segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Homenagem a Paulo Tardin


Fotos reproduzidas do blog: espacoculturallucianobastos.blogspot

No Tempo das Matinês.
Por Lauro Affonso Faria.

Paulo Tardin é um pesquisador e colecionador de raridades do cinema e da televisão.  Possui filmes de cowboys, seriados de aventuras, policiais, heróis da selva, comédias, terror, espionagem, documentários, clássicos etc., (em fitas de vídeo, DVDs e películas de 16 e 35 mm) da chamada ERA DE OURO DO CINEMA.

Criador da Fã Clube Cine - TV Nostalgia, que reúne – hoje – cerca de 18.000 aficionados por todo o país, Tardin resgata em sua gigantesca coleção perto de 35.000 títulos raros e mais fotos, pôsteres e “lobby-cards”, além de livros e revistas em quadrinhos, inclusive o primeiro “Western”, produzido em 1903.

Também comerciante (lojas de discos e locadoras de filmes), Paulo viu-se na obrigação de transformar a sua casa em Bom Jesus do Itabapoana, RJ, em um verdadeiro museu, tal a imensidão do seu acervo.

Cinéfilo desde 1950 (nasceu na década anterior), Paulo Tardin começou sua coleção ainda menino, recolhendo – do assoalho da cabine de projeção do velho “poeira” da cidade natal – os fotogramas esquecidos dos filmes de faroestes. Também levava “para guardar em casa” – dizia – após a última sessão noturna, alguns cartazes expostos; gesto que classifica, hoje, “apenas como troca de titularidade”, brinca.

Ele fez muitas viagens pelo Brasil afora, e também ao exterior, em busca de imagens que se consideravam perdidas.  E conhecer as planícies selvagens (dos Estados Unidos da América), onde eram realizados os filmes preferidos da sua infância e, se possível, travar um contato pessoal com seus ídolos, eram outros desafios a serem vencidos.

E Paulo Tardin conseguiu tornar realidade suas fantasias infantis: viajando pela América do Norte, entre os Estados da Califórnia, Arizona, Nevada e Utah, pôde conhecer os belíssimos palcos naturais por onde desfilavam os grandes heróis, incluindo aí o Grand Canyon, Vasquez Rock`s e o maravilhoso Monument Valley, cenário predileto do mestre John Ford.

Por vários anos seguidos tem participado do LONE PINE FILM FESTIVAL (Lone Pine, outro magnífico cenário hollywoodiano), onde conheceu e se tornou amigo de antigos mitos das matinés de outrora: ROY ROGERS, o Rei dos Cowboys; GENE AUTRY, o primeiro Cowboy-Cantor; MONTE HALE, o Príncipe das Planícies; IRON EYES CODY, o mais famoso Pele-Vermelha dos faroestes; WILLIAM WITNEY, o mais bem sucedido diretor dos westerns B e seriados de aventuras, fonte de inspiração para o mago STEVEN SPIELBERG. ( O veterano Witney dirigiu, entre outras grandes produções, ROBUR – O CONQUISTADOR DO MUNDO,  baseado em livro de Jules Verne, com Charles Bronson e Vincent Price ).

Tardin fez amizade também com as ‘mocinhas’ PEGGY STEWART (uma das mais assíduas e favoritas dos anos 40 e 50); VIRGINIA MAYO (loura fatal, muitas vezes; estrelou com James Cagney FÚRIA SANGUINÁRIA); e outros atores-cowboys: GEORGE MONTGOMERY, HARRY CAREY JR., JOHN AGAR, FRANK COGLAN JR. ( o Billy Batson do Capitão Marvel, aquele do “SHAZAM” ).

Partes do fantástico acervo de Paulo Tardin têm sido apreciadas através de Mostras realizadas em espaços nobres, no Rio de Janeiro, como: CINEMATECA DO MUSEU DE ARTE MODERNA; FUNDAÇÃO REAL GRANDEZA (FURNAS); CENTRO CULTURAL CÂNDIDO MENDES; FUNARTE (AUDITÓRIO MURILO MIRANDA DO TEATRO CLAUCE ROCHA); MUSEU DA REPÚBLICA; MUSEU DO TELEPHONE ( atual OI-FUTURO DO FLAMENGO, onde foi resgatada a memória do cômico ANKITO, com uma concorrida mostra de seus filmes e a presença do mesmo); e, em São Paulo, no CENTRO CULTURAL, com o ciclo intitulado “NO TEMPO DAS MATINÉS”, nome que serve, aliás, para um livro que Tardin está escrevendo e espera lançar brevemente.

Atualmente, Paulo Tardin vem se dedicando também a restaurar filmes brasileiros (muitos considerados desaparecidos): O PETRÓLEO É NOSSO (54); CHICO VIOLA NÃO MORREU (57) – vida romanceada do cantor Francisco Alves, o “Rei da Voz”; LUZ DOS MEUS OLHOS (47) – fita rodada pela Atlântida e primeiro filme de Cacilda Becker.  Também fazem parte do projeto diversas séries de TV que fizeram delícias com as crianças das décadas passadas, inclusive a famosa NATIONAL KID.

Do grande arquivo de raridades do seu acervo foi selecionada uma sequência do lendário cowboy do cinema mudo TOM MIX, para ser inserida no filme sobre o consagrado compositor brasileiro HEITOR VILLA LOBOS, obra do cineasta Zelito Vianna. Muitas outras cenas de filmes raros e antigos são também cedidas para muitas novelas de época das TVs do Brasil.

Paulo Tardin foi nomeado membro titular do CONSELHO ESTADUAL DE CULTURA DO ESPÍRITO SANTO, em reconhecimento ao seu trabalho de preservação da memória cinematográfica. 


Texto reproduzido do blog: cinetvnostalgiadvd.blogspot.com.br

sábado, 29 de novembro de 2014

A sétima arte no Oswaldo Cruz.


Publicado originalmente no Diário do Grande ABC, em 16 de setembro de 2014.

A sétima arte no Oswaldo Cruz.
Por Vanessa de Oliveira.

No escurinho do cinema, Atilio Santarelli, 56 anos, encantou-se não só com produções cinematográficas, mas também pelos bastidores responsáveis pela reprodução dos filmes. Em sua casa no bairro Oswaldo Cruz, em São Caetano, ele reservou um cômodo para abrigar 15 projetores, em funcionamento, de película 35 mm (milímetros), que por décadas transmitiram clássicos da sétima arte e emocionaram milhares de espectadores. Outros dez estão na casa de uma tia, em Santo André, mas em breve também integrarão o espaço. Uma urna de ingressos e cartazes originais de filmes como Até o Último Mercenário, estrelado por Carlos Miranda (protagonista da famosa série Vigilante Rodoviário), compõem o ambiente. Miranda, inclusive, é ex-cunhado de Santarelli.

A paixão pelo cinema é herança de família. O avô, que também se chamava Atilio, foi proprietário, em 1921, do primeiro cinema de São Caetano, o Cine Central. O pai e os tios de Santarelli expandiriam, anos depois, os estabelecimentos para Mauá, Santo André, São Bernardo, Ribeirão Pires e São Paulo. Foram nesses cinemas que Santarelli passou sua infância. “De manhã, eu ia para a escola e, à tarde, meu pai me levava ao cinema. Nesse horário não tinha sessão e eu ficava mexendo nos projetores”, lembra.

O amor pelas máquinas o acompanhou na maturidade e até causou problemas. “Quando namorava minha esposa, largava-a na plateia para ver os projetores. Ela ficava muito brava e avisava: ‘Se for para ir ao cinema e você subir na cabine para ver projetor, não vou, vá sozinho’.”

O desejo de colecionar projetores começou na década de 1980, ao trabalhar com telecinagem (processo que reverte a película de cinema em sinal de vídeo). “Conheci algumas pessoas que tinham o equipamento em casa e pensei: por que não posso ter um? Montei um projetor no quintal da casa da minha mãe e projetava os filmes na parede da cozinha. Vinham primos, amigos, todo mundo adorava.”

Como os equipamentos da família haviam sido vendidos, Santarelli engrossou a coleção comprando e ganhando os equipamentos. Entre as relíquias está um projetor de 1949, que pertenceu ao Cine Iporanga, de Santos. Ele transmite filmes a um cinema particular que Santarelli projetou, com direito a telão e cinco poltronas, como manda a tradição.

De 600 títulos de filme em películas, ele se desfez de alguns e ficou só com os que mais gosta. “Tem que ter tempo para cuidar, pois a película estraga, então, diminui a quantidade de filmes. Até porque o que gosto mesmo é a máquina.”

Hoje, a era da tecnologia não atrai o interesse do colecionador. “Os cinemas de antigamente tinham até 4.000 lugares, telas gigantescas. Agora, vou ao cinema no shopping e o que vejo é um salão quadrado, com carpete no chão e na parede, uma tela e mais nada. Evidentemente que a projeção digital é fantástica, mas o glamour de antes, com palco, cortina vermelha, acabou. Sou um privilegiado por ainda ter vivido um pouco da época dos cinemas de rua.”


Texto e imagem reproduzidos do site: dgabc.com.br/Noticia

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Homenagem a Zagati e seu Mini Cine Tupy


 









José Luiz Zagatti



O catador de sonhos
Por Izabela Vasconcelos O. Almeida.

Um cinema feito com materiais encontrados no lixo já fez os olhos de muitas crianças brilharem na periferia de Taboão da Serra.

A história de José Luiz Zagatti, 56, é conhecida no Brasil e fora dele, ele já foi notícia em mais de 20 jornais, revistas e programas de televisão. O catador de papelão, nascido em Guariba, interior do estado, montou o Mini Cine Tupy, no Jardim Record, em Taboão da Serra, com filmes e projetores encontrados no lixo. Zagatti, que estudou só até a 3ª série do ensino fundamental, criou seu primeiro projetor aos 12 anos e se encantou com o mundo do cinema, cultura que procura levar aos moradores de sua região, mesmo sem apoio financeiro e com uma estrutura simples, mas com muita boa vontade e paixão.

Quando o senhor foi a um cinema pela primeira vez?

Aos cinco anos de idade. Fui com a minha irmã, ela já tinha uns 12 anos de idade. Eu me lembro bem, parece que foi ontem, nunca mais esqueci. Eu fiquei encantado com aquele ambiente do cinema.

Depois dessa primeira vez, o senhor foi a cinemas muitas outras vezes?

O quanto podia. Meu pai sempre ia na padaria ao lado do cinema eu ficava em frente ao cinema, porque para mim era um encanto, aquela lembrança do interior, para mim parecia a mesma imagem. Mas eu era pequeno, quando eu cresci passei a freqüentar esse cinema. Por isso que aqui tem o nome de Mini Cine Tupy, é uma homenagem ao Cine Tupy.

Quando o senhor começou trabalhar como catador de sucata e como achou o seu primeiro projetor?
Eu montei um negócio próprio, faz uns 15 anos. Mas não deu certo, faliu. Fui procurar emprego, mas não achava e a situação foi ficando difícil. Eu pensei: o jeito é catar papelão e vender. Aí comecei a tirar o sustento da minha família e graças a Deus o que eu sempre quis, desde a infância no interior, eu consegui realizar, o sonho de fazer platéia, projetar um filme para as pessoas da periferia, porque encontrei o projetor no lixo.Quando comecei a catar papel passei a encontrar no lixo esses materiais quebrados e fui trazendo para casa e montando.
Para mim era uma riqueza encontrar aqueles materiais Eu montei aquele projetor, emendei aqueles pedaços e rolos de filme e comecei a projetar.

Como foi a sua primeira projeção de filme?

Eu esperei anoitecer, coloquei um lençol na parede e projetei os filmes que eu havia emendado. Esse filme já foi passado na TV Cultura. Era pedaço de um, pedaço de outro, um era chiado, o outro preto e branco. As crianças nunca tinham visto aquilo na vida, elas foram se aproximando curiosas, olhando a luz do projetor, olhando o lençol. “Seu Zagatti o que é isso? Isso é cinema!”, eu respondia. Aí elas sentavam para assistir. Também tinha algumas pessoas no bar e elas saíram e vieram assistir o filme.
O cinema aqui é modesto, é pobre, mas a gente passa filme que é exibido em qualquer cinema. Eu tenho VHS, mas DVD também. Não ficamos só nos filmes antigos.Todo cinema tem pipoca e aqui as pessoas nem pagam para o cinema, nem para a pipoca, porque a maioria das crianças não tem dinheiro nem para comprar pipoca. Elas têm direito. Já que elas não podem ir lá no “cinemão”, venham no cineminha.

O senhor fez o seu primeiro projetor aos 12 anos, alguém te ensinou?
Não, foi intuição. Eu consegui na época um pedaço, um rolo de filme. Aí eu fi z um projetorzinho com uma lente de óculos, uma caixa de madeira e um farolete, não tinha luz na cidade naquela época. Depois coloquei duas tampas de lata para enrolar o filme. Eu projetava aquilo na parede, claro que não tinha som, nem movimento, só fi cava o quadrinho, que eu ia mudando. Era um filme do Mazzaropi, o Chico Fumaça, mas naquela época eu não sabia. Hoje eu sou fã do Mazzaropi.

E como foi criado o cinema? Como o senhor conseguiu ajuda?

Eu fui atrás de colecionadores, pessoas que podiam me emprestar filmes. Eu explicava que era catador de papel, passava filmes para crianças e não tinha dinheiro para comprar filmes.
Passei a freqüentar uma biblioteca que reunia colecionadores e conheci pessoas que me emprestavam filmes, eu trazia para casa e divulgava a exibição para as pessoas do bairro.

Como o senhor continuou esse trabalho de levar o cinema para a periferia?

Eu andava com o meu carrinho, catando papel na rua, via uma parede boa para projetar filme, conversava com o morador daquela casa e explicava que eu queria passar um
lme para as crianças ali. As pessoas não entendiam, eu com aquele carrinho dizendo que que-ria passar filme? Eu passava, mas nem sempre dava certo, porque às vezes chovia e eu tinha que cancelar.
Aí eu pensei que precisava exibir os filmes em escolas. Um dia encontrei um jornal no lixo que tinha o telefone da Secretaria Estadual de Cultura do Taboão.
Decidi ir lá para falar com o secretário, mas foi muito difícil falar com ele, mas eu me sentia no direito de falar com ele, eu precisava conversar. Consegui falar com a assessora do secretário.
Conforme eu fui contando meu trabalho, eles foram se interessando. Depois me convidaram para fazer a 1ª Mostra de Cinema Nacional, foram três dias de filmes. Depois disso eu trabalhei por seis anos na Secretaria Estadual de Cultura. Fui contratado pelo Marcos Mendonça, presidente da Fundação Padre Anchieta, da TV Cultura. Eu levava o cinema para a periferia, para idosos, para a Grande São Paulo.
Mas mudou toda a Secretaria, o Governo e eles queriam que eu fizesse um trabalho interno, que não era nada de cinema, e não é isso que eu quero, eu quero trabalhar com gente. Mas eu fui para vários lugares da cidade, vários asilos naquela época.

As sessões de domingo continuam?

De uns tempos pra cá ficou mais difícil. Nem sempre dá. A lâmpada do meu projetor ficou desgastada e fiquei alguns meses sem poder exibir. O público se distanciou porque sempre que eles vinham e eu dizia que ainda não tinha condições, aí as pessoas se afastaram. Agora que consegui a lâmpada e vou voltar às sessões.

Qual é o seu maior sonho?

Meu sonho é conseguir continuar o meu trabalho, ter estrutura. Eu queria que esse espaço tivesse qualidade, todo o conforto que uma pessoa merece. Eu acho que não tem diferença quem mora no Morumbi e quem mora na favela, é gente também e tem os mesmos direitos.
Eu queria que aqui fosse parecido com uma sala de cinema, tivesse carpete, ar condicionado. Meu sonho é esse, olhar as pessoas e ver que elas estão se sentindo bem aqui.

Texto e imagens reproduzidos do blog: gentedemais.blogspot.com.br