quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Do lixo fez-se um sonho



Publicado originalmente pelo site Eco Desenvolvimento, em 18/07/2010.

Do lixo fez-se um sonho

Se a história contada nas próximas linhas fosse um filme, o roteiro começaria com a história de um sonhador e terminaria com um final feliz. Mas como filme não é, há muito que se contar sobre os percalços, dificuldades, otimismo e força de vontade. José Luiz Zagati, paulista de 60 anos, amante do cinema e catador de sucata colocou na cabeça o sonho de construir uma sala de cinema na periferia onde mora. Com poucos recursos, foi no lixo que encontrou a oportunidade para mudar a realidade daquele local.

A história já virou até documentário, dirigido pelo paulista Eduardo Felistoque e premiado em festivais de curtas-metragem pelo país. “Através do lixo eu encontrei uma luz no fim do túnel para ajudar a dar dignidade a todas aquelas crianças”, conta Zagati.

Os filmes favoritos são Cinema Paradiso e os de Mazzaropi. Quando perguntado sobre as dificuldades da vida, Zagati mostra que tem um misto da inocência dos filmes de Mazzaropi com a delicadeza de Totó, do italiano Cinema Paradiso: “Que venham as dificuldades, porque quanto mais dificuldade, mais eu tenho força para lutar”.

EcoD: O que te motivou a fazer um cinema em casa?

Zagati: Eu sempre pensei em fazer isso, desde criança. Quando eu fui ao cinema pela primeira vez, lá no interior onde eu morava, eu tinha cinco anos de idade. Foi minha irmã que me levou. O encanto nasceu ali, em 1955, a magia do cinema me pegou, o ambiente, o público. Eu passei toda a minha infância e juventude em Taboão da Serra, e aqui tinha o Cine Tupy, que me lembrava muito o cinema lá do meu interior.

Desde criança que eu gostava de brincar de fazer cinema. Com meus nove, dez anos, eu ainda não podia ir às salas, daí recortava histórias em quadrinhos e revistas de fotonovela que minha irmã trazia da casa da patroa e colava com sabão numa tábua. Isso pra mim já era estar vendo cinema. Mas nunca tive condições de fazer cinema de verdade. Então, em 1990, desempregado, comecei a catar papel e materiais para vender em ferro-velho. Era daí que eu tirava o sustento da minha família, e foi com esse trabalho que eu tive a felicidade de encontrar muitas coisas referentes ao cinema. Acredito que foi assim que nasceu a ideia do nosso cineminha.

E como você começou a construi-lo?

Em 1996, eu comecei uma verdadeira peregrinação no centro de São Paulo. Eu ia em distribuidoras e procurava por filmes, projetor ou qualquer coisa relacionada. Com muita insistência e procura, eu consegui entrar em contato com a Associação Brasileira de Colecionadores de Filmes em 16mm. Essa associação faz exibições de filmes todo final de semana. Eu passei a frequentar as reuniões e foi assim que eu consegui o meu primeiro longa-metragem completo para ser exibido, já que antes eu tinha apenas trechos de filmes encontrados no lixo. Em agosto de 1998, batizei o nosso cineminha de Mini Cine Tupy, uma homenagem ao extinto Cine Tupy.

O processo era o seguinte: eu trabalhava de segunda a sexta na rua, frequentava as exibições dos filmes no sábado, pegava o filme emprestado, exibia no cineminha e devolvia na semana seguinte. Todo final de semana eu tinha filme e público a revelia. É ótimo levar o cinema para essas pessoas que não tem acesso. É uma forma que eu tenho de ajudar as pessoas, sabe? Sei lá, colocar alguma coisa na cabeça de cada um que mora ali.

Como é a relação da comunidade com o cinema?

É impressionante. As pessoas da periferia não tem acesso à cultura cinematográfica. É claro que isso vem mudando, mas com o surgimento da televisão, menos pessoas vão ao cinema, porque assistem aos filmes em casa. Muitos vem aqui, de crianças a idosos, e é muito boa essa relação. Eu acompanhei o crescimento de muitas dessas crianças. Tem um menino, por exemplo, que hoje faz faculdade de Direito, que se apaixonou por cinema por causa do cineminha. E uma senhora, que saiu do Morumbi, bairro rico de São Paulo, e veio até aqui para assistir a um filme. Foi tão emocionante, que ela chorou como criança.

Então o cineminha foi crescendo...

Sim. Eu continuei com esse sonho, com insistência e foi dando resultados. A imprensa apareceu, fui ganhando mais fitas de vídeo, achei 16 cadeiras de cinema no lixo. Montei o cinema numa garagem pequena e, por causa dessa falta de espaço, eu procurei por ajuda da Secretaria de Cultura do município de Taboão da Serra. Assim eu consegui realizar a primeira mostra de cinema em um teatro local. Entretanto, o problema do espaço continuava. Foi aí que eu, com muito esforço, comprei um terreno, onde sobre a laje eu construi uma sala de cinema de forma muito simples. São 50 cadeiras, sempre ocupadas, para assistir aos filmes todos os domingos à noite.

Quantos filmes têm no acervo?

Em VHS temos quase dois mil filmes, todos doados. O que não impede que eu alugue um DVD de um filme que a pouco tempo estava no cinema e hoje eu posso passar para tantas pessoas, tudo de graça e ainda garanto a pipoca.

Já sofreu muito preconceito com a profissão de catador de lixo?

As pessoas acham que o catador sempre está morrendo de fome e não é bem assim. Depende de como a pessoa aproveita o dinheiro, sabe? Sempre aproveitei cada centavo, porque eu consigo ganhar um dinheiro e ainda dividir com as outras pessoas. Eu sou uma pessoa muito feliz, porque eu acho que já fiz a minha parte, já cumpri a minha missão, agora eu só vou terminando. Acho que foi esse trabalho de catador, e nenhum outro, que realizou o meu maior sonho que era fazer uma sala de cinema. Sou muito grato a minha função de catador, e enquanto eu puder trabalhar, vou continuar fazendo isso. Esse trabalho só me deu felicidade.

Acha que ver seu trabalho sendo transformado em um cinema, com reconhecimento em todo o país, as pessoas passaram a ver o lixo de outra forma?

Sim. Eu acho que essa mudança comportamental vai surgir aos poucos, algumas pessoas reciclam, outras não, mas com o tempo todo mundo vai ter consciência disso. As crianças vão crescer com esse pensamento e se tornarão adultos preocupados com o meio ambiente. Pelo menos é o que eu espero que aconteça.

Quais os planos para o futuro?

Quero que Deus me proteja, abençoe o nosso trabalho e que se não for para melhorar, mantenha o que está acontecendo agora.

O que te inspira a continuar com o projeto, mesmo com tantas dificuldades?

Sei lá, tantas coisas! Mas acho que o mais importante é o amor. Acho que o que move tudo é o amor. O amor ao que se faz é a maior motivação.

Texto e imagens reproduzidos do site: ecodesenvolvimento.org

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Museu de Fernando Marques, no interior de São Paulo





  





Museu de Imagem e Som Rio Preto em Foco, um museu particular, criado e mantido pelo jornalista e documentarista rio-pretense Fernando Marques. O museu, que é aberto ao público, localizado no centro de São José do Rio Preto, no interior de São Paulo.
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Texto e imagens reproduzidos do site: noticiasdobem.com.br
Reportagem: Thais Alves / Notícias do Bem
Fotos: Ricardo Boni /Notícias do Bem

Depoimento de Atílio Santarelli


Publicado originalmente no site do Portal Hipermemo, em 31/07/2003.

Depoimento de Atílio Santarelli, 44 anos.
Universidade de São Caetano do Sul, 31 de julho de 2003.
Nucleo de Pesquisas Memórias do ABC
Entrevistadores: Vilma Lemos e Vanessa Guimarães de Macedo.
Transcritores: Meyri Pincertato, Marisa Pincertato, Márcio Pincertato

Pergunta:
Atílio, local de nascimento e data.
Resposta:
Nasci em São Caetano do Sul, em 3 de agosto de 1958.

Pergunta:
Vamos falar um pouquinho da sua família, da sua formação, criança, diversão, brincadeira, da sua primeira idade, a sua escolarização.
Resposta:
Eu tenho segundo grau completo, eu não terminei a faculdade. Como minha família é daqui de São Caetano, eu sempre estudei aqui em São Caetano, Externato Santo Antônio, Sagrada Família, em São Caetano, depois fiz faculdade na Metodista, estudei no Objetivo, da Avenida Paulista, fiz cursinho e comecei a me envolver com cinema em função do meu avô, em função do meu pai evidentemente. Isso já vem de longa data, tanto é que mexo com imagem até hoje, acho que em função disso.

Pergunta:
Então fala um pouquinho do pai. Como foi essa influência?
Resposta:
Foi o seguinte. O meu pai, no caso, o meu avô foi o proprietário do primeiro cinema de São Caetano e não só de São Caetano como também o primeiro cinema em Mauá, e isso no início da década de 20, então obviamente os filhos, meu pai e meu tio mais ou menos, acompanharam esse ramo de cinema. Meu pai, na verdade, é raspa de tacho, ele é o mais novo, então eu no caso peguei o fim já, quando minha família estava parando de mexer com cinema, que foi no início dos anos 70, de 75 para 76. Então acho que vem daí toda a nossa ligação com essa arte.

Pergunta:
E como eram as conversas com seu pai e seu avô sobre o cinema?
Resposta:
No meu caso, que eu posso dizer melhor, porque na verdade meu pai me levava para o cinema, não só de final de semana, mas durante a semana também. Apenas quando eu estava com nota boa no boletim. Meu pai tinha esse princípio, se eu tivesse nota boa, ele levava. De final de semana não tinha jeito, ele tinha que levar a gente de qualquer jeito, eu e meus irmãos. Só que eu não gostava, não era suficiente eu ir só no sábado e domingo, eu queria ir todo dia, porque meu pai ia todo dia para o cinema. De manhã ele ia para São Paulo alugar as fitas e à tarde ia para o cinema bater borderô, coisa que hoje acho que nem existe mais. Ia fazer borderô e manutenção e coisa e tal e, de manhã, eu ia para escola e já na hora do almoço fazia a lição feito um desesperado, rápido, para poder depois do almoço ir com o meu pai para o cinema e eu ficava brincando lá dentro, porque naquela época existiam sessões mais assim tipo, de terça a domingo, cinema de segunda-feira não abria, e muito menos durante o dia não abria também, porque eram mais cinemas de bairro, não eram cinemas de centro. Apesar de que nem os de centro abriam durante o dia. Só tinham sessão à noite. E eu ficava brincando dentro do cinema, principalmente fuçando nos projetores, que é minha grande fissura, vamos dizer assim, meu grande interesse por cinema não são os filmes. Lógico, filme também, mas não tanto diretor, ator, filme e tal, eu sou mais do espaço físico do cinema, como era, como funcionava, como não funcionava. Essa é, minha admiração é pelo espaço físico da sala.

Pergunta:
Fala um pouquinho como era?
Resposta:
A sala escura. Inclusive eu tinha até um certo medo quando eu era pequeno, porque quando meu pai me levava à tarde no cinema, o cinema estava fechado e normalmente os cinemas naquela época eram salas grandes, não como são hoje, cineminha de 50, 80, 100 lugares. Era de 1500 para cima. O próprio Cine Planalto e o Arte de Santo André que eram os cinemas que eu mais freqüentava, que eu mais tenho memória, eles eram cinemas de 1400, 1500 lugares só de platéia, só embaixo, então eram grandes. Eu lembro que eu chegava na sala de espera, que era bem maior que esse estúdio aqui, a sala de espera, e eu chegava na cortina de tecido, aquelas cortinas velhas, verdes, marrons, escuras, eu abria a cortina assim e olhava a escuridão, via só uma tela branca lá no fundo e eu ficava com medo de entrar lá dentro, isso quando eu era pequenininho, eu ficava olhando assim. Meu pai: Vai, entra lá dentro, vai brincar. Então eu tinha um pouco de medo, não sei por que, mas em contrapartida meu negócio era a cabine, onde ficavam os projetores, tanto é que quando chegava sábado e domingo, quando íamos todos: eu, meu pai, minha mãe, meus irmãos, ia todo mundo para o cinema, meus irmãos e minha mãe ficavam na platéia, eu ficava na cabine lá em cima, nas máquinas. Eu, com 6 ou 7 anos de idade, colocava filmes nos projetores, ligava, tocava bomba, abria a cortina, aumentava o som, abaixava, aumentava a intensidade do carvão, diminuía, porque naquela época era carvão.

Pergunta:
Como é isso? Essa história de carvão, de máquinas?
Resposta:
Hoje em dia são lâmpadas xenom. É uma lâmpada que dá aquela luz branca na tela, mas até uns quinze anos para trás era carvão e dizem que o carvão é ainda melhor do que a lâmpada. Positivo, negativo que entrava em curto e formava uma chama branca que dava a luz na tela. Grosso modo era isso. Isso tudo tinha uma regulagem de positivo, negativo, na lanterna do projetor, tinha que ir regulando isso a cada 6, 7 minutos. E eu fazia tudo isso na cabine. Eu gostava de mexer com isso. E eu ficava assistindo ao filme pelo buraquinho. Como eu era muito pequeno, o operador colocava um banco de madeira, me pegava, punha em pé em cima do banco e ficava na janelinha ali em pé ajustando o projetor dali mesmo.

Pergunta:
Essas máquinas eram máquinas nacionais, importadas, como eram?
Resposta:
Mais os cinemas tradicionais que tinham condições de colocar projetores importados. Porque os importados... Quais eram os mais famosos? Phillips, RCA e o Zás, que é o Everon, Zás Zicon. Eram os mais conhecidos, mas a grande maioria dos cinemas eram projetores Triunfo nacional. Existiam algumas outras marcas, mas assim, que não eram muito conhecidas. O Triunfo era o projetor nacional mais conhecido, que aliás, ainda hoje, tem muito cinema por aí de shopping que usa, tem até hoje o projetor Triunfo, da década de 60. Esse equipamento não envelhece.

Pergunta:
E a platéia ficava lotada com 1500 pessoas assistindo?
Resposta:
Ficava! Tranqüilo.

Pergunta:
Como as pessoas iam para o cinema? Tinha vestimenta, como se portavam, era uma sessão corrida, havia vários filmes, como era?
Resposta:
Exatamente, principalmente assim... Como é que eu posso explicar? Uma vez até dei uma entrevista, falei numa reportagem para a TV Cultura, o pessoal não gostou muito do que eu falei, mas é uma grande verdade, não digo porque eu acho, eu disse aquilo baseado no que me foi passado, porque eu canso de ver por aí reportagem tanto de  televisão, jornal, imprensa escrita e falada, sobre cinema, o pessoal fala muito sobre diretor, sobre ator, sobre cinema novo, sobre isso, sobre aquilo, mas não se tem informação sobre o exibidor, ou sobre os donos de cinema, o que eles achavam. Então eu comecei a pegar depoimento de muito dono de cinema, muito gerente antigo de companhia e todos falavam a mesma coisa. Vamos citar um exemplo aqui. Glauber Rocha, que é um ícone do cinema novo. Você imagina na década de 50 ou 60 você passar um filme de Glauber no cinema de Santa Terezinha, em Santo André? Você imagina em 1960 ou 65, o que era o Parque das Nações? Naquela época, era rua de terra, não tinha esgoto, o esgoto era na rua e você ia enfiar o filme de Glauber Rocha no cinema. O pessoal dava tiro na tela, tacava sapato, pedaço de pau. É isso a história que eu escuto. Naquela época, com a obrigatoriedade de exibição de filme nacional, eles acabavam com o cinema de bairro. Então, uma câmera na mão, uma idéia na cabeça, não é bem assim a coisa. Isso incentivou, não estou dizendo, falei do Glauber porque ele é conhecido, mas isso incentivou outras pessoas a terem o direito de pegar uma verba da época da Embrafilme e filmar uma mosca na parede e ser obrigado a exibir em tudo quanto é cinema. Eu estou dizendo isso, resumindo grosso modo. Então o dono de cinema, quando era obrigado a passar esses filmes, ficava doido da vida porque o pessoal odiava. A turma queria assistir faroeste, Os Três Patetas, seriados, Perigos de Neópolis, não é nem da minha época, é da época do meu pai, porque meu pai conta. Não passar essas coisas. Agora, cinema novo é uma coisa e o cinema atual hoje é outra. O filme nacional hoje é completamente diferente. O que eles gostavam, o exibidor, o que eles falavam muito, é que filme nacional brasileiro, naquela época, é que dava dinheiro, eram filmes da Vera Cruz, da Atlântida e do Mazzaropi. O resto era resto. Filme do Mazzaropi era briga de faca entre eles para conseguir uma cópia para exibir. O filme do Mazzaropi era bilheteria lotada, era cinema lotado, volta no quarteirão, isso eu lembro, Cinema Planalto, na Barcelona, onde hoje é a Rhodia, o cinema que, na Barcelona naquela época só tinha casa, não tinha de comércio, saía gente pelo ladrão por causa dos filmes do Mazzaropi, não só do Mazzaropi, eu ia falar Trapalhões, os filmes da Vera Cruz, da Atlântida. Isso dava bilheteria e lotava mesmo.

Pergunta:
Quer dizer que a sua infância foi dentro de um cinema?
Resposta:
Foi.

Pergunta:
Então, essas pessoas tinham algum ritual para ir ao cinema?
Resposta:
Tinham.

Pergunta:
Quanto aos exibidores donos de cinema, tinha pacotes fechados que eles eram obrigados a aceitar?
Resposta:
Eram obrigados. Vamos voltar à primeira pergunta que você me fez com relação às pessoas naquela época, hoje em dia, obviamente tudo muda. Naquela época o pessoal ia ao cinema, sala de projeção, em função da sala e não do filme. Por exemplo, aqui no ABC mesmo, nos cinemas de rua nem tanto, mas no centro de São Paulo, tipo, Arte Palácio, Metro, todos aqueles cinemas lá do centro, a pessoa se engalanava toda, se vestia, se trajava para ir ao cinema.

Pergunta:
Isso nós estamos falando é anos 70 mais ou menos?
Resposta:
Antes, não, não.

Pergunta:
Antes?
Resposta:
Isso. Isso foi até o final da década de 50, metade dos anos 60 só. Dos anos 60 para cá a coisa já começou a tomar outro rumo. Então, naquela época sim, as pessoas, muitos cines, até em alguns daqui de São Caetano, o Max, o Vitória, era proibido entrar sem gravata, esses daqui de São Caetano. Você imagina em São Paulo. Então era um evento ir ao cinema, principalmente quem morava em São Caetano, Santo André, São Bernardo ir para São Paulo. Nossa! Você foi ao Cine Ipiranga, você foi ao Arte? Como é o Arte Palácio? Porque o Arte Palácio aliás é o cinema que mais faturou no Brasil, em termos de faturamento. O Arte Palácio foi um ícone de salas de cinema de São Paulo. Então era diferente. Isso já na década de 60 começou a diminuir. A outra pergunta era com relação a quê?

Pergunta:
Aos pacotes de filmes.
Resposta:
Exatamente. Então, era mais ou menos assim. Chegava a ter um lançamento lá do Mogli, do Walt Disney, por exemplo, naquela época. Você quer levar o Mogli, você quer exibir o Mogli, só que para levar o Mogli, você vai ter que levar o Mogli, esse e mais esse, mais esse e mais esse. Então o exibidor era obrigado, não é como você ir numa locadora e querer alugar o filme novo do Leonardo Di Caprio, mas você é obrigado a levar 5 fitas e pagar por essas 5 fitas para levar a fita dele. Naquela época era basicamente a mesma coisa. Era a mesma coisa. Eles eram obrigados a exibir, o que na verdade não exibiam. A grande verdade é essa. Nunca falaram isso abertamente, eles levavam os curta-metragens nacionais para serem exibidos antes do filme principal e não exibiam. Nem abriam, nem tiravam da lata. Ficava. A lata ficava no chão, na cabine lá e eles nem passavam, porque se passasse, era vaia do começo ao fim, o pessoal levantava para ir embora. Lógico, tinha as exceções.

Pergunta:
Então, o cinema nesse período era um ponto de encontro, um referencial, lazer?
Resposta:
Total.

Pergunta:
E era à noite ?
Resposta:
À noite, você não tinha outras formas de lazer, não tinha televisão, não tinha televisão, muito menos televisão em cores. Não tinha, não era todo mundo que tinha carro. Você não tinha opção de lazer. Era cinema e igreja. Não tinha outra coisa. Então era só aquilo.Com o surgimento da televisão, depois da televisão em cores, do videocassete, que foi uma paulada violenta, você pode pegar números, não tenho de cabeça, mas na década de 80 o número de salas de cinema que fecharam foi coisa absurda. Na década de 80 eu cansei de ver muita gente, inclusive eu também, até acreditava que o cinema estava morto, de tantas salas que fecharam. E na década de 90, graças a Deus, a gente teve esse surgimento dos multiplex, que vieram a dar essa levantada. E você pode falar o que quiser, eu tenho na minha casa, você tem lá seu hometeather, você tem a violência na rua, isso tudo vai fazendo a pessoa ficar dentro de casa, não indo ao cinema. Você vai a um shopping, você tem um monte de opção de lazer dentro do shopping, teu carro fica guardado em segurança, tem isso e aquilo, você entra no cinema, tua filha fica no pula-pula, teu filho brincando. Por isso que o cinema acabou em função disso tudo, mas o cara falar: Eu não vou mais ao cinema, porque agora com o DVD, com o hometeather, com o telão na minha casa... Não é a mesma coisa. Pode falar o que quiser. Você está na sua casa, toca o telefone, toca a campainha, tem que dar pausa, chega uma visita, não é como estar numa sala escura com a tela grande. Isso não acaba, isso não acaba.

Pergunta:
Atílio, você falou da configuração do bairro Barcelona na época do Cine Planalto. Então, primeiro, fale um pouco sobre como era, como você via esse bairro e depois fala um pouco desse Arte Palácio?
Resposta:
Com relação ao Cine Planalto aqui no Barcelona, como eu comentei, como eu falei, foi um cinema onde eu tenho mais lembranças. Eu lembro dos outros que minha família teve também, como os dois ali da Vila Gerty, o Átila, que hoje é um bingo, na Visconde, e o Cine Real, ali na Neli Pellegrino, que hoje é a Igreja Universal do Reino de Deus. Eu lembro bem deles, bastante, mas eu lembro mais do Planalto, porque o Planalto era onde meu pai ficava, então eu ia sempre lá e lembro dele direitinho, por dentro, por fora, umas cores berrantes que pintava, o teto azul, tipo esse azul anil com palha de verde, com carpete vermelho, usava muito isso naquela época. Hoje tem tons em areia. E por isso tenho muito guardado na memória. E o bairro Barcelona naquela época era uma maravilha.

Pergunta:
Não havia comércio?
Resposta:
Nada. Tinha o quê? Um boteco no fim. Tinha o Cine Planalto ali na Joana Angélica, esquina com a Cassaquera, onde hoje é a Rhodia, tinha um bar em frente e só, mais nada, era só casa em volta. Tanto é que ele chama Planalto em função do bairro ser num lugar dos pontos mais altos de São Caetano que é o Planalto, então por isso ele leva o nome, em função disso.

Pergunta:
E quem freqüentava esse cinema, era gente do local ou vinha de outros bairros?
Resposta:
Não, não, era praticamente mesmo só do bairro mesmo.

Pergunta:
E lotava, era sala grande?
Resposta:
Grande, 1450 lugares.

Pergunta:
Lotava?
Resposta:
Direto, direto. Não durante a semana, obviamente nem tanto. Mas final de semana quase sempre. Eu lembro muito assim, é gozado como algumas coisas a gente grava, quando meu pai passou lá sessão corrida, Pinóquio. Nossa! Era assim do tipo, começou a sessão 9 horas da manhã do sábado, o dia inteiro, de manhã, de tarde, de noite, no domingo a mesma coisa, e era aí que o exibidor ganhava dinheiro, conseguia ganhar um pouco, porque naquela época já tinha o problema da carga de imposto bem pesado. E com relação ao Arte Palácio, isso não sou eu que estou dizendo, baseado em dados, em pesquisa que eu já fiz, foi o cinema que mais faturou até hoje no Brasil, em termos de tudo, de faturamento, de número de público, de freqüentadores, número de sessão.

Pergunta:
Onde ficava esse cinema?
Resposta:
Ele fica na Avenida São João.

Pergunta:
Ainda?
Resposta:
É, ainda fica no largo que passa em frente ao Largo Paissandu.

Pergunta:
Mas está desativado?
Resposta:
Não! Ele funciona. Só passa filme pornográfico. E por dentro ele está exatamente como foi inaugurado, em 1936. Inclusive eu tenho as fotos do dia da inauguração desse cinema. E como ele é um cinema que a Prefeitura de São Paulo está tentando jogar na parte de recuperação, ou seja, desapropriar, mas por algum problema que eu não sei, a Prefeitura está tendo uma certa dificuldade. Por ele ser um ícone, o Arte Palácio ali do centro, eles queriam tentar desapropriar. Já tentaram entrar lá repórteres para fazer foto, mas é proibido. Eu consegui entrar lá dentro, com máquina, com tudo, porque o gerente de lá é um senhor, quando eu fui lá pedir para entrar, a primeira vez que eu fui tentar entrar foi com a TV Cultura, não deixaram a gente nem pôr o pé na sala de espera, justamente porque tem travesti lá dentro, tem um monte. Não, vocês não vão entrar aqui para filmar. E aí eu voltei numa outra oportunidade, sozinho com máquina fotográfica digital. Eu comentei com meu pai que a gente tentou entrar no Arte Palácio hoje. Ele falou: Quem que é o gerente? Eu falei é o fulano de tal. Eu o conheço; vai lá, fala que você é meu filho e tal. Aí eu voltei lá. Mandei chamar, o cara veio, eu falei sou fulano de tal, sou filho do Mauro Santarelli, lá de São Caetano, família Santarelli, que tem cinema. Você é o filho do Mauro? Sei. Então você é sobrinho do Enzo? Meu tio que já faleceu. Eu falei que tinha ido, na semana retrasada. Por que você não falou? Eu falei: Não sei, o senhor tratou a gente tão assim. O pessoal vê reportagem, vê câmera, eles assustam. Entra aí, pode tirar a foto que você quiser. E entrei, fotografei o cinema de cabo a rabo, de cima para baixo, tela, e não tinha começado a sessão ainda, eram 9 horas da manhã. Nossa! Ele está, por dentro, exatamente como ele foi inaugurado, ele está igualzinho. Por isso que a Prefeitura está de olho nele. E tanto é que o Mazzaropi só lançava os filmes dele no Arte Palácio. Todos os filmes do Mazzaropi foram lançados no Arte Palácio. Todos. A Van Premier com o Mazzaropi parando a porta. É bem interessante.

Pergunta:
Atílio, fala um pouquinho, como eram os namoros no cinema, até o seu?
Resposta:
Olha, era engraçado, porque naquela época tinha lanterninha. Nossa, e era coisa assim meio militar mesmo, você não podia fazer nada. O máximo que podia era ficar de mão dada. Meu pai tinha um lanterninha, eu estou tentando lembrar o nome dele aqui, e eu vou lembrar. Salvador. Ele pegava a molecada, os casais se beijando na boca, e dava um tipo de um croque na cabeça assim do cara. Ele vinha por trás e tuc, tuc, tuc, sem contar que ele piscava a lanterna e o cara não via que ele estava e ele batia na cabeça do cara ou então punha para fora, se visse beijando; ele nem falava nada, ele pegava, pode se retirar, e punha para fora, o negócio era... É que os tempos eram outros. Você não pode querer comparar, a época era outra e, nossa, o que tem de gente hoje em dia que se conheceu em cinema, não só em São Caetano... A gente se conheceu no cinema. Diz que tinha um bar em frente ao Cinemax, em São Caetano, onde hoje é Casas Bahia, ali em frente dizem que ele era o point da moçada. Dizem que os moços ficavam ali em frente, onde hoje é Casas Bahia, vendo as moças entrarem no Cinemax, e no intervalo, porque antigamente eram exibidos dois filmes, no intervalo da sessão, que era de aproximadamente 15 minutos, as moças ficavam sentadas e os moços andando. Como eu falei para vocês, o cinema não era, vamos falar a verdade, essas latas de sardinha que são hoje. Eram salas grandes, enormes, e você tinha o corredor lateral lá da parede, porque eram três blocos de cadeiras, sendo um bloco de cadeiras aqui, um corredor, um bloco no meio, depois outro corredor e outro bloco. Você tinha um, dois, três e quatro corredores e mais um corredor central que dividia esses blocos no meio, que era largo como se fosse uma rua, para você ter uma idéia, que separava as cadeiras. Então os moços ficavam circulando nesses, nessas vielas internas, vamos dizer assim, paquerando as moças, antes de começar a sessão, aí tocava o gongo, as luzes iam apagando devagarzinho. Então tinha toda essa coisa que mais curtia, que eu até tentei mais ou menos reproduzir na minha casa, é esse clima de começar o filme. Hoje em dia não tem projecionista, hoje existe passador de filme, o cara que opera o projetor. Naquela época era o projecionista, então, o cara tinha todo um ritual antes de começar o filme. Você entrava na sala de projeção, para começar, aquela sala enorme, toda com cortina vermelha, como o cinema antigamente tinha palco, os cinemas eram feitos também para teatro, então você, por exemplo, está atrás de uma tela de cinema, você vê toda infra-estrutura para teatro, para você, tudo, iluminação, tinha tudo isso aí. Então, você entrava, estavam apenas aquelas luzes laterais acesas, e todo o cinema tinha um prefixo, uma música. Então dependendo o cinema tem, cada um dos cinemas tinha sua música, então tocava uma música, a do meu pai era a música do Haby Albert, que toca pistão, quando tocava a música o pessoal já sabia que ia começar o filme e as luzes iam apagando devagarzinho, apagando aqui, apagava ali, e nesse ínterim, também tocando o gongo. Pom!, o pessoal já ia se sentando, a luz ia apagando, apagava tudo, ficava só a tela iluminada, com as luzes de palco, no palco. O palco era mais ou menos, alto assim, e tinha uma testeira, tipo de uma testeira, em madeira, onde ficavam as pequenas luzes escondidas. Tudo colorido. E aquelas luzes vazavam na tela branca. Era a coisa mais linda, e a cortina ia abrindo bem devagarzinho, vermelha. O gongo tocando, a música tocando, a cortina ia abrindo, aí começava o filme. Hoje em dia não tem nada disso.

Pergunta:
Essa cortina era automática?
Resposta:
Toda manual. No Arte, em Santo André, a cortina se abria no muque, era como um leme de navio na cabine, você ia virando assim, redondo, com os cabos de aço e continua abrindo. O Planalto ali já era motor. Apertava o botão e o motor ia abrindo bem devagarzinho. E o operador, meu pai mandava, ele jogava a luz do cine-projetor em cima da cortina vermelha, então a imagem na tela ficava toda na cortina, a cortina ia se abrindo, aparecia aquela tela branca atrás assim. Olha, de falar até me arrepia. Era demais. Hoje em dia não tem nada, não sei por que eles não fazem, você entra numa sala de shopping, às vezes eu vou com a minha filha, eu olho e falo: Nossa! Que porcaria. Carpete na parede, carpete no chão. Tudo bem, o conforto, maravilhoso, o som legal, a tela gigantesca, porque hoje as salas ficaram mais curtas e mais largas. Antigamente, elas eram mais estreitas e mais compridas, bem diferentes. Mudou toda a concepção. Hoje é tudo tipo stadium a sala, bem inclinado.

Pergunta:
Aqui não era. Não sei se hoje é com conforto, não tinha conforto nas salas assim?
Resposta:
Não tinha, porque, para começar, não era todo cinema que tinha cadeira estofada. Eram cadeiras de madeira. Quer dizer, Sino para cinema que tinha um pouco de dinheiro, cadeira Sino era cara, de madeira. Então doía um pouco você ficar um tempo sentado. Por exemplo, o Planalto não era um cinema que tinha cadeira estofada. Era madeira. Todos de bairro eram. Acho que cadeira estofada devia ser o Vitória, o Lido, o Max e acho que só. O resto era sentão duro mesmo. O Primax na Rua Amazonas tinha também cadeira estofada.

Pergunta:
Custava muito ir ao cinema?
Resposta:
Não, não.

Pergunta:
Compara com hoje.
Resposta:
Mais ou menos, comparado a hoje, a quanto está custando o ingresso, hoje. Mais ou menos, acho que até um pouco mais barato.

Pergunta:
Cinema hoje está caro?
Resposta:
Eu acho que é. Eu acredito que hoje, por volta de 4 reais no máximo. Três a quatro reais. Gozado que eu estava comentando com meu pai isso essa semana. Meu pai falou: Hoje, cinema é muito caro. Eu falei: Pai, quanto seria mais ou menos hoje? Eu acho que o ingresso custa de três a quatro reais. Por volta disso, não era caro, era bem baratinho.

Pergunta:
Atílio, fala um pouquinho do material que você conseguiu nos cinemas em São Paulo.
Resposta:
Nossa! Quanta tranqueira. Tanta coisa, cartazes. Eu tenho cartazes. Quando eu era solteiro, como eu estava te explicando, quando você é solteiro, você tem mais tempo para ver as coisas. Eu quando era solteiro, eu pegava o carro, para você ter uma base, eu não era maluco, eu pegava o carro, dia de semana, como hoje, pegava o carro, saía de casa às seis horas da manhã com máquina fotográfica, com um monte de coisa e ia para o interior de Minas, ou para o interior de São Paulo, chegava lá numa cidade do interior, parava no ponto mais alto da cidade e olhava, pelos telhados, para ver onde era cinema, e pelos telhados eu sei dizer se era cinema ou não. Então, acho que lá era cinema e ali, acho que ali também, aí eu catava o carro e ia. Chegava em frente ao cinema, ou estava fechado ou estava abandonado, ou era supermercado ou era estacionamento, eu procurava ir a um ponto de táxi ou ao bar mais próximo e perguntar: Quem era o dono aqui desse cinema? É fulano de tal, ele mora ali, é o Seu Antônio, ele mora ali, é um velhinho de cabelos brancos. Ia lá: O cinema é meu, está fechado, já faz muitos anos que ele está fechado. Mas eu perguntava: E os projetores? Está tudo lá jogado, tudo velho, enferrujado. Eu podia lá dar uma olhada? Aí lá entrava, achava as raias de cartazes antigos, trailers antigos de filmes, jornais que eram sempre uma raridade, coisa que na época todo mundo jogava fora, inclusive meu pai. Meu pai fala: Se eu soubesse que todo esse material que você tem tivesse o valor que tem hoje... A gente embrulhava roupa velha com cartaz de filme dos Dez Mandamentos americano importado; hoje vale três, quatro mil dólares um cartaz desse, a gente jogava tudo no lixo. Quem ia saber que isso ia ter valor, nem eles imaginavam. Então era atrás disso, eu fui juntando, juntando para aquele.

Pergunta:
Você comprava?
Resposta:
Na maioria das vezes o pessoal me dava. Tinha uns que já eram mais espertos e vendiam. Quanto você me paga? Pago tanto. Então pode levar. Mas pode levar embora, isso eu ia jogar tudo isso fora, pode levar. E eu fiz muita amizade também com técnicos de cinema que iam a esses cinemas antigos comparar os projetores para serem reformados e para serem revendidos. E quando eles encontravam essas coisas, amplificadores antigos, gongos, vitrola, disco antigo, cartaz antigo, pedaço de filme, eles traziam para mim. Ligavam e diziam: Atílio, tem um cinema lá em Valinhos que fechou, fui lá, rapaz atrás da tela tem um monte de pulha de filme jogado. Aí eu catava o carro e ia lá. Ia rato, barata, cupim, pulga, eu catava tudo isso aí e no meio achava as raridades. Por exemplo, eu tenho no cinema de Iteraqui, em Bauru, na cidade de Bauru, eu achei um documentário embaixo do palco, tinha um cinema embaixo do palco, ele tinha dois quartos embaixo do palco, para você ter uma idéia, o tamanho do cinema que era, tinha dois dormitórios, uma cozinha e dava saída para a rua de trás. Embaixo desse palco, eu achei umas latas de filme, e nele eu achei um documentário sobre a construção de Brasília, só que foi assim um documentário feito pela DKV do Brasil que era o Jipe da DKV andando pelas construções de Brasília, junto com o Juscelino, e filmando, mostrando toda a construção de Brasília. Eu tenho isso, e é uma cópia única no Brasil, pois depois eu fui descobrir que era uma cópia única. Não existe mais, e estava jogado lá. Essa é uma das coisas, dentre outras que já passei. Getúlio Vargas visitando São Caetano do Sul, eu peguei na lata do lixo, para você ter uma idéia. Aliás eu tenho muita coisa de cinema daqui de São Caetano, que proprietários de cinema estavam jogando no lixo e eu guardei. Por exemplo, o filme de inauguração do Cinemax estava indo para o lixo; está comigo isso. A própria família não procurou preservar o filme da inauguração do Cinemax, eu tenho, já providenciei a telecenagem disso, lá na Fundação Pró-Memória tem, hoje é Anália Franco. Outra coisa, a placa de identificação da sala Comendador Vitório Dalmas do Cine Vitória, também estava indo para o espaço, eu guardei. Fotos do Cinemax também que estavam indo paro lixo, do Cine Lido, também guardei. Eu também não recrimino muito isso porque às vezes na família, quando entra parte de divisão de bens, começa a ter certos conflitos, um briga com o outro, o outro briga, não quero saber, joga isso tudo fora, blá, blá, blá, aí eu vou lá e cato, cato lá fora e me dá aqui, eu guardo. Então na época, o pessoal estava meio de cabeça quente e não ligava muito, mas depois quando paravam para pensar... Por exemplo, eu tenho guardado, não isso que iam jogar fora, mas a Família Dalmas mesmo pediu para que eu guardasse, nem o próprio prefeito Tortorello chegou a assistir a isso, é um documentário que chama "São Caetano do Sul, príncipe dos municípios". É um documentário de 40 minutos, eram 35 milímetros, narrado por Moraes Sarmento, feito em 1950, a mando da família Dalmas, fazendo um documentário sobre São Caetano do Sul. São impressionantes as imagens de São Caetano daquela época. É muito legal. Esse filme começou a entrar em decomposição,  e como Vitório Dalmas não tinha como guardar e nem sabia como guardar, ele deixou na minha mão. O filme é dele, mas ele pediu que eu guardasse, que eu cuidasse. Pode deixar comigo. Eu dei uma restaurada no filme, o lavei com alguns produtos, lubrifiquei com vaselina líquida e guardei na geladeira, numa geladeira, o filme tem que ser guardado em geladeira. Quando ele começa a entrar em processo de deterioração, ou seja, ele começa a cheirar vinagre, que é o primeiro sintoma do filme em película, quando ele está começando a se estragar, ele começa a exalar vinagre, você abre a lata assim e vem aquele cheiro de vinagre. Vinagre de cozinha mesmo. Aí você tem de pegar ele, rebobinar, fazer ele respirar, respirar um pouco, porque o filme nada mais é que um processo químico, você o coloca dentro de um saco preto, saco de lixo preto, lacra ele e bota dentro de uma geladeira, e o deixa lá para sempre.

Pergunta:
Conte a história da cabine que você comprou.
Resposta:
Bilheteria.Nossa! Essa bilheteria. É a bilheteria que eu tinha no Cine Rosário, isso saiu até na televisão. São Paulo tinha um cinema, que foi o primeiro cinema de São Paulo a ter cadeira estofada, foi o Cine Rosário que ficava anexo ao Edifício Martinelli. Esse cinema foi feito pelo Conde Martinelli, foi inaugurado em 1928, o cinema mais luxuoso que São Paulo já teve. Hoje lá é uma agência, se você passar ali, São Bento, atrás da São João, onde ficava o Cine Rosário, você passa lá, tem o Martinelli, tem um prédio do lado que é uma agência do Banespa, você olha assim e fala: Nossa! Aqui era o cinema. É que ele já está descaracterizado totalmente, mas ali era o Cine Rosário. E uma vez eu estava numa Feira de Antigüidade em São Paulo, para variar, bisbilhotando se achava alguma coisa de cinema antigo e eu encontrei um amigo que falou que precisava me apresentar a um cara, chamado Roberto, que faz leilão, ele é leiloeiro, e ele tem muito móvel antigo de cinema. Tudo bem. Eu falei: Você sabe que ano que esse cinema fechou? Ele falou: Não sei. O Cine Rosário fechou em 1957, antes de eu nascer. Nós estamos em 1987, 1988. Nós estamos em 1988. Você tem isso do Cine Rosário, existem ainda essas? Ele falou uma não, tenho duas. Que uma era da platéia e a outra bilheteria que dava acesso ao balcão ao fundo em cima. Por quê? Isso te interessa? Eu falei: Me interessa! Mas eu não estava acreditando no que o cara estava falando... Ah, esse cara está louco. O Cine Rosário fechou 40 anos atrás, como ainda tem isso?! Peguei o telefone dele, isso foi num sábado de manhã, num domingo de manhã, e na segunda-feira liguei para ele. Fui ver, o cara é um milionário, ele mora até hoje na Avenida Indianópolis, a casa é um quarteirão inteiro e enorme. Fui lá na casa dele, numa sala mais ou menos desse tamanho onde ele tinha um monte de móvel, móveis antigos de cinema, inclusive lustres do Cine Ipiranga de São Paulo, os balcões da sala de espera do Cine Santa Cecília, que hoje fica embaixo do Minhocão, que é um cinema super importante que São Paulo já teve, lindo, maravilhoso. E eu quando cheguei a ver a bilheteria do Cine Rosário, ele falou assim: Essas aqui são as bilheterias. Eu olhei, fiquei meio mudo, perdi a fala, era do tamanho daquele armário assim mais ou menos, só que redondo, todo em madeira entalhada, como o cinema se chamava Cine Rosário, era toda cheia de rosas entalhadas em madeira, na volta toda. Ela lembrava muito um confessionário de Igreja. Quando eu olhei aquilo, eu travei no lugar, eu falei: Meu Deus do Céu. Comecei a olhar, entrei, porque era um móvel em madeira que era chumbado na parede. O cara tem que fazer um corte na parede em alvenaria, ela entrava nesse corte. Por trás dela, onde trabalhava o bilheteiro, você tinha a gaveta do dinheiro, as portas laterais; em uma das portas, quando eu fui lá dentro que eu abri, tinha um papel colado com tipo goma arábica, escrito com lápis assim: Cine Rosário, carvão para a cabine, porque o carvão que te falei anteriormente era uma coisa muito cara, o dono de cinema guardava o carvão com ele lá embaixo, não deixava com o operador porque o pessoal roubava. Por isso ficava na bilheteria trancado. Quando eu vi ali escrito aquilo antigo assim, carvão para a cabine, eu gelei, eu falei: Eu acho que procede ao que o cidadão está me falando. Ele falou: Não, se você quiser, eu a vendo para você etc. Eu falei: Ta. Eu vou ver. Aí eu lembrei que tinha um amigo do meu pai, que hoje é vivo ainda, Seu Hércules Trinca, que é um ícone, que conhece os cinemas de São Paulo, ele deve ter uns 85 anos, super são de cabeça, lembra das coisas uma barbaridade. E esse dia fui ver a bilheteria, eu bati foto dela. Levei a máquina e tirei umas fotos, o cara deixou, tirei foto à vontade. E cheguei em casa e falei: Pai, o negócio é o seguinte: conheci um cara assim, assim e assim. Ele falou: Você tem certeza? Mas acontece que o Cine Rosário fechou, nem lembro desse cinema, meu pai falou, não é da minha época. Ele falou. Pois é, ele falou que tem. Eu vi a bilheteria, eu tirei foto. Você sabe com quem você tem que conversar? Com o Hércules Trinca. Acho que Trinca foi fiscal desse cinema, fiscal de bilheteria da Companhia. Você quando passava um filme naquela época, hoje não, a Companhia mandava um fiscal ver se o número de ingresso que você vendia era compatível com o número de pessoas que entravam no cinema. Ele ficava do lado do bilheteiro, contando se o cara rasgava, senão o pessoal fazia rodízio de ingresso. Ele comparava ingresso aqui, entregava para o bilheteiro ali na porta e o bilheteiro catava. Ao invés de rasgar e jogar na urna, naquela época tinha urna, ele punha no bolso, aí ele enchia o bolso de ingresso. Eu fazia isso para o meu pai, pegava ele, catava ingresso, dava para alguém, eu era uma criança, catava e enchia o bolso de ingresso, levava para bilheteria de novo. Ela vendia os mesmos ingressos de novo, isso era o rodízio. Você pagava imposto para comprar o bloco de ingressos em São Paulo, pagava imposto para a Prefeitura, então você fazia rodízio de ingresso, não pagava, gastava tanto talão de ingresso. Deu para entender mais ou menos. Esse Hércules era esse tal desse fiscal, liguei para ele, vem aqui na minha loja, tem uma loja aqui na Santa Efigênia que meu filho vende peça de equipamento eletrônico, vem aqui. Eu fui lá com as fotos do Rosário. Quando eu cheguei que eu abri, dei o albinho, ele falou, contei para ele, deixe-me ver a foto, tanto que antes de ele ver a foto, ele falou para mim: Eu conheço esse cara, que você falou, esse tal de Roberto, e, eu acho que é mesmo, porque ele andou comprando isso aí do Joãozinho Chiurco, que era da Serrador, que é aquela história que eu te contei do Cine Universo, que é um dos maiores cinemas de São Paulo, lá na Avenida Rangel Pestana, que estava guardado. A hora que ele catou, ele abriu, ele olhou, ele falou: É a própria. Ele falou: Agora você faz o seguinte. Existe um livro que chama Salas de Cinema de São Paulo, esse livro tem fotos do Cine Rosário, da sala de espera e devem aparecer bilheterias, dá para ver. A Siciliano não tem, achei Livraria Siciliano, em Santos, liguei lá, o cara tinha um exemplar. Peguei o carro, desci, fui até Santos, comprei o livro na Siciliano, na hora que eu abri o livro, cheguei lá, Cine Rosário, apareceu a foto, apareceu a bilheteria, eu tremi. Eu preciso comprar. Eu demorei uns seis meses para adoçar o cara, ele me vendeu por 2200 dólares, a bilheteria, comprei, a trouxe para casa, consegui um restaurador de móvel antigo, um senhor aqui de São Caetano, o senhor Wellington, restaurou ela e eu a coloquei na minha casa. E era uma peça realmente original do Cine Rosário. Na verdade ele vendeu duas; ele tinha duas, vendeu uma para mim e uma para um outro cara de São Paulo, uma pessoa, essa pessoa que não é ligada muito assim em cinema, levou para chácara no interior lá e colocou de enfeite. E essa bilheteria... Veio a TV Cultura, filmou, o pessoal do Vídeo Show, da Rede Globo filmou, aquele professor de cinema de São Paulo, da FAP, professor, ele dá curso de cinema, quando o cinema no Brasil completou 100 anos, em 1996, eles a pediram emprestada para fazer uma exposição. Eu falei assim: Olha, primeiro que se ela fosse desse tamanho eu não emprestava, porque isso é uma coisa que não se empresta; segundo, que ela está fixa na minha casa; terceiro, que ela pesa barbaridade e para ela sair de onde está, ela tem que ser desmontada. Ela veio desmontada para cá, foi montada aqui, no salão aqui embaixo. E não dá. O máximo que eu posso fazer para você é tirar uma foto e levar aí. Inclusive ele até soltou uma matéria, no jornal, na época no Estadão, que era frescura minha que eu não quis emprestar a bilheteria. Mas tudo bem. Isso é um problema dele. Eu não empresto. Eu vou emprestar uma bilheteria de cinema? Não dá. Um dia uma mulher veio na minha casa, viu a bilheteria e ficou apaixonada. Falou: Quero comprar, quero comprar, quero comprar. Falei não, não vendo essa bilheteria. Quero comprar, vende, vende, quero colocar na minha fazenda no interior e quero comprar sua bilheteria, vende, vende, vende. Eu falei: Quero tanto. Pedi um absurdo. Pedi quase o triplo do que eu tinha pagado. Ela pagou e levou a bilheteria. Está com ela até hoje.

Pergunta:
Você está sem a bilheteria?
Resposta:
Estou sem a bilheteria. Vendi para ela. Tudo tem um preço. Se ela pagar o que eu quero, eu vendo. Porque na verdade a bilheteria, onde ela estava na minha casa, tinha que se fazer..., colocar a bilheteria de enfeite tem que ter uma sala enorme, porque ela é muito grande e muito alta. Cinema naquela época tinha o pé direito igual a esse aqui, então não tinha muito nexo ficar com aquela bilheteria assim, e até um amigo meu falou para eu colocar essa bilheteria, tentar vender para alguém, para ela ficar em exposição. Tanto é que na época, eu conheço o pessoal da Play-Arte, eles estavam interessados em comprá-la para colocar de enfeite numa das salas de cinema. Deixar de enfeite, em algum complexo de cinema de shopping para trocar.

Pergunta:
Você lembra da ditadura, se teve alguma mudança de comportamento em nossos cinemas?
Resposta:
Não, nenhuma.

Pergunta:
As pessoas não deixaram de ir?
Resposta:
De maneira alguma. Não, absolutamente nada. Isso aí eu pesquisei também. Eu perguntei, não só para o meu pai, para outros donos de cinema, porque eu não conversei só com donos de cinema, eu conversei também com o pessoal que trabalhava nas Companhias, principalmente o pessoal da antiga Serrador, que hoje não existe mais. Francisco Serrador foi pioneiro do cinema no Brasil, então ele fundou uma companhia cuja sede era no Rio de Janeiro, com escritório em São Paulo, cujo escritório ficava onde hoje é aquela casa de show em São Paulo, lá perto do estádio do Palmeiras. No Olímpia. Lá era o Cine Nacional e, em cima do Cine Nacional, ficavam os escritórios da Serrador. A Serrador era dona de todos esses cinemas que nós estamos falando agora. Dona do Arte Palácio, dona do Rosário, dona do Santa Cecília, dona de tudo quanto era cinema importante. E eu conversei com todo esse pessoal e não citaram isso, não citaram nada assim, lógico, você tinha aquela censura violenta, tinha filmes proibido para 21 anos, mas não teve problema nenhum.

Pergunta:
Como era, quando você era pequeno, essa censura? Você assistia a filmes proibidos?
Resposta:
Eu assistia. Meu que pai ficava meio bravo comigo, mas eu assistia. Aliás, meu pai não ligava muito, minha mãe é que não gostava. Minha mãe falava, eu lembro que minha mãe falava assim: Ah, mas você vai levar ele hoje, ele nem vai assistir ao filme. Mas ele fica lá na cabine, mexendo nos projetores, ele mal fica olhando para tela, ele fica mexendo nas máquinas, rebobinando filme, apertando botão, desligando máquina, isso que ele ficar fazendo. E eu não ligava muito. Via lá os beijos, as coisas, umas mulheres de calcinha e sutiã. Mas, pouco me ligava, era criança. Pouco me importava aquilo. A fissura era tanta pelo equipamento, pelo cinema, que eu nem dava bola. Para você ter uma idéia, eu ia assistir ao filme atrás da tela, eu ficava vendo filme ao contrário. Era coisa de moleque. Eu pegava, no escuro, falava para ninguém falar para o meu pai que eu ficava atrás da tela, porque cinema antigamente, atrás da tela era, vamos supor, a tela era do tamanho dessa parede, e aqui atrás era atrás da tela, tinha todo esse espaço atrás da tela. Atrás aí. Atrás da tela de cinema era depósito de lixo, de tranqueira. Eu gostava de ficar atrás da tela e estava olhando ao contrário, via as legendas ao contrário, e tela de cinema é toda furadinha para passar o som, então ficava sentado na tela olhando assim. Era muito legal.

Pergunta:
Você lembra como era o trabalho do projetista? Como era? Era uma pessoa apenas? Ele fazia a coisa o tempo todo?
Resposta:
Olha, era completamente diferente do que é hoje. Hoje, a tecnologia de projeção está chegando a níveis absurdamente modernos, comparados àquela época. Naquela época o cara ia operar as duas máquinas, é que cada parte, para começar que era parte de 20 minutos, a cada 20 minuto trocava a parte, mudava de um projetor para outro, depois passou para bobina de uma hora, o xenom, hoje é braço, é parato deitado com o filme inteiro enrolado, o operador não faz nada, ele só aperta o botão, a máquina liga e desliga sozinha, porque o próprio filme tem uma marcação na película que quando ela passa no sensor do projetor, o projetor já desliga, desliga a lâmpada, acende a luz, aumenta e diminui o ar-condicionado. É logicamente que a gente já está chegando na tecnologia de projeção digital, já não vai ter mais película. Você vai baixar o filme pela Internet, o dono de cinema tem um computador lá, ele baixa pela Internet, manda o sinal para o projetor digital de vídeo, e, projeta digitalmente. Mas isso já tem nos Estados Unidos. Então a coisa está indo rápido. Naquela época era uma coisa, o operador... Primeiro que o cara trabalhava sem camisa por causa do calor que era dentro da cabine, era um forno. Eu lembro muito disso. As cabines de onde ficavam os projetores eram apertadas, pequenas, escuras, aquele calor das lanternas. Eles esquentavam marmita dentro das lanternas. Cinema Paradiso, aquele que aparece... Aliás, Cinema Paradiso retrata bem como era a coisa, o cara esquentava marmita dentro do projetor, com o calor do carvão. E esquentava mesmo, de ferver a comida. A gente brincava de colocar bife em cima da lanterna do projetor para fritar. Então era um calor insuportável. É completamente diferente.

Pergunta:
Você vive de compra e venda de antigüidade ligada a cinema?
Resposta:
Não vivo. Não vivo. Bem que eu gostaria de viver, porque é uma coisa que eu adoro, se eu pudesse mexer com isso. Eu tenho um carro antigo também, acho que você chegou a ver lá, meu pai falou assim: Você devia ter casado com uma velha, você só não casou com uma velha, porque você só gosta de coisa antiga. E meus pais não gostam. Minha mãe não gosta de coisa velha, meu pai também não gosta e eu gosto, e se eu pudesse, é que não dá, mas sempre que dá uma folga eu vou atrás do que eu puder. É aquilo que eu estava falando no início. Depois, quando você casa e tem filhos, fica um pouco complicado, você não tem muito tempo para certas coisas, tanto é que eu peguei meu acervo e transferi da minha casa para um outro lugar, mais próprio para esse tipo. Lá tem uma infra-estrutura melhor, tem mais espaço, não é tão abafado como é na minha casa. Mas não posso reclamar, porque o que eu já fui... Em vez de eu ir aos bailinhos, às domingueiras e tudo, eu ia atrás desse negócio de filme, de projetor, de máquina. E até hoje eu acompanho isso. Não que eu tenha parado no tempo, não estou falando que eu sou um expert em cinema, não que eu parei no tempo sobre cinema antigo, eu acompanho a tecnologia atual também. Eu vivo, fuço na Internet para ver como está a tecnologia em produção de projeção de filmes, eu gosto de estar por dentro disso, porque é uma coisa que eu curto, eu me interesso bastante. Procuro pesquisar, procuro me inteirar da coisa.

Pergunta:
Fala só um pouquinho sobre seu trabalho hoje.
Resposta:
Hoje eu trabalho com vídeo e fotografia em evento social, mas na verdade o meu forte é fotografia. Eu nem sei se eu comentei sobre o livro. Eu tenho um projeto que está engavetado, eu não dei mais continuidade nele por pura falta de tempo. Há uns 8 ou 10 anos, por eu ser fotógrafo e ter a faca e o queijo na mão, ter o equipamento para isso, e ter assim um certo conhecimento, quer dizer, existem livros sobre os cinemas de São Paulo, no Rio também, mas eu falo apenas sobre os cinemas principais, e essa idéia me veio de tanto jornalista me procurar, pessoal de jornal, de revista, e aluno de faculdade fazer pesquisa sobre cinema, mas o pessoal falar sobre o cinema tal, tal, eu já estou careca de ver, de ler, eu quero saber sobre os cinemas de bairro, porque isso foi tudo perdido, então eu falei, eu queria fazer um livro, com fotos principalmente de todos os cinemas da Grande São Paulo. Todos. Baseado naquele material que eu tenho onde tem todos os endereços e coisa e tal. O que eu fiz? Eu comecei a fotografar todos os cinemas de São Paulo. Comecei pela Zona Leste, que foi o bairro que teve mais cinemas. A Zona Leste teve, se não me engano, 58 ou 68 cinemas, só na Zona Leste. Então eu comecei a fotografar, eu pegava esse documento que eu tenho, onde tem todos os endereços dos cinemas, eu ia atrás, chegava lá, avenida tal, Avenida Celso Garcia, número 6480, era o Cine São José. Chegava, apesar de ele estar lá, chegava lá no Cine São José, chegava no 1680, nossa, o posto de gasolina, será que era aqui? Perguntava, o cara falava que foi demolido na década de 60, e eu fotografava. Então fotografei todos os cinemas, todos. E saiu uma reportagem, uma repórter do Estadão fez uma reportagem aqui na Zona Leste, colocou o endereço dessas 68 salas que eu fotografei. E teve um senhor que me telefonou, já de uns setenta e poucos anos, me parabenizando. Ele falou: Olha, é a primeira pesquisa que eu vejo de cinema aqui da Zona Leste, que colocou todos os cinemas. Como você conseguiu? Porque eu tenho um documento que tem todos os endereços, eu fui atrás e comecei a fotografar. Só que quando eu fiz toda a Zona Leste, fiz a Zona Central de São Paulo, fotografei todos os cinemas do centro, até o Arte Palácio, mas aí eu parei, não dei mais continuidade, veio casamento, veio filho. Mas eu queria fazer um livro só sobre cinemas de São Paulo. Da Grande São Paulo, não só abranger os cinemas lá do Centro, Ipiranga, o Arte Palácio, o Metro, isso aí todo mundo já sabe e tem material sobre isso. Agora eu queria fazer dos cinemas de bairro.

Pergunta:
Atílio, nós estamos terminando. Eu gostaria, já que você é um aficionado por cinema, então, o que você poderia deixar como, como orientação para os nossos alunos, para os jovens hoje, considerando a sua trajetória, as suas vivências em relação ao assunto?
Resposta:
Eu vou falar uma coisa para você. Toda vez quando alguém me procura, como foi o caso, falar sobre cinema, lógico que eu fico contente de falar e gosto de falar, mas eu fico super satisfeito em saber que existem pessoas, atualmente, principalmente agora, que estão preocupadas também. O que eu percebo, quer dizer, eu pesquiso sobre cinema já há mais ou menos uns 25 anos. Quando eu comecei a pesquisar ninguém pesquisava. Ninguém. Você não tinha informação em lugar nenhum. Você vai ao arquivo do jornal O Estado de São Paulo, você pensa que lá tem muita coisa, não tem. Para conseguir entrar no arquivo do jornal O Estado de São Paulo foi uma dificuldade, parece que é fácil, mas foi difícil conseguir, e eu fiquei decepcionado, porque tem muito pouca coisa. E isso foi me motivando a pesquisar. Só que naquela época ninguém pesquisava. Hoje tem muita gente fazendo trabalho sobre cinema e eu acho isso extremamente importante,  porque infelizmente neste país, como todo mundo sabe, o pessoal tem memória curta e ninguém preserva absolutamente nada. Sabe, nada. Nada, nada, nada. O Cine Central aqui de São Caetano ficou jogado às traças, o prédio e, nada contra, mas eu falo mesmo, o pessoal do Museu, da Fundação Pró-Memória, preocupado em fazer pesquisa com nome de rua antiga de São Caetano. Eu falava: Vocês não vêem o movimento SOS Cine Carlos Gomes, isso na década de 80, por que vocês não tentam preservar o Cine Central? O Central, o Carlos Gomes, como eu te falei, já mudou de lugar, o prédio do Central, esse prédio agora só tem a fachada, é mais antigo do que esse prédio do Carlos Gomes de Santo André. Só que ninguém sabe disso. O pessoal da Pró-Memória, e mesmo a gente podia ver e tal. Mas eu falei que ele está igual ao Central, ele tem até aquele triângulo no teto, de madeirinha cruzada, agora já não tem mais, da época, aquilo de quando inaugurou. Voltando ao que eu estava falando, o que me anima, o que me deixa contente agora é essa de o pessoal se preocupar mais em procurar resgatar, procurar fazer documentário. Esse depoimento que vocês tão fazendo acho super importante  para preservar memória. Uma cidade sem memória, você não tem identidade, não tem nada. Não. Senão, o que a gente vai deixar para os nossos filhos? Eu acho que tem que ser mais ou menos por aí. Eu acho que 80% do que eu falei aqui, não digo 80, mas acho que 70% do que eu falei aqui é baseado no que me falaram, não em coisa escrita, porque não existe nada fotografado. Cinemas de bairro de São Paulo, não existem foto deles, literalmente não tem. Na TV Cultura, até falei assim, isso foi para o ar, várias vezes, repetia no Vitrine, repetiam as matérias, eu falava e falei assim: Gente, pelo amor de Deus, cinema de bairro, todo mundo tirava foto na frente do cinema. E é verdade, o pessoal que morava na redondeza falava: Vamos tirar foto, tirar foto da fachada do cinema. Se tiverem foto antiga de cinema, mandem para mim, meu telefone é tal, tal, tal, mas é difícil. O pessoal nem lembra se tirou. Meu pai fala também que o pessoal diz: A gente naquela época não se preocupava em bater foto do cinema. A gente se preocupava na bilheteria para sobreviver. Então eu acho que tem que ser por aí mesmo, até o que vocês tão fazendo aqui no IMES acho super interessante, preservar, gravar, registrar o máximo possível e preservar. Não é porque eu sou de São Caetano. Não pertenço a partido político nenhum. Nunca pertenci. A cidade que mais se preocupa com a memória é São Caetano. O trabalho do Prefeito, esse Prefeito Tortorello vem fazendo e faz em função da memória da cidade é coisa fantástica. Nenhuma cidade faz o que São Caetano faz. Santo André não chega nem perto. São Bernardo então nem se fala. Santo André não chega nem perto.

Texto e imagem reproduzidos do site: hipermemo.uscs.edu.br

sábado, 19 de novembro de 2016

História de Antônio Feliciano, projecionista português de 75 anos (2015)












Imagens: Rafael Marchante/Reuters.

Publicado originalmente pela Reuters De Monforte (Portugal), em 09/11/2015.

Aos 75 anos, projecionista português teme ser o último do cinema itinerante.


Traços do clássico ganhador do Oscar "Cinema Paradiso" permeiam a vida de Antônio Feliciano, um energético senhor de 75 anos, que teme ser o último projecionista do cinema itinerante em Portugal.

"Se não sou o último, estou perto disso", disse Feliciano. "Esse é um legado que vai acabar. Quando eu me for, o cinema itinerante será mencionado em artigos, mas apenas como uma memória", lamenta.

Depois de seis décadas viajando quatro milhões de quilômetros para exibir 4 mil filmes em aldeias distantes de Portugal, Feliciano ainda não tem planos de se aposentar. Mas está conformado com o fato de que os monopólios de Internet, TV e distribuição digital tornaram seu ofício obsoleto.

Como Totó, o menino que faz amizade com o projecionista Alfredo no filme italiano, sucesso em 1988, Feliciano também começou ainda jovem, na década de 1950, ajudando um projecionista itinerante a anunciar a programação do fim de semana em um alto-falante em sua aldeia na parte rural do Alentejo.

O negócio cresceu e já na adolescência ele pegou a estrada, ajudando a projetar filmes em salas de música e arenas de touradas. Isso o levou a uma carreira que até mesmo a necessidade de ganhar a vida como contador não interrompeu, pois ele combinou as semanas em um escritório de Lisboa com exibições de fim de semana.

A cerca de 200 quilômetros de Lisboa, a montanhosa Monforte é uma aldeia típica do Alentejo - pitoresca, mas sonolenta - com a população reduzida a 3 mil pessoas por causa de problemas econômicos e da migração.

Artemísio Pecas, filho do projetista, conta que "antes do filme, eles apresentavam o noticiário, e era no cinema que as pessoas viam Lisboa, as colônias, e mesmo o mar, pela primeira vez".

Em um domingo ensolarado, no entanto, a aldeia se anima quando Feliciano está para exibir um filme em homenagem a Domingos Pecas, um projetista local que morreu em 2005, depois de 50 anos na atividade.

"Nosso entretenimento era o cinema itinerante. Não tínhamos mais nada, nem TV, nem rádio. Éramos muito pobres", disse a moradora Nazaré Alfaia, de 71 anos. "Não sei ler, por isso não me lembro dos nomes dos filmes, mas eram aventuras, vaqueiros e cavalos", acrescentou, cercada por uma coleção de projetores antigos de Feliciano e cartazes desbotados de westerns e musicais.

Texto e imagens reproduzidos do site: cinema.uol.com.br