades". Não prosseguiu nos estudos. Parou na primeira série do ginásio, veio para São Paulo com a família em busca de vida melhor e acabou se enfurnando em outras cabines. "Não estudei porque não tive tempo. Minha literatura é o cinema."

Depois de perambular na Capital atrás de trabalho, deram-lhe um bico no restaurante O Laçador, no Brás, mas logo calhou de ser chamado para teste nos cinemas da empresa Serrador. Tinha de colocar os rolos na máquina, ter noção de enquadramento, sincronismo, controle de imagem e som, um troço complicadíssimo porque a qualidade da projeção dependia de acertos manuais. E ainda precisava controlar um tal carvão, que não podia gastar, nem queimar, nem nada. Nelson não tremeu na base. Nunca. Assim como Humphrey Bogart se deu bem no set, Nelson se deu bem na cabine. "Jamais cochilei em projeção. Fui pegando tanta prática que, independentemente dos projetores que me dessem, punha a fita no lugar certo só guiado pelas engrenagens, não precisava ficar olhando o quadro, checando numerinhos, nada. Fazia passagem de uma máquina pra outra no pé."

O primeiro emprego em São Paulo foi no Cine Paulista, da Rua Augusta, nos anos 60. Lá, fizeram-lhe uma maldade. Operadores veteranos largavam tudo nas costas do novato. Daí o Nelson começou a caprichar na cabine. Limpou as lentes. Passou Kaol nas peças. Poliu espelhos refletores. Resultado: a projeção ficou uma beleza, o público comentava, o dono da sala passou a elogiar o novo funcionário. Pois os operadores, enciumados, resolveram sacanear o colega deixando queimar os carvões de propósito. Apagão na tela. "Fui demitido, mas perdoei o pessoal", diz o Nelson, que tem uma ligação com o espiritismo.

DANÇANDO NA CABINE

Novo teste, contrato prometido nos Cines Can-Can e Moulin Rouge, mas eis que o chamaram para substituir Fausto, operador do Bijou, que saía em férias. E foi assim que, em 1971, Nelson entraria na cabine que mais amou na vida, amor de 25 anos de convívio e uma saudade perene. "Não me casei. Os amigos falam ?Nelson, você precisa de uma mulher?, mas fui me acostumando à solteirice e me doei para o cinema. No tempo do Bijou, se tive dois Natais foi muito. Eram cinco sessões diárias, a primeira às 14 horas, a última à meia-noite. Dizem que operador é o peão do cinema, mas prefiro pensar que é o artista escondido."

Francisco, o segundo dono do Bijou, manteve a programação "classe A" numa época fecunda do cinema estrangeiro, particularmente do europeu. Pode-se dizer que o cineminha da Roosevelt deu mais espaço para as produções de fora do que para a nacional, no tempo em que pontificavam por aqui nomes como Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade, Cacá Diegues, Arnaldo Jabor - "e Nelson Pereira dos Santos, como ele é bom", agrega o xará, seguro de suas predileções. Mais tarde, Francisco resolveu fazer uma segunda salinha ao lado, com 116 lugares, que chamou de Bijou-Sérgio Cardoso. Levou para a cabine a "philipinha", versão menor da "philipona". Quer dizer, Nelson passou a comandar dois projetores Phillips, um em cada cinema, num corre-corre danado. Quando ficava sem ajudante, pedia ao Dimas, porteiro do Bijou, para controlar o carvão numa sala, enquanto corria para a outra, dando início à projeção. Ficava de lá para cá, mas não tirava o olho das telas. Nem desgrudava da história. Em Amarcord, clássico de Fellini, permitia-se dançar na cabine ao som da trilha insuperável de Nino Rota. "Pensavam que eu era louco ou bichona", diverte-se. Lembra de minúcias de O Ovo da Serpente, filme que flagra, numa Berlim arrasada pela 1ª Guerra, a gênese do nazismo: "Há uma cena... o sujeito leva o charuto à boca calmamente, solta a baforada e dá uma risadinha. Aí tem Bergman!" As reminiscências brotam. "E aquela cena do sujeito na bicicleta, no Lacombe Lucien, do Louis Malle? " Ou então: "Sabe o que é filmar uma árvore, o vento batendo nela e fazer com que entendam que você está tratando da memória? É o Bergman em Morangos Silvestres."

Era um filmaço atrás do outro, público não faltava - formavam-se filas na rua, gente esperando pela próxima sessão - e os censores da ditadura poucas vezes criaram caso, apesar de a programação do Bijou turbinar o espírito de contestação da rapaziada. Os arapongas chiaram mesmo foi para dar alvará ao filme Mimi, o Metalúrgico, de Lina Wertmüller. Esse negócio de metalúrgico, greve, protesto ainda iria render no Brasil.

Trancado numa cabine e sem tempo para viver outra coisa, Nelson procurou a bebida. Foi fundo. "Cheguei a ser internado para me desintoxicar", confessa. Pois foi a possibilidade de perder o Bijou que o salvou do alcoolismo. Uma noite, na solidão da cabine, conseguiu dizer ao maço de Arizona que levava no bolso da camisa: "Não vou mais te fumar." Parou com tudo. Mas o centro da cidade, não. Continuou a se degradar. Grandes cinemas cederam aos filmes pornôs, outros fecharam portas ou viraram igrejas evangélicas. O restaurante, a doceira e o cabeleireiro se foram. Universitários da USP ganharam o câmpus distante. Gente fina mudou de itinerário, moradores de rua chegaram nos becos, o público sumiu. Salas de exibição nasciam nos shoppings e as casas ganhavam videocassetes, DVDs. Ah, a geração downloading não vai entender jamais como era bom se abrigar no Bijou, em plena tarde, e sair de lá outra pessoa.

Os anos 90 foram duros pro Nelson. Ele não aprovou quando o cinema teve que dividir as salas com grupos de teatro que passariam a arrendar o espaço, lá permanecendo. "Cheguei a fazer projeção para cinco pessoas, uma tristeza... Seu Francisco me dizia ?Nelson, desiste, não tem mais aqueles filmes, os tempos são outros?. Duvidei. Se o cinema do shopping era bonito, a gente tinha que melhorar o Bijou. Aposto que o público voltaria!"

Última tomada! Hoje Nelson é um sem-cinema. Desempregado, dribla problemas de saúde decorrentes dos anos de cabine. Incomoda-o a maldita hérnia.Tenta viver com R$ 700 por mês, morando num fundo de casa do ex-patrão. Luxo, só um: economizou até comprar um aparelho de DVD e iniciar sua coleção de fitas. Tem 142. Vive para rever. A médica do INSS disse-lhe outro dia: "Seu Nelson, o senhor não tem nada." Ao que ele respondeu: "Aparentemente.".

Texto reproduzido do site: blogsestadao.com.br

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Escritor guarda história do cinema

Paulo Prado, depois de 25 anos de pesquisa,
tem uma das maiores  coleções do Estado (RS.) sobre a sétima arte 
Crédito: Paulo Renato Ziembowicz 

Publicado originalmente no jornal Correio do Povo, em 8 de maio de 2011.

Escritor guarda história do cinema

A paixão pela sétima arte fez com que um colecionador de Santo Ângelo colocasse em exposição seu acervo particular sobre a história do cinema. O escritor Paulo Prado, após 25 anos de pesquisa, tem uma das maiores coleções do Estado. Até este domingo, no pavilhão da Cultura, durante a 15 Fenamilho, é possível conhecer a trajetória local e mundial dessa arte por meio de uma mostra.

Podem ser vistos 26 projetores, adquiridos na França, Inglaterra, Itália e Estados Unidos. O acervo, segundo Prado, perde para poucos museus do Brasil em volume e raridade de peças. O colecionador destaca o projetor Pathé Frères, vindo da França, em 1908. "Ele é manual e foi utilizado pelos irmãos Lumière. O filme era mudo e o som, tocado por um disco bolachão", conta. Outra raridade é a primeira bitola de filme do mundo, de 9,5 milímetros, com projetor. Prado tem no conjunto cem filmes, em diversas bitolas. A mostra também apresenta fotos, cartazes de produções e exemplares da revista temática Cinelândia, editada na década de 1950, no Rio de Janeiro.

A paixão do colecionador pelo tema é fruto da convivência com o avô Vivaldino Prado, proprietário de casas de cinema até a década de 1970 nos municípios de Sertão, Redentora e Guarani das Missões. Ele diz que o avô também foi o precursor da produção itinerante nesta parte do Estado. "Em um Jipe e com um projetor, viajei muito com o vovô, levando cinema para as regiões das Missões, Celeiro e Planalto", conta.

No mês passado, Prado lançou o livro "Os Cem Anos do Cinema em Santo Ângelo". A pesquisa revelou que a primeira casa de espetáculo foi o Cine Biógrafo Ideal, em 1915. Depois, veio o Cine Theatro Coliseu, em 1919, e o Cine Theatro Apollo, em 1922. A cidade tinha, nos anos 1970 e começo dos 80, cinco salas simultaneamente. O colecionador destaca que seu sonho é fundar um museu do cinema no município.

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