sábado, 23 de dezembro de 2017

Uma arte de projeção


Publicado originalmente no blog quadro-magico, em 17 de julho de 2011

Uma arte de projeção

Joselito Gomes, há 13 anos projecionista do Cinema da Fundação

Praticamente invisíveis, eles estão ali, cuidando da sua sessão de cinema. Apesar de serem lembrados somente quando o filme falha, um atestado recente da importância dos projecionistas está em carta enviada pelo diretor Terrence Malick, que recomendou aos projecionistas normas de afinação do equipamento para exibir seu novo filme, A árvore da vida.

Há 15 dias, Michael Bay fez o mesmo para garantir que seu Transformers 3 não perdesse em virtude da luz filtrada pelos óculos 3D. Neste fim de semana, a produtora de Harry Potter também indicou parâmetros para sua correta exibição. A preocupação procede, já que nos últimos anos o que temos visto é a multiplicação de salas de shopping, que se preocupam mais com qualidade da pipoca do que com as condições em que os filmes são exibidos.

No Recife, poucos projecionistas “à moda antiga” estão em atividade. Com o fim dos cinemas de rua, nos quais se alternavam operadores com décadas de experiência, acabou-se também o romantismo da profissão. A gradual digitalização das salas é outro fator que aponta para o acanhamento da função. Assim como diminui a interação com o público e com o próprio filme a ser exibido, há menos intimidade com a maquinaria.

Thiago Augusto, projecionista do UCI Ribeiro Casa Forte, vê nesse distanciamento um processo de alienação. “A gente tem alcance limitado para mexer no equipamento, quando precisa tem que acionar a manutenção especializada. Além de ter um custo para o cinema, o projecionista fica de mãos atadas”.

Para Joselito Gomes, que trabalha no Cinema da Fundação, no futuro próximo bastará alguém que saiba apertar botões, já que a projeção digital se resume a acionar aparelhos pré-ajustados. “Uma sala de shopping com 12 salas desempregou 11 projecionistas. Para quem está começando talvez isso seja um sofrimento, porque esta é uma profissão que apaixona”. O segredo para uma boa projeção? “Tem que ter sensibilidade e estar atento, senão o público deixa de prestar atenção no filme para reparar nos problemas”.

Joselito começou no extinto complexo Trianon - Art Palácio. Em 1998 foi para o Cinema da Fundação, por indicação do falecido Seu Alexandre (Moura), que não pôde assumir pois já trabalhava no Cinema Arraial. “Aprendi olhando. Fui contratado como mecânico do ar-condicionado, mas era rato de cabine. Chegava mais cedo e treinava, fui pegando o jeito até que chegou um tempo em que o projecionista ia dormir e eu ficava fazendo o serviço dele”.

Depois de contratado, Joselito testemunhou várias situações inusitadas – outras apimentadas – mais nada como o dia em que, durante sessão superlotada de Rambo 3, o público quebrou tudo, até as poltronas. “O gerente quis exibir uma cópia para duas salas. Como o rolo não chegou a tempo no outro cinema, o público protestou. Teve gente que até arrancou a camisa”.

Antes de trabalhar no Apolo, Luciene Arruda começou a carreira no UCI Ribeiro Recife. “Queria trabalhar na bomboniere, mas como tenho curso de eletrotécnica, me escalaram para a cabine. Quando entrei, fiquei horrorizada e quis desistir, eram dez máquinas!”. As condições de trabalho também não eram as melhores. “Lá você não respira, não para pra comer, até ir ao banheiro é complicado”.

Luciene é uma das poucas - se não a única - representante feminina numa profissão tradicionalmente masculina. "Sou uma enxerida", se classifica. "Eles dizem que eu sou pequena demais pra subir e descer escada com os rolos, mas pra trabalhar direito, precisa é disso aqui", diz, apontando para a cabeça.

Thiago Augusto, que já trabalhou no Box Guararapes, compartilha a opinião. “É bem cansativo. Acontecia muito de ficar sozinho nas 12 salas. Não sei como o Box está hoje, mas na época foi bem difícil”. Chamado para o UCI Casa Forte, Thiago chegou a trabalhar na montagem das salas. “Como eu comecei com a carga pesada no outro complexo, tiro as cinco salas de letra. E em termos técnicos, o Casa Forte é o paraíso dos projecionistas”.

Vidas dedicadas ao cinema - Os projecionistas entrevistados pelo Diario concordam que esta é uma profissão apaixonante. O que mais justificaria vidas inteiras dedicadas, inclusive fins de semana madrugadas adentro? Paulo Bezerra Bento, o mais antigo em atividade no Recife, começou como zelador no Cine Nossa Senhora de Fátima, em Paratibe e passou por vários outros desde então. “É uma profissão muito esquecida, as condições não são ideais”. Lá de cima, na cabine, ele disse que já viu de tudo. “Casal que namora, gente que dança, bate palma. Já vi até soltar bomba de São João”.

Já André Viana, assumiu o cargo do projecionista do antigo Cine Ribeira, pois o titular havia tomado uma cachaça na noite anterior. Anos depois, quando começou a trabalhar no Cine Floriano (onde hoje funciona uma igreja), nem poderia imaginar que ali, entre uma sessão e outra, iria conhecer a mulher com quem está casado há 25 anos. “A irmã era funcionária e a família dela estava sempre por lá”. Sem esconder a tristeza, ele lamenta não ter tido condições para ficar mais tempo perto da família. “Sustentei meus filhos com essa profissão. Mas não pude estar mais presente”.

Categoria quer mais reconhecimento - No circuito comercial, o salário de um projecionista está longe de corresponder à responsabilidade de sua profissão. Não há um sindicato próprio, o que diminui sua força com os patrões. “Só sei das reclamações, nunca dos elogios”, afirma Thiago Augusto que, da solidão de sua cabine, diz se sentir sozinho. “Muitas vezes nossa voz não é ouvida. As preocupações são outras, pois bilheteria é o menor dos lucros, o grosso vêm dos produtos vendidos na bomboniere. É com isso que eles se preocupam”.

Estudante de história, Thiago participa de um movimento para organizar um sindicato. “A insatisfação é grande. O salário não é ajustado há anos, a gente ganha no contracheque R$ 670. Tem gente lá embaixo vendendo pipoca que ganha mais do que a gente. Esse sentimento de estagnação leva a gente a pensar em procurar coisa melhor”. E não só Thiago tem outros planos para a carreira. Seus colegas também. “Todos adoramos aquele trabalho, é um emprego tranquilo. Mas estamos procurando outras coisas. É uma pena, pois é uma profissão bonita, é prazeroso promover uma sessão perfeita pra quem está assistindo”.

Para preparar novos profissionais, a Fundação Joaquim Nabuco tem o projeto de oferecer, em parceria com a Fundarpe, um curso de capacitação em que Joselito e Luciene fossem os professores. No entanto, o projeto ainda não saiu do papel.

O ranking dos projecionistas

Joselito Gomes
Dançando no escuro
Buena Vista Social Club
Irreversível
Gandhi
O último imperador

Paulo Bezerra Bento
Os dez mandamentos
Ben Hur
A noiva
O Corcunda de Notre Dame
... E o vento levou

André Tadeu Viana
Dio como te amo
Dirty dancing
A força do destino
O cobra

Luciene Arruda
O rap do Pequeno Príncipe contra as almas sebosas
Amistad
Julie & Julia
O discurso do Rei
Piaf

Thiago Augusto
Bastardos inglórios
Cisne negro
A conquista da honra
Bravura indômita
Meia-noite em Paris

Orientações de Terrence Malick para os projecionistas

1. O filme deve ser projetado no formato 1.85:1;
2. Por não conter créditos de abertura, “as luzes devem ser apagadas antes do frame inicial do primeiro rolo de filme”;
3. Coloque o Fader dos sistemas Dolby e DTS em 7.5 ou 7.7 (maior que o padrão 7);
4. As lâmpadas de projeção devem estar em "funcionamento padrão" (5400 Kelvin) e que o nível Foot-Lambert [medida de luminosidade comum nos EUA] esteja no “padrão 14”

(Diario de Pernambuco, 17/07/2011)

Texto e imagem reproduzidos do site: quadro-magico.blogspot.com.br

Na vida como no cinema

 Eliud Silva Gonçalves: "Uma das alegrias do projecionista 
é ver uma fila comprida no cinema"

Último trabalho de Eliud Silva Gonçalves foi como projecionista 
do Cine Com -Tour, onde ficou desde 2007

Derle de Oliveira: outro projecionista que aprendeu
 a técnica de passar filmes em películas.
Fotos: Anderson Coelho.

Na vida como no cinema

Por Marian Trigueiros, da Reportagem Local

Eliud Silva Gonçalves é o último projecionista de filmes de películas em Londrina; ele repete, em nível local, a história de ‘Cinema Paradiso’

No filme "Cinema Paradiso", escrito e dirigido pelo italiano Giuseppe Tornatore, em 1988, o personagem Salvatore Di Vita, já um renomado cineasta, lembra da infância vivida em sua pequena cidade natal, na Itália. A história mostra a amizade construída com Alfredo, o projecionista do cinema, que fez o menino 'Toto' se encantar pela sétima arte. Nessa época, em meados da década de 40, o cinema era o refúgio do garoto para onde ele ia, sempre que possível, acompanhar as projeções atrás das cortinas e se encantar com as novidades das técnicas cinematográficas. Muitos anos depois, ao saber da morte do amigo, volta à cidade para ver de perto o local e sua própria história. Além da relação entre os dois, o filme destaca a beleza do cinema. "Cinema Paradiso" conquistou o Oscar de melhor filme estrangeiro, em 1990, o Globo de Ouro e o Festival de Cannes.

Se é verdade que a arte imita a vida, também é possível dizer que, muitas vezes, a vida imita a arte. Nos idos da década de 60, na cidade de Sertaneja (Norte do Paraná), assim como Toto, Eliud Silva Gonçalves, ainda bem menino, teve seu primeiro contato com projeções do cinema. Atrás das máquinas estava Seu Francisco (o Chicote), pai de Eliud e projecionista da pequena sala da cidade. "Naquele tempo, o cinema funcionava apenas aos sábados e domingos. A diversão dos meus fins de semana era ficar vendo meu pai colar as pontas dos filmes com acetona para, então, montar e exibir aos moradores. Foi assim que aprendi a técnica e me encantei", conta, lembrando que, nesta época, antes dos filmes, era comum os cinemas exibirem trechos de telejornais e reprises de jogos de futebol. "Não havia TV 'ao vivo', tudo era gravado. Muito engraçado pensar nisso hoje".

Em plena era digital, fica difícil mesmo imaginar como era o processo de "colar e montar o filme" que, até bem pouco tempo atrás, Eliud realizava quase que diariamente. Ele é o último projecionista de película de cinema em Londrina e há dois meses deixou o ofício devido à paralisação das atividades do Cine Com-Tour/UEL. A suspensão das exibições é porque, no local, há apenas um projetor analógico e, atualmente, as distribuidoras de filmes não produzem mais lançamentos em película 35 mm, apenas em formato digital. "Estou com 57 anos de idade e quase trinta deles dedicados ao cinema. Ao mesmo tempo em que fico triste e saudosista com o fim dos filmes em película, também estou ansioso pelo novo e por aprender uma outra técnica. Não vejo a hora de voltar a exibir, mas agora, os filmes digitais, principalmente os em 3-D. E não vou precisar rebobinar o filme, coisa que as crianças nem têm ideia do que seja, brinca.

História

Na vida de Eliud, o que era diversão virou profissão. E ele começou cedo. "Depois de aprender com meu pai, a vida profissional começou com quinze anos, quando vim para estudar em Londrina. Fui procurar emprego e me candidatei a uma vaga no antigo Cine Vila Rica. Lembro-me de ter dito: sei montar e passar filme. Deu certo, fui contratado", ri. Lá ficou durante três anos, até completar 18 anos e, então, ingressar na PM (Polícia Militar). "Haviam duas máquinas grandes, diferentes do cinema em que meu pai cuidava. Então, precisei aprender a manusear". Apesar do período curto, este foi essencial e determinante em sua vida. "Eu adorava trabalhar no cinema, que estava sempre lotado de gente. As pessoas realmente se emocionavam e aplaudiam ao final da exibição. Era mágico. São várias cenas da vida real e dos filmes gravadas em minha memória".

Como todo adolescente ávido por novidades, com Eliud não era diferente: trabalhar em um dos maiores cinemas da região era uma diversão. Além de duas salas de exibição, Eliud lembra que o cinema tinha espaços reservados aos funcionários, como cozinha, banheiro e sala. "Eu morava numa pensão e teve uma época em que saí de lá para 'morar' um tempo no cinema. Acordava praticamente já na sala de exibição". Terminado o Ensino Médio, antigo colegial, começou a trabalhar em tempo integral. Eram várias sessões, incluindo da meia noite. "Teve uma semana que exibi uma atrás da outra que fiquei sem ver o sol por dias. Descia só para comer um cachorro quente do carrinho", lembra. Apesar da correria, o tempo que passava na cabine de projeção garantiu boas risadas. "No fundo da sala era onde o clima esquentava entre os namorados. Já os da frente eram da bagunça. Mas sempre tinha um lanterninha para acabar com a festa", recorda.

O recomeço

Depois de ingressar na PM, onde ficou por alguns anos até sofrer um acidente e ser afastado da corporação, Eliud passou em um novo concurso para ingressar na equipe de técnicos do Cine Teatro Ouro Verde, no início da década de 90. "Foi quando recomecei o meu ofício de sempre". O local, que foi cedido à UEL (Universidade Estadual de Londrina) na década de 70, conta ele, já tinha o perfil menos comercial, exibindo mais filmes independentes. "O Carlos Eduardo Lourenço Jorge sempre teve uma preocupação grande em trazer bons filmes fora do circuito comercial; abri meus horizontes com ele. Hoje, meus filmes preferidos são os europeus, principalmente da região Leste do continente, e, também, do Sudeste asiático, como os iranianos. Tem muita coisa boa além dos Estados Unidos, mas sei que não é a preferência da maioria", diz, relembrando que, nos últimos tempos, chegou a exibir sessões no Cine Com-Tour para duas pessoas na plateia. "Uma das maiores alegrias de um projecionista é ver uma fila comprida".

Conhecimento

Ele, que, desde 2007 – quando as sessões passaram a ser exibidas no Com-Tour - está na expectativa de um novo projetor digital. No entanto, não hesitou em passar os conhecimentos aos amigos de trabalho, como Derle de Oliveira, técnico do Ouro Verde. "Quando o teatro pegou fogo, em 2012, alguns deles ficaram aqui no Com-Tour. Ensinei para eles todas as técnicas de como passar e montar um filme de película. Não repassei aos meus filhos, que seguiram outras carreiras, mas ensinei alguns amigos pela vida". Agora, na possibilidade de voltar a trabalhar no Cine Vila Rica (a contratação do local ainda depende do término das reformas e autorização do Corpo de Bombeiros, bem como a compra do equipamento), ele aguarda o novo tempo da era digital, enquanto trabalha na Divisão de Artes Cênicas da UEL na iluminação e som. "Eu também gosto de teatro, é bem dinâmico. Mas nada como uma projeção na tela grande do cinema. Enquanto o novo projetor não chega, eu sigo 'viajando' nas histórias".

Texto e imagens reproduzidos do site: folhadelondrina.com.br

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Super-8 é o avô do VHS e do DVD


Nelson é colecionador e cinéfilo. O gosto pelos filmes teve início aos cinco anos de idade. 
Ele não abre mão das mídias antigas.

Publicado originalmente no site do Jornal Cruzeiro, em 05/04/15 

Super-8 é o avô do VHS e do DVD

Por José Antônio Rosa (joseantonio.rosa@jcruzeiro.com.br)

O professor de matemática Nelson Toledo Filho tem um histórico emblemático no que se refere ao uso de mídias antigas. Ele entrou num cinema pela primeira vez aos cinco anos de idade. Foi para assistir Pinocchio, o desenho dos estúdios Disney. Com sete, esteve em Sorocaba e conferiu a exibição de Quando os dinossauros dominavam a terra".

Desde então, não parou mais. Sempre levado pelos pais, também apaixonados pela chamada sétima arte, Nelson, que mora em Votorantim, tornou-se colecionador, proprietário de locadora, apresentador de programa (comandou, entre 1996 e 1998 o Tela 39, na extinta TV Metropolitana; atualmente apresenta o Falando de cinema, na TV Votorantim. Foi, ainda, curador de festivais e possui, hoje, um dos maiores acervos do país de filmes no formato Super-8. São, ao todo, mais de 1,5 mil títulos.

Para quem não sabe, Super 8 é o nome das fitas gravadas em poliéster (material que substituiu o acetato) com largura de oito milímetros. Mais resistentes e de melhor qualidade, elas são consideradas as avós do DVD e surgiram antes do VHS. Até o começo dos anos 80, quando do advento do videocassete, quem quisesse assistir filmes em casa tinha como opção comprá-los nessa configuração e usar um projetor que exibia imagens na parede.

Toledo garante que o nível da projeção sempre foi muito bom. Até hoje a película é usada nas produções cinematográficas. Os grandes estúdios, é claro, recorrem à tecnologia digital. Mesmo assim, fazem a passagem (chamada de transcrição) em fitas. O interesse por filmes só fez crescer e Nelson Toledo passou a procurar produções policiais, particularmente tramas que destacam a figura de detetives.

Ele guarda raridades dos anos 30, 40 e algumas relíquias rodadas em datas anteriores. São os casos, por exemplo, da versão em S-8 de Wings, vencedor da primeira edição do Oscar na categoria de melhor filme, em 1927, e do primeiro Ben-Hur, realizado em 1909.

Aliás, pouca gente faz ideia, mas o épico protagonizado por Charlton Heston no final da década de 50 (e mais conhecido também), teve três versões e está para ganhar a quarta com estreia prevista para 2016. Outra relíquia é Paixão de índio, dirigido por Cecil B. de Mille no ano de 1913.

Parte do cenário do filme foi usado para montagem de um museu temático que funciona até hoje em Hollywood. Curiosamente, poucas produções brasileiras foram realizadas no formato S-8. Nelson Toledo dispõe de alguns títulos lançados em promoção de revistas que circularam nos anos 70, como a Status.

Um deles, Contos eróticos, reúne quatro histórias do gênero pornochanchada, destacando no elenco nomes como os de Lima Duarte e Cláudio Cavalcanti. Também rara é a série de filmes datada dos anos 1930 sobre a detetive Torchy Blaine, uma repórter que investigava casos intrincados e que serviria de inspiração para o surgimento da também jornalista Lois Lane, a namorada do Super-Homem.

Toledo mantém, mais, alguns dos principais itens da filmografia de Alfred Hitchcok, o mestre do suspense. Viajou cinco vezes para Hollywood e, claro, conheceu os estúdios das companhias Warner, Universal, Fox e Columbia (Sony). Trouxe de lá souvenires que guarda com cuidado, fotos autografadas de celebridades, entre as quais as de Julie Newmar, a Mulher-Gato da série Batman; Jonathas Harris, o impagável dr. Smith que infernizava a vida da família Robinson em Perdidos no espaço, Barbara Eden, de Jeannie é um gênio e David Prowse, o Darth Wader da trilogia Guerra nas estrelas.

Mais recentemente, Nelson Toledo Filho descobriu no seu acervo um filme que adquiriu há 15 anos e que, curiosamente, nunca havia assistido na íntegra. O documentário Revolução de 30, do diretor Sylvio Back, rediscute aquele que para muitos historiadores foi um dos mais importantes movimentos da história política do Brasil do século XX. Nele estão imagens dos anos 20, 30 e, numa das sequências, Toledo reconheceu bairros de Votorantim. O interessante, ele conta, é que as passagens nada têm a ver com o tema do documentário. Aparecem cenas da fábrica de tecidos, o industrial Pereira Ignácio e a partida entre os clubes Savoya e Paulistano. O jogo, realizado em 1924, terminou em 4 a 4 e marcou a inauguração do estádio da equipe. Já o filme seria exibido pouco tempo depois em São Paulo, ou seja, estreou fora de Votorantim.

Aficcionado

Com esse histórico, Nelson Toledo Filho figura entre aqueles que não abrem mão das mídias antigas. Sua escolha, afinal, recai sobre um formato anterior ao advento do videocassete e da fita em VHS. O Super-8 tem como característica reproduzir trechos de filmes, ou seja, não apresentam a íntegra da produção.

É como uma edição. Produções do gênero épico bíblico cuja duração ultrapassa, em alguns casos, três horas são contadas em 20 minutos. Além disso, para assistir é necessário dispor de um projetor. Toledo lembra que quando aderiu ao formato, o equipamento não era tão caro quanto hoje.

Passados tanto tempo, o Super-8 praticamente foi abolido e é encontrado pelos fanáticos em lugares específicos, como sites. É preciso muita paciência e determinação para adquirir os títulos. Nelson Toledo não se importa. Ele diz que o fascínio que a mídia exerce compensa o esforço.

O professor não se considera tão radical. Ainda que em menor escala, sua estante acomoda DVDs e ele, claro, vai ao cinema com frequência. Além disso, como cinéfilo, acompanha todo ano as cerimônias de entrega do Globo de Ouro e do Oscar. Em casa, mantém dois projetores que usa quando a vontade pede. Ou seja, sempre.

Texto e imagens reproduzidos do site: .jornalcruzeiro.com.br

sábado, 16 de dezembro de 2017

Município de Botucatu já foi chamada de a ‘terra do Cinema’


 Foto: Alex Mita/JCNet






Município de Botucatu já foi chamada de a ‘terra do Cinema’

Cidade concentrou a distribuição de filmes do Interior Paulista nos anos 50 e 60, graças à ousadia e empreendedorismo do empresário Emílio Peduti

Na década de 50, a cidade de Botucatu (100 quilômetros de Bauru) foi batizada de “Cidade do Cinema”. O título fazia jus ao município do Estado de São Paulo que concentrava a distribuição de filmes do Interior Paulista, graças a ousadia e empreendedorismo de Emílio Peduti. O empresário e político, que marcou época, levou até as distribuidoras de filmes internacionais a se instalarem em Botucatu. Os escritórios geravam empregos para os jovens e levava o nome da cidade para o mundo.

Quem lembra muito dessa fase é o cinéfilo Benedito José Gamito. Ele conheceu Peduti ainda criança e foi trabalhar nos cinemas da cidade. “Eu tinha 12 anos e ia todos os dias ao cinema. Meu pai não aguentava mais pagar e então falou para eu procurar emprego no cinema. Trabalhava em troca de assistir os filmes. Não ganhava dinheiro. Trabalhei de vendedor de bala, bilheteiro, porteiro e lanterninha. No final exibia filmes.”

Segundo ele, Emilio Peduti foi uma era na década de 50. “Era uma verdadeira indústria cinematográfica para a época. O cinema, se não a única, a maior atração de lazer para o povo. Não só em Botucatu, mas em todas as cidades. Ele tinha cerca de 70 cinemas espalhados pelo Estado de São Paulo, Norte do Paraná e Mato Grosso, hoje Mato Grosso do Sul. Era uma rede de cinemas. Ele montou uma empresa, a Empresa Teatral Peduti.”

Como um dos maiores exibidores do Estado de São Paulo, Peduti só tinha um concorrente em Ribeirão Preto. “Não me lembro o nome. Ele exigiu que todas as empresas distribuidoras de cinema viessem se instalar em Botucatu. Ele conseguiu porque o prestígio dele era muito grande como empresário e político, era prefeito na época” , recorda Gamito.

Empresas como a Paramount, Metro Goldwyn-Mayer, Columbia Picture e Warner dentre outras instalaram seus escritórios na cidade. “Tanto companhias nacionais como as estrangeiras, elas tinham uma agência de filmes. Tinha a parte administrativa e o acervo. Os filmes eram locados em Botucatu. Qualquer cidade do estado que quisesse locar um filme tinha que recorrer à agência de Botucatu. Os filmes (em latas) eram despachados pelo trem da ferrovia que vinha de São Paulo e na estação de Botucatu estavam as latas de filmes esperando para vários destinos.”

O objetivo do Peduti de divulgar o nome da cidade e gerar empregos aos mais jovens foi atingido na opinião do cinéfilo. “Peduti foi agropecuarista, tinha duas ou três fazendas, a empresa cinematográfica e foi político. Para ganhar votos nas campanhas, especialmente de 58, ele fazia cineminha de rua. Não cobrava nada. Ele montava numa praça espaçosa, tipo um telão e o projetor de 16 milímetros onde exibia filmes de cowboy . O povão ia e lotava a praça. Ele falava cinco minutos de política, o resto era filme. Esse cineminha ficou conhecido como Pedutão.”

Emilio Peduti morreu aos 59 anos vítima de um infarto. Sua família não deu continuidade na cinematografia.

Ir ao cinema era um evento social

Na década de 50, o principal divertimento nos finais de semana era assistir aos filmes e o divertimento não era caro, conta Benedito Gamito

Quem viveu na década de 50 vai se lembrar do que o cinema e os filmes representaram para essa geração, enfatiza o cinéfilo Benedito José Gamito. “Naquele tempo as moças não saiam de casa a não ser para ir ao cinema. Os pais não deixavam elas saírem para a rua como é hoje. Não tinha balada. As moças iam para o cinema na primeira sessão no sábado e domingo. Os filmes começavam às 19h15 e terminavam pouco antes das 21h. Depois tinha o footing na rua Amando de Barros que é rua principal.”

Os jovens eram separados pela condição financeira. “As moças que frequentavam o cine Casino eram aquelas que tinham melhores condições financeiras. O ingresso era mais caro. A roupa delas era de luxo. Usavam vestidos longos. Elas desciam pelo lado esquerdo da rua, tomando por base o sentido de mão dos veículos. Os rapazes iam ao cinema de terno, sapato social. Pelo mesmo lado, andavam os moços bem cotados, que pertenciam a elite. Se alguém que não pertencesse a elite tentasse se aproximar, as moças nem olhavam.”

Do lado oposto da rua Amando de Barros desciam o pessoal que não pertencia a elite. “Os mais pobres eram discriminados mesmo. Os mais ricos frequentavam o cine Casino que ficava no Bosque e os menos favorecidos, o Paratodos, no Jardim Paratodos. As moças menos favorecidas conheciam os peões. O footing naquela via era durante o dia ou a noite. Tinha como ponto de referência os cinemas. Ambos eram do Peduti.”

Em 1958, Peduti instalou um cinema na Vila dos Lavradores. “O bairro é separado pela ferrovia, tem um pontilhão. Ali para cima na verdade é uma minicidade. É um bairro desenvolvido e o povo queria um cinema lá. O prefeito estava em campanha eleitoral e prometeu que se ganhasse a eleição instalaria um cinema lá. Ele não construía prédios. Tinha um empresário que construía e alugava para ele. O único prédio que era dele mesmo é o Casino. O estabelecimento ocupava um quarteirão.”

No final da década de 60, os cinemas que já não lotavam mais, lembra o cinéfilo, apelou para os filmes de pornochanchadas. “Eram filmes eróticos para chamar atenção, nem assim resistiu. Não tinha mais como sustentar o cinema. Foi caindo. Na década de 70 começaram a fechar os cinemas.”

O primeiro a fechar foi o Paratodos. Depois, o Vitória e na sequência, o Casino. “A televisão influenciou no fechamento. Na década de 70 veio a TV colorida. O pessoal não frequentava o cinema porque assistia aos filmes em casa e colorido. Veio o vídeo cassete VHS. Esse aparelho concorreu mais com o cinema público, conhecido como cinema de rua. Foi tão decadente que sobrou só o Nely que o Peduti arrendava.”

O cine Casino foi o primeiro cinema, recorda o cinéfilo. “Era o mais luxuoso. Estava na Praça do Bosque, hoje Praça Emilio Peduti. Tinha o Paratodos, mais popular, menos luxuoso. O ingresso era mais barato. O público alvo era o povão. Peduti queria que o pessoal de menos posses tivesse acesso. A diferença entre as duas salas eram o conforto. Os filmes eram os mesmos.”

Rádios de Peduti

Pouco antes de morrer, segundo o cinéfilo, Peduti comprou uma emissora de rádio para concorrer com um adversário. O adversário político era o Plínio Paganini. “O Plínio foi vice dele, mas não era voto vinculado. Ele tinha criado a Rádio Municipalista em maio de 62. Naquele tempo em Botucatu, era uma guerra ideológica de duas frentes políticas.

A do lado estava Jânio Quadros e de outro Ademar de Barros. O Plínio era do ademarismo e o Peduti do janismo. As rádios existem até hoje. As duas estão bem próximas na praça do Emilio Peduti. Ambas estão arrendadas”, relata.

Prédio virou farmácia

O cinema da Vila dos Lavradores virou uma farmácia, conta Benedito Gamito. “A população criticou, mas mesmo assim era murada a fachada e instalaram a venda de remédios. O Paratodos virou o Teatro Municipal, a prefeitura comprou o prédio. O Casino se transformou em um restaurante. O Nely ficou com a empresa Araújo & Passos. Há mais ou menos dois anos o prédio foi vendido para a prefeitura e se transformou em sala de teatro e eventos.”

Um cinema no meu quintal

Toda semana os amigos de Benedito José Gamito se reúnem no quintal de sua casa. Eles vão assistir um filme da época deles. “Eu tenho um cinema no meu quintal. Tenho uma casa num terreno comprido. No final dele construí uma sala de cinema com 40 lugares para eu passar filme para os amigos da velha guarda. Toda semana tem cinema antigo e vem os amigos assistir. O Cine Paiol. Nome inspirado na infância quando eu fazia o cineminha da vela no paiol de milho.”

Apaixonado pela sétima arte, Gamito tem dois projetos desenvolvidos no Espaço Cultural da cidade. “Eu tenho um projeto que se chama Cine Janela. São exibidos filmes gratuitamente, uma vez por semana. Se não contar com a presença dos estudantes das escolas públicas, não vai ninguém”, lamenta. Para ele o cinema de rua é uma tragédia grega, pós advento dos cinemas de shopping.

Um museu móvel acompanhado de palestra é outro trabalho que o cinéfilo faz. “O meu museu fica guardado. Quando há solicitações, eu pego tudo e monto na cidade que solicitou. Exibo as fotos e as latas de filmes. Temos um filme feito aqui na época que o cinema completou 100 anos. Contamos tudo. É um material rico.”

Correndo com o filme na mão

Uma das curiosidades lembrada por Benedito Gamito é que muitas vezes os filmes eram exibidos simultaneamente em cinemas diferentes. “No Casino e no Paratodos. No Casino começa antes. Quando terminava a primeira parte, uma pessoa pegava a lata de filme e corria para o Paratodos. Depois ia buscar a segunda.

O trajeto era feito a pé, correndo. Quando o filme era exibido no Paratodos e no bairro, o filme ‘viajava’ de carro. “Tinha uma pessoa incumbida do serviço. Contratava um táxi para fazer o trajeto.”

No intervalo tinha diversão no cinema

Empresário de Botucatu começou a partir dos anos 30 e com a expansão dos negócios chegou a ter 70 salas de exibição de filmes em três estados.

O historiador João Carlos Figueroa de Botucatu ressalta que dos anos 30 aos 50 a cidade viveu os anos dourados da indústria cinematográfica. “Peduti começou no ramo de cinema a partir dos anos 30 com a expansão das unidades exibidoras. E chega a ter 70 cinemas esparramados pelo estado. Ele tinha cinemas nas linhas ferroviárias. Na Sorocabana, Noroeste, Paulista e uma rede que avançava pelo Paraná e Mato Grosso, hoje Mato Grosso do Sul.

O período dos anos dourados do cinema, na opinião dele, coincidiu com a economia brasileira pós-guerra. “A exibição de filmes foi o principal divertimento das pessoas. Não existia a televisão. Tinha o circo, mas não era todos os dias. O cinema foi eleito como a grande diversão das famílias. É nesse período que o Peduti se afirma como grande exibidor brasileiro. Ele contratava artistas para entreter as pessoas antes e nos intervalos dos filmes. Mágicos e apresentações do rádio faziam parte da programação. Como ele tinha uma rede de cinemas, os artistas viajavam para todas as salas. Era uma forma de dourar a noite.”

cimema03A televisão não existia e a exibição de filmes era a principal atração para a população. “Os cinemas tinham grandes salas. Trabalhavam com 800 lugares. O Casino de Botucatu tinha 650 lugares e bancos de couro. Os cinemas de São Paulo tinham 800 lugares, caso do Pomodoro, Metro etc. Quanto mais poltronas, mais faturamento.”

Os cinemas trabalhavam com estoque cheio. “Não se trabalhava com sala pela metade e nem com salas pequenas, aliás não tinha sala pequena de cinema. Aqui em Botucatu tinha uma considerada pequena. O cineteatro Nely tinha 346 lugares. Hoje não é mais assim. As salas possuem 300 poltronas nos cinemas de shopping. Peduti trabalhou só como exibidor. Para a época ele era grande. Hoje, só um exibidor da cidade tem o dobro do que ele tinha.

A Araújo que já foi Araújo & Passos, tem 140 cinemas de exibição. A Passos tem 103 salas. Não podemos esquecer que estamos falando de 60 anos atrás.” Figueroa ressalta que as grandes empresas distribuidoras de filmes se instalaram em Botucatu. “No entorno das agências nacionais e internacionais se formou uma classe de cinematografistas. O Peduti tinha um departamento de revisão dos filmes. Quando a máquina exibidora picotava o filme, ele mandava para revisão. Os funcionários cortavam e faziam uma emenda. O filme ficava bom para ser levado á exibição novamente.”

No período áureo do cinema, lembra o historiador, a produção de filmes brasileiros não era acanhada. “Eram muito consumidos. Haviam estúdios famosos como a Vera Cruz, o estúdio do Mazzaropi que produzia muito. Ele fazia o filme e o controle pessoal da exibição. Vinha a Botucatu incluía os filmes dele na programação e ainda aparecia para fazer a fiscalização da contagem das entradas no cinema. Ele não tinha uma grande equipe. Então fazia isso pessoalmente.”

O historiador desconfia que a contagem da bilheteria garantia o preço cobrado pelo filme. “Desconfio que as negociações dos filmes eram feitas encima da expectativa de expectadores prevista. As distribuidoras de filmes tinham fiscais para isso. Todos os bilhetes de entrada eram rasgados, mas tinham que ficar arquivados em um saquinho, caso houvesse dúvida. Os fiscais ficavam com uma maquininha que era apertada a cada entrada. Eles fiscalizavam para saber se não estavam sendo ludibriados.”

Na opinião do historiador, Peduti foi considerado um grande empresário na área de entretenimento. “Uma pessoa ousada, empreendedora. Eu acho que as crises econômicas que se sucederam fizeram o negócio minguar. Um palpite meu; foi a maxidesvalorização de 74 quando as dívidas em dólar subiram 30% que acabaram com o negócio. Eles tinham dívidas em dólar, isso aconteceu quando o Delfim Neto era Ministro da Fazenda.”

Peduti foi prefeito de Botucatu

peduttiO município de Botucatu estava num descompasso com o desenvolvimento do estado quando Emílio Peduti assumiu seu primeiro mandato, em 1951. Época em que as indústrias paulistas se enveredavam para o interior e os municípios que fossem escolhidos viveriam um ciclo de crescimento e prosperidade, comenta o historiador João Carlos Figueroa.

A falta de energia que durante anos fez sofrer a população foi superada com a instalação da Subestação, eliminando a escassez, uma vez que o fornecimento era ilimitado. Nessa época começaram as instalações de nível superior. No setor industrial, as modificações foram sentidas. Surgem as primeiras empresas como a Sociedade Aeronáutica Neiva Ltda, a Petrac, a Mcatral, a Omareal e outras.

Quando assumiu seu segundo mandato, em 60, o prefeito encarou uma agenda que tiraria a cidade da letargia. Concretizou a instalação da Faculdade de Ciências Medicas e Biológicas de Botucatu e a Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Botucatu.

Na década de 70, a abundância de energia incentivou a instalação da Duratex e a Costa Pinto. Embora criadas e consolidadas em governos posteriores ao de Emílio Peduti, segundo o historiador, nada disso seria possível sem a solução anterior do fornecimento de energia elétrica.

Fonte: JCNET/Rita de Cássia Cornélio.

Texto e imagens reproduzidos do site: acontecebotucatu.com.br

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Cinema Amador - Cariri se despede de “Zé Sozinho”


Foto: Elizângela Santos.

Cinema Amador - Cariri se despede de “Zé Sozinho”

O sepultamento de Zé Sozinho foi na tarde de ontem. Um momento de comoção em toda a Caririaçu, que perde o maior divulgador do cinema da sua história . Mesmo com problemas de doença, o ex-agricultor não deixar sua grande paixão, o cinema, de lado. Caririaçu. Um dos maiores divulgadores do cinema da região morre aos 67 anos, de parada cardíaca. Era um ex-agricultor, apaixonado pela sétima arte, que levou o nome do Cariri ao cenário nacional, recentemente, ao dar entrevista no Programa Jô Soares. José Raimundo Cavalcante, Zé Sozinho, o pernambucano de Pajeú das Flores, veio ainda menino para Caririaçu. O Cine Zé Sozinho trouxe alegria e fama. De bicicleta percorria o chão dos sertões com o seu projetor 16mm e suas latas de filmes pelo Interior, montando seu cinema ambulante e projetando clássicos da Cinédia e da Atlântida e títulos internacionais de aventura, faroeste e bíblicos. No fim da tarde de ontem, seu corpo foi sepultado no cemitério local, cidade que por mais de quatro décadas teve a oportunidade de conhecer cinema. E, por esse ideal, Zé Sozinho percorreu cidades do Interior do Estado e do País. Mesmo com problemas de doença, não se dava ao direito de deixar sua grande paixão de lado. Há três semanas, fazia questão de levar seus filmes ao Centro Cultural de Caririaçu. Ele faleceu na manhã de segunda-feira. A fama se espalhou. Zé Sozinho saia de casa sem data de voltar. O apelido de infância fez jus à sua profissão de fé. Filho de Maria Sozinha, a mãe recebeu a alcunha por chegar em Caririaçu com cinco filhos, viúva. Aos 12 anos, lembra o amigo de infância, Humberto Borges, Zé Sozinho já alimentava a sua grande paixão por cinema. “Ele chegava a ficar emendando a fita e quando não tinha mais o material para finalizar o filme, dava o seu final”, diz o amigo, ao ressaltar sempre o bom humor de Zé Sozinho.

“A cidade está triste. Ele era muito querido por todos”, diz Humberto Borges. Em casa, familiares e amigos davam o último adeus. À tarde o corpo foi levado para a igreja que Zé Sozinho freqüentava. Ele era evangélico. Humberto fala de outra paixão do amigo, que era a leitura. Livros que ele não chegava a entender, repassava para o amigo ler e explicar depois. O último deles o “Evangelho Segundo o Espiritismo”, de Allan Kardec. “Ele me entregou e disse para eu ler, porque não estava entendendo”, diz o amigo, ao mostrar a página que fala do materialismo. Em casa, amanhece o dia. Uma tristeza no salão. Embaixo do caixão, a cachorrinha Safira também revela ao seu modo a falta de Zé Sozinho. A noite inteira esteve velando pelo seu ex-dono. As crianças perguntam pelo homem que distribuía biscoitos e bombons. O ideal de vida de Zé Sozinho, segundo a sua viúva, Rita Ferreira Cavalcante, custou uma vida também muitas vezes solitária. Foram dez anos sem ter praticamente o marido em casa. Um personagem que ganhou fama. Ocupou dois blocos do Programa Jô Soares, da Rede Globo, para falar um pouco de sua história. Esteve na emissora, por meio do contato de Adriano Lima, que em 2007 lançou um documentário sobre o “Cine Zé Sozinho”. Em 2006, uma grande alegria para o senhor do cinema do Cariri. Ele recebeu do Centro Cultural Banco do Nordeste equipamentos novos para continuar projetando os seus filmes, avaliados em R$ 18 mil. Uma de suas grandes alegrias na vida. Ao mesmo tempo esperto e ingênuo, Zé Sozinho fazia proezas inesperadas, como editar um filme sobre a Paixão de Cristo com cenas de filmes de faroeste, para saciar a vontade por aventura do público de uma determinada cidade. Mesmo com uma estrutura precária de seus equipamentos, e da falta de filmes para projeção que o fim da Embrafilme acarretou, ele cumpria sua missão de levar cultura e diversão para localidades que nunca tinham visto uma tela de cinema. Projetou o seu sonho nas telas e na vida de milhares de pessoas. Em 2001, o diretor Adriano Lima, que não pôde comparecer ao velório, encontrou seu personagem pela primeira vez. Com isso, deu início à pesquisa que resultou em Cine Zé Sozinho. Num pequeno quarto ao lado da casa onde estava sendo velado, guardava seus equipamentos de trabalho. Latas de negativo em deterioração e fitas VHS. Um megafone, a placa do Cine Paraíso. Na Praça Belizário Clementino, de frente, realizava as suas últimas exibições de filmes. A homenagem do Cine Ceará foi em 2003. Zé Sozinho foi presenteado com um projetor digital. A sua paixão por cinema era maior do que todas as dificuldades. Não mediu distância. Pegou carona no sonho e partiu.

Elizângela Santos
Repórter

PROTAGONISTA
Sonhador - Zé Sozinho
José Raimundo Cavalcante, o Zé Sozinho, dedicou sua vida a exibir filmes no Interior do Estado. Durante anos, carregou seu projetor 16mm e suas latas de filmes, montando o cinema ambulante com clássicos

Fonte: Jornal Diário do Nordeste

Texto e imagem reproduzidos do blogdocrato.blogspot.com.br

Cine Zé Sozinho


Crítica: Cine Zé Sozinho. 

A reconstrução da memória de José Raimundo Cavalcante, o Zé Sozinho do título, é encenada no filme através de dois pontos de vista distintos: o do próprio Zé, que narra em primeira pessoa os encalços que o acompanharam durante toda sua vida de exibidor de filmes, ao mesmo tempo em que ratifica a paixão que sente por essa arte; e o de pessoas que ajudaram a consolidar essa paixão, seja através da presença física nos lugares por onde os filmes eram exibidos ou por meio de pequenos favores que possibilitaram o funcionamento completo de toda a engrenagem. Se essa proposta de abordagem dual teoricamente não dimensiona a personagem de maneira devida, já que o ideal para o espectador seria a compreensão bilateral de suas características pessoais, a colocação da palavra “Cine” antecedendo o nome do protagonista no título do filme por si só justifica o modo com que o diretor Adriano Lima se posiciona em relação ao tema. O conteúdo em questão não é o íntimo de José Raimundo Cavalcante e sua relação com o mundo, mas sim a trajetória de Zé Sozinho e sua dedicação para com o cinema.

Não é à toa que o grande ídolo de Zé Sozinho é outro José, o Mojica Marins, cineasta precursor do cinema de horror no Brasil no final dos anos 50. Além de compartilharem o mesmo prenome, outras duas características essenciais unem os propósitos dos dois realizadores: enquanto Mojica sempre teve seu cinema localizado à margem de toda convenção cinematográfica, travando ao longo de décadas uma verdadeira batalha para filmar e exibir seus filmes, Zé Sozinho percorreu, isento de qualquer auxílio de bonificação, as cidades pequenas do Ceará para levar o cinema a quem jamais teve contato com a magia projetada numa tela grande. Se a relação travada entre os dois Josés e o objeto de afeição que os aproxima é de grande valor para o entendimento da proposta da curta, a ligação se aprofunda quando os paralelos vão além: Zé Sozinho ficou um bom tempo sem condições de exibir seus filmes devido, principalmente, à carência de recursos, vindo a retomar suas atividades há pouco menos de dois anos, graças a um incentivo do governo do estado; enquanto Zé do Caixão conheceu um exílio de 20 anos das telas nacionais, retornando em 2007 em grande estilo numa nova produção cinematográfica, ainda inédita nos cinemas. Duas mentes e duas histórias unidas por uma só paixão.

Se o diretor se coloca ao lado de Zé Sozinho a todo instante, abraçando sua causa e defendendo-a também através da montagem das cenas, que intercalam os depoimentos do personagem central, dos envolvidos e dos saudosos de seu cinema com momentos dos próprios filmes que outrora eram exibidos, a riqueza e a força motivadora de Zé Sozinho são suficientes para manter teso o arco de toda a conversa. E a platéia, que respondeu positivamente às expectativas do diretor Adriano Lima, deleitou-se com quinze minutos de perseverança, bom-humor e o sentimento que está também no âmago do 14° Vitória Cine Vídeo: o amor incondicional pelo cinema.

Samuel Lobo

(texto produzido na oficina “O curta-metragem brasileiro: história e crítica”).

Texto e imagem reproduzidos do blog: vitoriacinevideo14.blogspot.com.br

Zé Sozinho


Publicado originalmente no blog Cinema um minutinho, em 23 de abril de 2010.

Zé Sozinho

José Raimundo Cavalcante, o Zé Sozinho, pernambucano de Pajeú das Flores, criado em Caririaçu (Ceará), foge de casa aos 12 anos no rumo de Fortaleza, onde começa sua paixão pelo cinema. Foi um ex-lavrador que dedicou sua vida a exibir filmes em cidadezinhas do sul do Ceará. Durante anos, Zé carregou seu projetor 16mm e suas latas de filmes pelo interior, montando seu cinema ambulante e projetando clássicos da Cinédia e da Atlântida e títulos internacionais de aventura, faroeste e bíblicos. De volta a Caririaçu, depois de alguns anos, passa a exibir filmes no Círculo Operário, utilizando um projetor de 16mm pertencente àquela instituição.Ele era chamado de "Zé Sozinho" porque, sozinho, ele pendurava o alto falante na árvore, montava o velho projetor e mudava também a rotina dos moradores que nunca conheceram um cinema. Os filmes eram velhos, mesmo assim, deixavam o público fascinado. Ágil, disposto e inteligente, seu apelido se deu em função desse seu ofício. Porém há quem diga que foi por conta da sua mãe que sozinha conseguira criar seus cinco filhos. Sozinho, no decurso de 36 anos viveu da sua paixão pelo cinema. Qualquer lugar para ele era ideal para uma projeção cinemática. Podia até ser sozinho, mas não era um homem solitário nem triste, posto que seus filmes constituíram um mundo à parte com o qual ele dialogava, era feliz por isso.

Foi no dia 26 de janeiro de 2009 que vítima de uma parada cardíaca Zé faleceu aos 67 anos de idade, seu enterro aconteceu no cemitério da sua cidade Caririaçu, na serra de São Pedro no dia 27 de janeiro. (Texto: Fragmento do artigo escrito no "Diário do Sertão" - Fotos: Arthur Siebra e Acervo Pessoal).

Texto e imagem reproduzidos do site: cinemaumminutinho.blogspot.com.br

Cine mambembe ajuda a "matar" fome de agricultor no Nordeste

"Zé Sozinho" posa em projetor no Cine São Luís, em Fortaleza,
 onde aconteceu o Cine Ceará. (Jarbas Oliveira/Divulgação).

Publicado originalmente no site da Folha de S. Paulo, em 04/07/2001

Cine mambembe ajuda a "matar" fome de agricultor no Nordeste

Marcelo Bartolomei (Editor de Entretenimento da Folha Online)

O cinema mambembe já driblou a fome do agricultor José Raimundo Cavalcante, 59, o "Zé Sozinho", que há mais de 30 anos leva filmes nada inéditos a cidades que não têm salas de exibição no interior do Nordeste, na tentativa de suprir a falta de diversão e entretenimento.

Sempre com um projetor de filmes e um megafone debaixo do braço, Cavalcante, que disse sobreviver com suas exibições de R$ 0,50 por ingresso, faz parte da história do cinema nordestino e foi apresentado durante a 11ª edição do Cine Ceará, festival nacional de cinema e vídeo que apresentou filmes inéditos e a recente produção local em Fortaleza na semana passada.

Cavalcante carrega consigo, para onde vai, um megafone comprado em 1965, um microfone Panasonic amador, uma pilha pequena, um amplificador de pequeno porte, uma extensão, fita crepe e fios desemcapados. Com isso, consegue projetar sua voz e divulgar os filmes que exibe, chamando o público.

"Cinema é alegria. Agora só tem cinema nas cidades grandes. Eu queria morrer trabalhando com cinema", afirmou.

Sua última exibição foi na Quinta-feira da Paixão, em abril, em Caririaçu (CE), cidade próxima a Juazeiro do Norte, onde mora, e, com ela, "Zé Sozinho" disse ter ganho R$ 32. Ele está há mais de um ano sem fazer suas tradicionais exibições por não ter um projetor de filmes 35mm, padrão atual mais utilizado no cinema. Ele tem um projetor de filmes Super 8 e outro em 16mm.

Sua trajetória é irregular, dividida entre o trabalho no campo e a paixão pelo cinema, que o move desde os 28 anos. Atualmente, vive com o dinheiro que a mulher ganha no trabalho, sustentando a pequena família de três pessoas no interior do Ceará ["Zé Sozinho" mora com a mulher e uma filha de 16 anos, já que os outros filhos estão "encaminhados", como ele próprio diz], e vendendo latinhas de alumínio, a R$ 5 a cada dez quilos arrecadados.

Cavalcante nem se lembra mais do último filme que assistiu no cinema, fora os que têm em seu acervo de vídeos. "Hoje eu não posso pagar um ingresso de filme, sabe por que? Porque eu não tenho dinheiro para pagar R$ 6, que é o ingresso mais barato de cinema hoje em dia. Eu cobro R$ 0,50 e não tenho condições de pegar o que ganho com minhas exibições e pagar tudo isso para ir ao cinema. Quando eu pego um dinheiro desse na mão eu quero fazer algo pra mim. Para quem tem [dinheiro] é pouco, mas para mim é muita coisa. Com R$ 6 eu compro alimento para minha casa que dá para seis dias."

A escassez de dinheiro ficou maior depois que passou a frequentar a igreja Batista em Caririaçu e parou de exibir filmes eróticos, o seu maior acervo, de 60 fitas.

"Já está com mais de um ano que eu não vejo uma nota de R$ 50 no bolso só porque eu me recusei a passar filmes eróticos. Arrumei uma máquina de projeção com a igreja. Com este negócio eu não posso estar com filme imoral. O pastor me disse que eu podia exibir Os Trapalhões e outros filmes, mas não essas coisas imundas", disse o agricultor, que, atualmente na igreja, passa filmes religiosos.

Com o esquema mambembe, o agricultor já levou cinema a mais de mil cidades, de acordo com suas próprias contas. Ele exibia os filmes em qualquer salão desocupado e até mesmo em igrejas.

Com sua retórica, conquistava o público e lotava as salas improvisadas de cinema. "Coloco cartazes, uma musiquinha no gravador, ligo o amplificador e chamo o povo para assistir. Se não fizer isso não tenho fé de que vá encher, e se não encher eu não tenho como pagar o aluguel do prédio", disse.

Segundo ele, os filmes que mais lhe renderam audiência foram sobre o cangaço e os com o personagem Zé do Caixão, criado por José Mojica Marins. Ele já dispensou Mazzaroppi da sua lista de favoritos, por não atrair o público.

Seu objetivo, agora, é comprar uma TV de 32 polegadas para poder exibir vídeos em qualquer lugar do Nordeste, retomando sua atividade.

O jornalista Marcelo Bartolomei viajou a convite da organização do Cine Ceará

Texto e imagem reproduzidos do site: folha.uol.com.br

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Parece coisa de cinema: e é


Fotos Allan Bastos.

Parece coisa de cinema: e é

Zé Sozinho saiu nordeste afora exibindo filmes e fazendo graça
Por Mariana Albanese

Seu Zé vem da linhagem dos Sozinhos. Herdou o apelido da mãe, Maria, que criou quatro filhos sem ajuda do pai. O menino José Raimundo, que nunca gostou de conversa besta, sentava isolado na escola, e Zé Sozinho ficou.

Solitário, saiu aos 12 anos de Caririaçu, cidade serrana do sertão cearense, rumo a Fortaleza, onde encontrou o cinema por companheiro. Subiu em um caminhão de rapadura rumo à Fortaleza, onde no Cine Marambá, em Parangaba, em 1954, viu seu primeiro filme. "Um daqueles americanos, que estava fazendo sucesso", relembra.

Já de volta ao sertão, começou a ajudar alguns mambembes que passavam pela cidade. Sua missão era ajustar a energia a gerador: ligando o projetor, as casas se apagavam. Mas foi no Círculo Operário de Caririaçu, já rapazote, que passou a exibir ele mesmo os filmes. Ali começou a entender o que o povo gosta, e a criar suas artimanhas para entreter.

Quando conseguiu o primeiro projetor, em 1970, aos 28 anos, ganhou o mundo - e perdeu a mulher. Por causa das viagens, que duravam até três meses, a esposa, que hoje mora em Cajazeiras, Paraíba, desenvolveu uma aversão por cinema: "Ela diz que cinema só serviu pra encher ela de filhos. Porque eu viajava, voltava, fazia um filho e viajava de novo". Foram cinco, no total. Hoje, uma filha e alguns netos ocupam, ao menos em fotografia, a parede da minúscula casa em que vive. Chão de terra, cadeiras empilhadas, projetor antigo, data show, telão e cartazes dão um contraste sem fim ao espaço escuro e úmido, o que preocupa Seu Zé. Afinal, é ali que ele guarda sua maior preciosidade: os filmes em VHS e DVD, essencialmente de dois gêneros: luta e terror, ou "karatê e vampiro", como ele descreve. Dos filmes de luta, gosta dos autênticos: "Jack Chan é uma mentira grande, prefiro os de Bruce Lee".

Nunca produziu um filme, mas fez suas edições. Se exibia um título duas vezes na mesma cidade, era preciso mudar o desfecho. "O único filme em que o artista morre no final e os cabra não acham ruim é o de Jesus". Mas nem este escapou. Em certa data, misturou a Paixão de Cristo com pedaços do Zorro. Houve surpresa do público diante dos homens armados. Seu Zé justificou: "são os amigos de Jesus que vieram ajudar ele".

Conta também de quando passou uma série de filmes sobre Sansão e Dalila. O povo reclamou. No dia seguinte, estampou no cartaz: "Hoje, Nem Sansão, Nem Dalila". Para decepção dos que esperavam assistir o filme com Oscarito, a atração da noite foi a dupla O Gordo e o Magro.

Há cerca de dois anos, o exibidor solitário recebeu do Centro Cultural Banco do Nordeste uma ajuda preciosa: equipamento de projeção completo, no valor de 18 mil reais. O vídeo da cerimônia de entrega ele exibe com orgulho no pequeno televisor do espaço que mora. Não chama de casa, diz que está ali provisoriamente, até conseguir sair em viagem. O contrato com o BNB lhe pede presença semanal, para exibição de um filme escolhido pela instituição. Por essas ironias da vida, nunca passou em sua cidade o documentário feito por Adriano Lima, sobre sua trajetória. Cine Zé Sozinho é um curta-metragem produzido ao longo de dois anos, entre Fortaleza e Cariri. Em abril de 2008, foi o homenageado da II Mostra Curtas Cariri, que aconteceu nas cidades de Crato e Juazeiro do Norte. Na ocasião, exibiu o documentário de Adriano Lima e contou um pouco sobre as histórias que viveu. Quando perguntado o que achava da homenagem, respondeu do jeito que lhe é peculiar: "sendo sobre cinema, pode faturar em cima de mim".

Texto e imagens reproduzidos do blog: revistaarteplural.blogspot.com.br

Confira o perfil de um homem apaixonado pelo cinema

Cidadão Benemérito de Ponta Grossa, João Ostrovski 
cresceu projetando filmes em cinema curitibano 
e ponta-Grossense (Foto: Karin Del Nóbile).

Publicado originalmente no site Cultura Plural, em 13/5/2014.

João Ostrovski: O menino do ‘Cinema Paradiso’

Confira o perfil de um homem apaixonado pelo cinema

por Fernanda Penteado e Karin Del Nóbile.

Nascido em 4 de abril de 1946, em Curitiba, o atual técnico em eletrônica João Ostrovski, é um filho do cinema. Da mesma forma que o filme "Cinema Paradiso", que menciona a história de um menino hipnotizado pelo cinema e que faz amizade com o projetista local, fazendo com que se envolvesse ainda mais no mundo das telonas, João teve contato com o cinema cedo, logo na época das telenovelas que tinham seus capítulos exibidos semanalmente nas salas de cinemas.

Fascinado pelos cartazes dos filmes, João olhava-os sempre e foi graças a eles que arrumou o seu primeiro emprego. Em 1954, com oito anos e em um cenário de muita chuva e lama, João viu a oportunidade de ter um dos cartazes para si. Porém, resolveu devolvê-lo ao dono do Cinema Morgenau,  que em gratidão ofereceu um emprego de "limpador de cadeiras" e como pagamento ingressos para as matinês, tão adoradas por crianças e jovens da década de 50.

Chegava pontualmente as 18h ou 18h15 e limpava 260 cadeiras, aproximadamente. Começava do encosto e seguia em direção aos assentos e, depois disso, ficava para a sessão das 20h. Depois de um tempo, seu gosto pelo desenho o promoveu à cartazista, cargo que ocupou por pouco tempo, pois aos 15 anos assumiu a cabine de projeção, da qual só saiu com 22 anos, um ano após o seu casamento com Wilma Ostrovski.

Desses encontros nas matinês, João e Wilma começaram a namorar e se casaram um ano depois. O casal foi morar numa casa nos fundos do cinema, cedida pelo patrão Jorge Souza. Após um ano de casados e muitos "diz-que-me-disse" o casal se mudou de lá. Mesmo longe da cabine, seu João, já um senhor, visitava o patrão e o cinema, sempre que estava em Curitiba. Hoje, na rua Conselheiro Laurindo, perto da Rodoviária da capital, o Cinema Morgenau continua funcionando.

Como projecionista, João presenciou muita coisa. As fitas chegavam ao cinema muito danificadas por rodarem em cinemas paranaenses antes de chegar ao cinema do bairro de Seu João. Era preciso manejá-las manualmente para que fossem exibidas sem problemas. Mas, mesmo assim, “haviam sessões que elas arrebentavam cinco ou sei vezes”, conta João Ostrovski com alegria. A rotina do Cinema Morgenau era corrida, filmes de sucesso formavam filas que ultrapassavam os limites do quarteirão e não era raro quando havia a necessidade de repetir as sessões logo em seguida. Foi nesta função que João conheceu sua esposa, Wilma, quando um dia ela, ainda garota, estava observando os cartazes do Morgenau.

 O gosto pelo cinema veio através de seu pai, que carregava fitas para o Morgenau. Ele era incumbido de transportá-las do centro até a cabine, dentro de um saco de estopa. Tudo isso pela troca por ingressos das matinês.  Atualmente, com 68 anos, João Ostrosvski não esqueceu sua paixão pelas produções cinematográficas e é dono de uma verdadeira relíquia em forma de coleção de fitas, cartazes e rádios antigos, outra paixão do técnico em eletrônica por profissão, mas projecionista de cinema de coração.

Coleções

A paixão de João pelo mundo do cinema foi muito além de seu trabalho como projecionista. Após sair do cinema, em 1968, ele começou a colecionar filmes de diversos gêneros. Hoje, o filho do cinema conta que deve ter mais de 6800 filmes. O número não é exato, pois ele parou de contar quando chegou a marca de 6500. Nesta coleção há filmes em fita, Video Home System (VHS) e Digital Versatile Disc (DVD).

O filme mais antigo de sua coleção é “The Great Train Robbery” (O Grande Roubo do Trem), filme estadunidense de 1903, o qual promoveu grandes mudanças no âmbito cinematográfico americano. Foi ele o responsável pela inovação e pioneirismo em filmagens de locações externas e no uso das montagens paralelas, por exemplo.

João possui, ainda, seis versões de “A Paixão de Cristo”, a original de 1903, de Ferdinand Zecca, e também, a mais famosa, de 2004, com Mel Gibson. Entre os gêneros que mais gosta de colecionar, os que se encontram na categoria clássicos, estão os faroestes e filmes de guerra. Além das coleções de ‘Os 3 Patetas’ e ‘O Gordo e o Magro’, dos quais gosta muito.

Outra coleção feita por Seu João é a de máquinas de passar filme, projetores e bitolas cinematográficas. Ele conta que deve ter entre 12 e 15 máquinas e projetores. Às vezes, exibe filmes para as máquinas não estragarem e para os rolos não ficarem parados e danificarem. O fascínio pelo meio cinematográfico não para por aí. Seu João tem com alguns amigos uma espécie de “clubinho de colecionadores”, como é denominado por ele.  O cinéfilo e seus amigos trocam filmes sem custo algum.

Vida Princesina

A vida princesina de João Ostrovski se inicia no final dos anos 70, quando sai de Curitiba e vem morar em Ponta Grossa. O motivo de sua mudança foi a necessidade de um técnico em eletrônica na cidade.

Nos quase 35 anos em que mora na cidade, Seu João trabalhou na maior parte do tempo na área de eletrônica. Hoje tem a Eletrônica 2001, empresa de conserto e reparos de eletrônicos, de rádios antigos e televisões. Apesar de se dedicar aos eletrônicos, Seu João trabalhou, ainda, com cinema na cidade. Foi ele o responsável por projetar o último filme em 35 mm que o Cine-Teatro Ópera, ainda no prédio velho, projetou. O projecionista João ficou nesta função por mais de um mês, na exibição do filme paranaense “Conexão Brasil”.

A partir disso, começou a visitar as salas de aula, a Apae e outras instituições, levando “Tom e Jerry” e festivais de desenho para as crianças que, em sua maioria, nunca foram ao cinema ou nunca viram um filme ser projetado. Diz, com emoção, que foi gratificante e emocionante essa experiência, concretizando uma forma de aprender a valorizar a vida.

A figura de João Ostrovski é bem conhecida na cidade de Ponta Grossa. Em 2011, a prefeitura o homenageou ao levar seu nome para um concurso, denominado Concurso Municipal de Vídeos-Documentários João Ostrovski “Lugares de Ponta Grossa”, além disso, foi nomeado Cidadão Benemérito de Ponta Grossa pela lei nº 5660 de 03/09/1996, pelo prefeito Paulo Cunha Nascimento. 

Texto e imagem reproduzidos do site: culturaplural.com.br