terça-feira, 17 de junho de 2014

Exposição que conta a história do cinema nacional

Exposição que conta a história do cinema nacional. 
Omar Dimbarre possui mais de três mil cartazes colecionados no decorrer de 12 anos.
 Foto: Giuliano Pedroso/JDV.

Publicado originalemnte no site diariodovalesc.com.br, em 24/03/2014. 
Da Redação
Giuliano Pedroso  

Com o tema “A história do Cinema Brasileiro em Cartaz”, a exposição é uma pequena mostra em 25 cartazes nacionais e estrangeiros, de títulos consagrados do cinema mundial desde a década de 30 até 2013. A coleção faz parte do acervo particular do cinéfilo e colecionador Omar Dimbarre de Herval d’ Oeste.  O projeto que é pioneiro no Sesc em Santa Catarina, e conta um pouco da história da sétima arte no país através dos títulos mais conhecidos.

Os cartazes seguem expostos no Sesc Joaçaba até a próxima quinta-feira (27). “O primeiro estúdio cinematográfico brasileiro nasceu com Ademar de Barros e um amigo dele isso em 1930, mas a história não conta assim. O Filme Ébrio de 1946 levou mais de 8 milhões de pessoas ao cinemas, isso naquela época, ficando em cartaz de 1946 até 1953. Tem o cartaz do O Pagador de Promessas, único filme brasileiro a ganhar a Palma de Ouro em Cannes. Barravento, primeiro filme de Glauber Rocha, Um Caipira em Bariloche do Mazaroppi, ator mais popular do cinema brasileiro nas décadas de 50 e 60, além de cartazes de filmes mais recentes que tiveram alguma importância para o cinema brasileiro”, destacou Omar Dimbarre.

Apaixonado por cinema, amante da sétima arte, colecionador de cartazes, nacionais e internacionais. A arte dos cartazes também contagia pessoas do mundo todo. Omar acredita que é um dos maiores colecionadores de cartazes do sul do país, o maior catarinense. Segundo o colecionador, na Europa e Estados Unidos, os cartazes são mais valorizados. “Alguns do eterno Mazzaropi, nosso ator caipira podem custar mais de R$ 600 um lote de três cartazes”, cometa Omar.

Depois vem o Terra é Sempre Terra, segundo filme da Vera Cruz, companhia cinematográfica mais importante da década de 50. O Pagador de Promessas, único filme brasileiro a ganhar a Palma de Ouro em Cannes. Barravento, primeiro filme de Glauber Rocha, Um Caipira em Bariloche do Mazaroppi, ator mais popular do cinema brasileiro nas décadas de 50 e 60, além de cartazes de filmes mais recentes que tiveram alguma importância para o cinema brasileiro: Cidade de Deus, Central do Brasil, Tropa de Elite, Faroeste Caboclo e O Som ao Redor, dentre outros títulos.

Cidade de Deus conhecido filme do novo cinema brasileiro, tem cartazes de destaque na exposição já que possui tamanho superior aos normais no Brasil. Do filme Central do Brasil, tem arte até na língua japonesa, revelando que o cinema nacional já algumas décadas conquistou outros países. Tropa de Elite, Faroeste Caboclo e O Som ao Redor, dentre outros títulos revelam que a arte de chamar o telespectador também existe em cartazes. “Comecei minha coleção há 12 anos. Hoje possuo mais de 3 mil títulos brasileiros e vários europeus. É preciso muito contato, pesquisa pois no Brasil são poucos os colecionadores de cartazes de filmes. Mas com certeza é uma paixão que necessita ser divulgada. O cinema não é apenas para entreter, mas também discutir o que se passa nas nossas vidas, no nosso cotidiano”, explicou o colecionador.

A exposição segue uma ordem cronológica: Os cartazes dos filmes Bonequinha de Seda e o Ébrio são da Cinédia, o primeiro estúdio cinematográfico brasileiro. Bonequinha de Seda foi o filme brasileiro mais importante da década de 30 – Cinédia - até outros que destacaram recentemente como é o caso de Tropa de elite e Faroeste Caboclo.

Foto e texto reproduzidos do site: diariodovalesc.com.br 

Cinema - A paixão pela sétima arte


Cinema - A paixão pela sétima arte.
Cinéfilo afirma que tem uma das maiores coleções do sul do estado.

Jornal Boca - Edição 117
Fernanda Beltrand

Balneário Camboriú/SC - Milhões de pessoas colecionam os mais diversos objetos em todo o mundo. Alguns colecionam selos, outros moedas. No caso de Fernando Humberto Delatorre são os projetores. O cinéfilo é apaixonado por tudo o que se refere a cinema. Desde 1967, ele acompanhou as atividades do pai Eduardo Delatorre, ou seja, 45 anos dedicados a essa paixão. São mais de duzentos projetores de todos os modelos, tipos, tamanhos e cores em perfeito estado de conservação.

Para adquiri-los o colecionador frequenta antiquários e feirinhas de rua em metrópoles como Rio de Janeiro, Porto Alegre e São Paulo, incluindo viagens ao exterior, como Montevidéu, Buenos Aires, Estados Unidos, França, Alemanha, Áustria e Polônia.

“Ultimamente tem sido mais difícil encontrar esses artigos nas feiras. Eles estão cada vez mais escassos, devido ao grande número de colecionadores. Alguns amigos e pessoas que sabem da minha coleção já me presentearam com alguns projetores”, revela.

Parte do seu acervo está exposto no Arquivo Histórico municipal, situado na 3ª avenida esquina com a Rua 2550. Os projetores são de 8mm, super 8mm, 9,5mm, 16mm, e 35 mm. Este último até hoje é utilizado em cinemas comerciais.

Um dos maiores projetores que fazem parte do acervo, é um modelo movido a carvão, americano, da década de 40. O projetor mais antigo da coleção de Fernando é de 1906, da marca Pathé Baby, de 9,5mm, fabricado em Paris, França. Este projetor era fabricado para projetar filmes mudos, em branco e preto, e funciona manualmente através de uma manivela lateral, pois não possui motor.

Fernando conta que durante a guerra alguns projetores eram jogados de helicópteros para os soldados durante a guerra. O projetor a qual se refere é da marca RCA com 16mm, fabricado nos Estados Unidos.

“Os projetores que eram jogados para os soldados, eram mais resistentes e compactos e absorviam o impacto durante a queda”, conta.

Além de colecionar, o cinéfilo junto com seus funcionários também restaura os projetores. Quase todos estão em pleno funcionamento. Muitos surpreendem pelo tamanho. O Super Samplex 35 é um deles. Fabricado em 1938, nos Estados Unidos, este projetor mede 1,8m de altura e funciona a base de carvão.

Antigamente, para colorir os filmes era utilizado um círculo com filtros coloridos como vermelho, amarelo e verde. Os telespectadores poderiam escolher a cor que gostariam de assistir seus filmes e, além disso, poderiam assistir aos filmes só vermelho, ou apenas amarelo.

Além disso, fazem parte do acervo "Lanternas Mágicas" (projetores com imagens paradas que antecederam as com movimento dos projetores de cinema). Fabricadas no final do século XIX.

Alguns fizeram parte dos negócios de cinema de Eduardo Dellatorre, que possuiu os três maiores cinemas do estado (Cinerama, Auto Cine e Cine Itália), em Balneário Camboriú.

Foto e texto reproduzidos do site: portalmenina.com

Projetor 16mm


Cabine de Projeção


Vida e obra de José de Oliveira.


Vida e obra de José de Oliveira. 
  
José de Oliveira, o Zé Pintor, é um dos pioneiros na atividade cinematográfica na cidade de São Carlos. Nascido em 1930, Zé Pintor possui um envolvimento com o cinema que data da sua época de menino, quando já realizava o “Cineminha” – que consistia em uma espécie de teatro de sombras realizado com bonecos de papel contra a luz de velas – com sessões na sala de sua casa, ao preço máximo de um quilo de alimento como ingresso, reunindo diversas crianças do bairro em torno do seu trabalho.
  
Na adolescência, José de Oliveira se envolveu com as salas de exibição da cidade de São Carlos. No início como voluntário, e posteriormente como profissional contratado, trabalhou nos principais cinemas de rua da época – o Cine São José, o Cine Avenida e o Cine São Carlos – além de salas em outras cidades do interior, como no Cine Teatro Polytheama (1947) em Jundiaí, e em Santo André, no Cine Tangará (1948/1949).

José de Oliveira é um artista plástico autodidata (daí seu popular apelido), que aprendeu a técnica da pintura praticando e estudando aulas de revistas, e observando alguns pintores durante a sua juventude. Em 1946, Zé Pintor conheceu Liugi De Carli, pintor italiano que residiu em São Carlos por 1 ano, e que contribuiu no aperfeiçomento de algumas técnicas de retrato e paisagem.
  
Logo, Zé assumiu essa habilidade como profissão, pintando fachadas de comércios, quadros encomendados, réplicas de fotografias e, principalmente os cartazes de cinema dos filmes a serem exibidos, o que intensificou sua paixão e sua veia criativa através da produção de imagens.
  
Nos anos 50, Zé continuou trabalhando nos cinemas da cidade, aprofundando o seu interesse pela fotografia. Assim, ele adquiriu (comprando e trocando) algumas câmeras fotográficas da época, tirando fotos, revelando e ampliando-as no laboratório de sua casa.
  
Em 1958, o artista comprou uma câmera filmadora portátil Keystone A12 16mm, e começou a realizar suas primeiras filmagens durante os finais de semana, quando todos podiam se reunir para atuar nas cenas. Vale ressaltar que em São Carlos não haviam laboratórios que trabalhassem com a bitola 16mm. Seus primeiros filmes eram revelados pela Fotóptica de São Paulo, localizada na rua Conselheiro Crispiniano, e montados em sua casa.
  
Com o passar dos anos, Zé aprendeu a revelar películas P/B, transformá-las de negativo em positivo e a fazer cópias – tudo em seu laboratório, a partir de técnicas empíricas de tentativa e erro, e em pesquisas sobre fotografia e cinema, sobre os processos químicos e físicos de revelação de películas.

Para a realização das filmagens, José de Oliveira trabalhava em todas as etapas da produção e da criação cinematográfica. Além dos roteiros, ele selecionava e dirigia os atores, montava cenários, criava o maquinário e maquetes, definia os enquadramentos, montava a luz, fotometrava e focava suas imagens, realizava trucagens (fusões, fades, intertítulos) com técnicas alternativas simplificadas e muito criativas. Quando não conseguia fazer todas essas funções, contava com a ajuda das pessoas ao seu redor – geralmente os atores dos filmes.
  
Zé considerava a presença dos atores de seus filmes e as articulações que esses faziam para contribuir na produção – conseguir locações, figurinos, convidar atores de terceira idade, crianças, etc – como um elemento divino em sua obra, um gracejo, uma vontade de Deus que permitia aos envolvidos vivenciarem o momento da criação de um filme, eternizando-se no imaginário e no coração das pessoas que participaram daquela experiência.
  
Após o processo de revelação e replicação de películas, Zé organizou poucas sessões públicas, frequentadas pelas pessoas envolvidas no filme e suas famílias. No entanto, esses filmes, idealizados com diálogos e trilha sonora, não foram sonorizados. Os motivos foram econômicos e tecnológicos, uma vez que ele não teve acesso a um gravador Nagra, nem a um estúdio de som para dublar os filmes, e o processo de sonorização em São Paulo era muito caro para as suas condições.
  
Tal impasse desestimulou Zé Pintor, que engavetou suas obras e aos poucos se distanciou da produção e da exibição de cinema. A maior parte do material produzido por ele foi vendido, outros sumiram (se perderam pela falta de cuidado na armazenagem, ou por furtos em sua casa) restando apenas poucas películas em seu laboratório, onde ele armazena os negativos originais de seus três principais filmes em 16mm.
  
Nos anos 80 e 90, com a crise dos cinemas de rua, Zé Pintor se afastou do cinema e concentrou seu trabalho na pintura. No começo dos anos 2000 é organizada uma mostra em sua homenagem, realizada pelo SESC São Carlos e pela videolocadora Video 21, sobre sua trajetória como cineasta. Essa mostra permitiu que o realizador de vídeos Eduardo Sá fizesse o telecine amador dos seus principais média-metragens (intervindo nos filmes com cortes de algumas cenas e efeitos digitais nas imagens) e dirigisse um documentário sobre a trajetória do Zé para ser apresentado na Mostra, intitulada Zé Pintor: um olhar sobre São Carlos.

No ano de 2007, foi organizada pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) através do Festival Contato a Mostra Sanca – uma pesquisa dos principais filmes já realizados na cidade de São Carlos, e José de Oliveira foi o homenageado. A organização dessa mostra possibilitou que um grupo de realizadores conhecessem Zé Pintor e começassem a construir uma relação de trabalho com ele. Em 2008, o mesmo grupo de realizadores fez o trabalho de sonorização do filme Testemunha oculta, em um processo de reconstrução do roteiro realizado pelo próprio diretor em conjunto com a equipe de sonorização do filme.

Em 2009, o mesmo grupo em conjunto com José de Oliveira começou a criar o filme Delírios de um cinemaníaco, dando continuidade à sua obra e expondo ao mundo a sua trajetória de vida.
  
Filmografia de José de Oliveira como diretor:

- Uma voz na consciência (1961) – média-metragem
- Príncipe Branco (1964) – curta-metragem (Inacabado)
Paranóia (1964) – curta-metragem (Inacabado)
Adversidade (1965) – curta-metragem (Inacabado)
Testemunha Oculta (1969) – média-metragem
Sublime Fascinação (1974) – média-metragem.

Foto e texto reproduzidos do site: filmesparabailar.com/zepintor/?page_id=31

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Emtrevista com Zé Pintor e Carlos Eduardo Magalhães



José de Oliveira posando com sua Keystone em 1961.

Publicado originalmente na Revista Universitária do Audiovisual (RUA),
em  07 de Dezembro de 2012.

Emtrevista com Zé Pintor e Carlos Eduardo Magalhães,
sobre o filme “Delírios de um Cinemaníaco”.

(...) “Delírios de um Cinemaníaco”, longa inteiramente filmado na própria cidade de São Carlos. A ficção é baseada na vida de José de Oliveira, mais conhecido por Zé Pintor, um dos pioneiros na realização de filmes amadores na cidade. O projeto do filme nasceu em 2007, após a Mostra Sanca, na qual Carlos Eduardo Magalhães e Felipe Leal Barquete, entre outros realizadores, tiveram a oportunidade de conhecer e se admirarem com o trabalho de Zé, tal como por sua trajetória de vida.

(...) Conversamos com Carlos Eduardo (um dos diretores) e com Zé Pintor sobre as motivações que os levaram à construção do filme, assim como as dificuldades encontradas durante seu processo de produção, que foi todo baseado em um sistema de trabalho colaborativo. Os dois também relataram um pouco sobre o início de suas carreiras no cinema e suas expectativas para a estreia do longa.

Entrevista por Mauricio Iwaoka*
Captação e transcrição por Fernanda Sales **
  
Rua: Primeiramente, gostaríamos de saber um pouco da trajetória de vocês no Audiovisual, que fator, ou fatores, motivaram vocês a começar uma carreira nessa área?

Carlos Eduardo Magalhães: Eu comecei porque gostava muito de ver filmes no cinema, era uma programação muito comum entre minha família e entre amigos. Quando escolhi o que queria fazer, decidi que queria fazer isso. Daí eu vim pra São Carlos, fazer o curso de Imagem e Som (UFSCar). Eu sempre tive foco no cinema, não no audiovisual ou em outras vertentes. Comecei trabalhando em curtas e minhas formação principalmente foi em cineclubes, no Cine São Roque e CineUfscar (ambos em São Carlos) como programador e produtor. No primeiro festival CONTATO eu tive a oportunidade de conhecer o Zé (José de Oliveira, Zé Pintor), quando fizemos uma mostra, chamada Mostra Sanca (2007) e aí homenageamos o filme do Zé. No ano seguinte conseguimos recursos para sonorizar o Testemunha Oculta (média-metragem e 1968 de José de Oliveira). Eu já tinha feito mais de dez curtas, nas diferentes áreas, eram exercícios de universidade e eu tinha a perspectiva de passar por todas as áreas para entender melhor cada uma; fiz montagem, produção, foto, roteiro, direção. Depois de formado percebi que eu queria isso mesmo e o Zé trouxe essa oportunidade de fazer o filme, ele já tinha escrito algumas cenas e assim eu me foquei nesse trabalho.

José de Oliveira: Eu trabalhava no cinema como pintor de cartazes, depois, aos poucos, eu comecei a gostar de cinematografia. Depois de uns tempos eu comprei uma câmera, reuni uns amigos e fui começando. Gastei bastante filme, mas não me arrependi, me diverti bastante.
  
Rua: Vocês poderiam detalhar como funcionou o processo de produção colaborativa empregada no filme, inspirada na forma como o Zé Pintor realizava seus filmes? Quais as maiores limitações que vocês encontraram nesse tipo de produção?

CM: As maiores limitações são orçamentárias. A gente não teve recurso para pagar atores, para pagar todos os técnicos que participaram do filme. Tivemos recursos para pagar o mínimo da produção. As pessoas que se envolviam, se envolviam por que queriam estar fazendo um filme. Elas tinham esse sonho, esse desejo de fazer cinema – tanto os atores quanto a equipe técnica. O filme para essas pessoas era uma oportunidade de viver essa experiência, de se aprofundar na obra do Zé e de estar fazendo esse filme junto com o Zé. Os filmes que o Zé fez foi uma influência para a gente no sentido de ver que é possível fazer: é só você querer fazer mesmo. É possível fazer quando há pessoas que amam o que estão fazendo. Por isso que se fala que esse nosso trabalho é um cinema amador, pois ele é realizado por pessoas que fazem com amor seu trabalho. Esse amor foi a força que uniu todo mundo e a consciência de que o filme pronto, com uma história boa, pode gerar frutos para todos da equipe. O modo colaborativo se desenhou como estratégia de sobrevivência para o filme. Quando a gente ia precisando, as pessoas apareciam, e até agora está sendo assim.

Rua: E na sua época Zé, como você aproximava as pessoas para te ajudarem nos seus filmes?

JO: Eu saia na rua com a câmera na mão e a mostrava para, a maioria, crianças, jovens. Eu mostrava a câmera e eles perguntavam “Câmera do quê?” e eu respondia “De fazer cinema”, aí ficavam interessados. “Eu vou precisar de uns meninos, de umas meninas..” – dizia eu. Eles ficavam numa alegria. Um deles, o Luizinho chegou, colocou a mão do meu lado e perguntou: “Não tem uma beiradinha para mim no seu filme?” E ele é quem se saiu melhor. Ele não era ator, ninguém era ator. Mas a gente vai conversando, explicando e quase hipnotiza as pessoas. Eles ficavam com os olhinhos brilhando de alegria e eu consegui, assim, fazer um pouco de cinema. Você fica meio louco e quando vê está que nem macaco no meio das árvores e reúne outros loucos também, porque é uma loucura maravilhosa trabalhar com cinema. Desde que seja um cinema sadio, decente.

RUA: Aliás, no Delírios de um Cinemaníaco vocês utilizaram não atores, assim como o Zé Pintor fazia em seus filmes. Como foi essa experiência? Houve muitas dificuldades? Essas pessoas recebiam algum tipo de preparação?

CM: Foi uma oportunidade ótima, conversávamos com o Zé sobre isso. Ontem a gente contou quantos personagens tem no elenco, tem noventa e seis, é muito elenco para produzir. Noventa por cento do elenco eram de não atores. A gente fazia muito parecido com o que o Zé falou, saíamos na rua e víamos quem topava fazer o filme. Alguns pediam para fazer, outros tínhamos que seduzir até hipnotizar. O filme teve quatro sets, o primeiro set era só o Zé atuando, então os outros atores não tiveram muita preparação. No segundo set a gente percebeu que valia a pena fazer uma preparação, então teve uma oficina com alguns atores. Nos outros sets houve um trabalho de ensaio. A gente filmava sem som direto, nas cenas íamos falando “Vai… vai para a direita.. Agora fala tal coisa”. O fato de não termos som direto foi muito bom nesse sentido. Teve uma história legal [quanto ao uso de não-atores]: a gente não tinha uma avó e estávamos a quinze minutos de começar o set. Ligamos para o Zé e falamos “Zé, não tem avó” e ele disse “Não fala para a pessoa que ela vai morrer no filme”, aí a gente conseguiu a vó de um ator. O ator foi lá e pediu para ela atuar, os atores ajudavam a gente a conseguir outros atores. Ela topou dez minutos antes do set. Ela não sabia que ia morrer na cena, então deu alguns problemas, ela abria o olho, mexia a boca na cena.

JO: Eu dava algum palpitizinho, mas ele e o Felipe (Felipe Leal Barquete, também diretor do filme) que dirigiram. Eu era um palpiteiro. Eu não entendo o cinema fora do que eu fazia. E eles fazem a moda deles, dirigem a moda deles. Então, eles vão fazer o melhor, certo?
  
RUA: E como vocês fizeram a construção do personagem “Zé Pintor”?

JO: Eles seguiram a história. Procuraram os interpretes de acordo (eu aos treze anos e aos vinte e dois). Eles transformaram o que estava no papel em imagem. E ficou muito bom, os garotos interpretaram bem. E a dificuldade de conseguir intérprete é muito grande. É preciso ser um cineasta muito profissional, com ajuda financeira muito grande, porque não é fácil conseguir um intérprete de acordo com o gosto ou com o enredo.

RUA: Vocês conheceram o trabalho do Zé Pintor na Mostra Sanca em 2007. Gostaria de saber o que chamou mais atenção a vocês, o grupo de realizadores, no trabalho do Zé para surgir essa ideia de fazer um filme baseado na vida dele?

CM: Durante a preparação da Mostra Sanca, tive a oportunidade de assistir umas sessenta horas de filmes feitos em São Carlos e conheci o Eduardo Sá, que tinha feito um documentário sobre o Zé – “Zé Pintor, Um olhar sobre São Carlos” – Ele tinha os filmes em dvd. O que mais me chamou atenção era a direção dos filmes do Zé, e a montagem também. Achava muito bem dirigido, os atores bons, os enquadramentos criativos, as soluções de técnica de linguagem de letreiro, de repetição de imagens, de maquetes, cenários, figurinos, tudo estava muito bem feito e foi o filme em si que me chamou atenção. Aí eu conheci o Zé e aos poucos fui conhecendo a pessoa Zé. O que chamou muita atenção no começo foi a qualidade dos filmes mesmo. Quando vi os filmes do zé, como ele sózinho, uma pessoa só, fazendo tudo, percebi que era muito mais interessante do que outros filmes que vi na mostra, com equipes grandes, vários técnicos. Por isso tivemos a ideia de homenagear o Zé na mostra.
  
RUA: Como você caracteriza a importância do Zé Pintor para o cinema de São Carlos?

CM: Ele é quem começou mesmo… Não, já tinham feito o Fugitivos da vida na década de 50, filmaram algumas cenas de um cangaceiro da região por aqui também naquela época, mas o Zé é o pioneiro mesmo. E é um pioneiro que não se conhece, não se conhece no curso de Imagem e Som (curso de Audiovisual da UFSCar), pelo menos eu nunca tinha ouvido falar. Tínhamos a fita VHS com o documentário e só. E ali eu percebi que tínhamos um grande mestre do cinema.

JO: Hitchcock veio uma vez aqui em São Carlos escondido e copiou os meus filmes. Só que quando começou a realizar, deu um enfarte e caiu morto. Na verdade é uma brincadeira, porque um professor disse uma vez que eu via os filmes do Hitchcock e copiava.

CM: Ele é um percursor mesmo da cidade, não só no campo da realização, mas também do desejo de fazer cinema. É um inspirador de sonhos para outras gerações.

RUA: O filme será lançado aqui na cidade de São Carlos, lugar onde Zé Pintor trabalhou durante toda sua vida, e consequentemente onde se passa a história do filme. Como analisam a importância deste fato? Qual impacto positivo (tipo de motivação) desejam transmitir àqueles que são naturais da cidade de São Carlos e também àqueles que estudam e realizam cinema aqui?

JO: Só na hora, e depois que todos assistirem para vermos a reação. Mas vai ser coisa simples, o povo daqui é bom e educado. Eles vêem aqui tudo o que é de novo, foram preparados para ver coisas como essas, não vai ter problema nenhum. É um filme simples, não é um drama forte, não tem violência. Não são muitos que me conhecem, os poucos que estão me conhecendo um pouco mais é devido a propaganda que está saindo no jornal, na televisão. Mas o povo daqui é respeitoso, todos gostam de cinema e a exibição desse filme é uma novidade na cidade. Eu gosto de São Carlos, eu nasci aqui, quem bebe água de São Carlos não vai embora, a água daqui é boa.

A cultura de cinema agora vai surgindo na cabeça de cada um, mas eu aconselho a quem vai começar a fazer cinema, que veja primeiro se tem condições de começar e fazer, e fazer direito, com tudo que é preciso. Por que senão, não comece. Não entre nessa de cinema se não tiver a força e a categoria, e também a condição artística, o talento… Por que às vezes você está fazendo uma coisa que o espectador não vai gostar. Cinema é cultura, pode ser feito documentário sobre tanta coisa, filmes educativos, agora filme com estórias está muito difícil, porque as histórias já foram muito exploradas e estão sendo muito repetidas no cinema. Depois que o filme está na metade vem o cansaço, os problemas que surgem. Tem que ver se dá pra começar uma coisa e terminar e com muita qualidade. Se o filme não agradar, o trabalho fica perdido. Cinema é brincadeira em parte só, noutra não é brincadeira não, às vezes resulta em mal resultado, prejuízo financeiro. Eu sou amador, todos os filmes que eu fiz foram de brincadeira, eram sonhos. Vários deles ficaram pela metade e nunca consegui terminar, não tinha condição de sonorização.

RUA: Como o senhor vê a existência do curso de Imagem e Som aqui na cidade? Porque é um curso que está promovendo a produção de novos filmes, como o senhor avalia?

JO: Desde que os filmes sejam bem feitos, com consciência, educação, decoro. Deve ser feito imagens com nível intelectual e moral bem acentuado. Senão é desperdício, é gastar material. Tem que fazer com consciência. O curso tem valor pra quem gosta de cinema, fotografia, ainda mais hoje com a facilidade das câmeras digitais.

RUA: Eu queria saber um pouco sobre a relação do senhor com a morte, já que o filme aborda essa temática.

JO: Por enquanto eu vejo a morte nos outros, porque a minha não veio. Eu quero morrer de susto e bem rápido. (risos)

RUA: Considerações finais?

CM: Para aqueles que forem assistir Delíirios de um Cinemaníaco, eu espero que vocês gostem tanto do filme quanto a gente gostou de fazer, o filme é dedicado a você que ama o cinema.

JO: Esse filme  é um filme para quem gosta de cinema e para quem gostar da história. Espero que agrade a todo mundo, todos fizeram o máximo que puderam, com muito sacrifício e muito trabalho. Eles lutaram muito para conseguir, espero que tenham apoio e apreciação. O melhor mesmo é assistir ao filme para ter uma opinião.
  
* Mauricio Iwaoka é graduando do curso de Imagem e Som da Universidade Federal de São Carlos (USFCar) e editor da seção Entrevistas da Revista Universitária do Audiovisual (RUA).

** Fernanda Sales é graduanda do curso de Imagem e Som da Universidade Federal de São Carlos (USFCar) e Editora Geral da Revista Universitária do Audiovisual (RUA).

Foto e texto reproduzido do site: http://www.rua.ufscar.br/site/?p=14581

Apresentação da proposta do filme: "Delírios de um Cinemaníaco"

O presente projeto se propõe a filmar a biografia de José de Oliveira, 
artista plástico e cineasta amador de São Carlos, interior de São Paulo.



Apresentação da proposta do filme
por Felipe Barquete e Hiro Ishikawa

O presente projeto se propõe a filmar a biografia de José de Oliveira – artista plástico e cineasta amador de São Carlos, interior de São Paulo.

Aos 80 anos de idade, José de Oliveira possui uma obra em 16mm composta por curtas e médias-metragens, quase todos inacabados.

A grande paixão pelo cinema data da sua adolescência, quando começou a trabalhar nas  salas de exibição  de São Carlos, nos anos 40.  No trabalho, José de Oliveira se destacou pela sua habilidade de desenho e pintura, criando os cartazes dos filmes exibidos  no cinema. Dessa habilidade com a pintura, José ganhou o seu popular apelido de Zé Pintor.

Seus filmes foram feitos nas décadas de 50, 60 e 70. Como as condições para a realização de cinema no interior não eram propícias, José de Oliveira inventou um método próprio de criação – da produção ‘a copiagem dos filmes.Além dos roteiros, ele selecionava e dirigia os atores, montava cenários e maquetes, definia os enquadramentos, montava a luz, fotometrava e focava suas imagens, realizava trucagens (fusões, fades, intertítulos) com técnicas alternativas, simplificadas e muito criativas. Quando não conseguia fazer todas essas funções, ele contava com a ajuda das pessoas ao seu redor – geralmente os atores dos filmes e seus familiares.

A sua criação cinematográfica era tecida pelas relações de afeto, haja visto o seu modo de produção, sempre baseado na amizade, na cooperação, na mobilização de conhecidos para a realização das filmagens, que ocorriam nos finais de semana.

No entanto, esses filmes, idealizados com diálogos e trilha sonora, não foram sonorizados. Os motivos foram econômicos e tecnológicos, uma vez que ele não teve acesso a um gravador Nagra, nem a um estúdio de som para dublar os filmes, e o processo de sonorização em São Paulo era muito caro para as suas condições.

Tal impasse desestimulou Zé Pintor, que engavetou suas obras e aos poucos se distanciou da produção e da exibição de cinema. A maior parte do material produzido por ele foi vendido, outros se perderam pela falta de cuidado na armazenagem, restando apenas os negativos originais de seus três principais médias metragens – Uma voz na consciência (1961), Testemunha Oculta (1969), Sublime Fascinação
Em 2008, um grupo de realizadores fez o trabalho de sonorização do filme Testemunha Oculta, em um processo de reconstrução do roteiro realizado pelo próprio diretor, que assim finalizou o seu primeiro filme 40 anos após as filmagens.

Nesse ano de 2010, o mesmo grupo, em conjunto com José de Oliveira, está concentrado na produção de seu filme biográfico que tem como título Delírios de um Cinemaníaco. O roteiro foi escrito pelo próprio cineasta, em um exercício de expôr no texto, as suas paixões mais sinceras, consciente do papel que o filme desempenha na avaliação e na reconstituição da sua memória.

A vida de José de Oliveira é marcada por sucessivas tragédias. Ficou orfão muito cedo, aos 10 anos ele já havia perdido pai, mãe e avós. Renegado pelos irmãos, foi viver na rua, encontrando abrigo em pensões da cidade.

Aos 15 anos, José perde o seu primeiro e único amor – Edna – que a partir de então  se torna  sua companheira espiritual e a inspiração para a sua criação.

O trabalho nos cinemas de São Carlos foi a oportunidade de se sustentar e amadurecer. Nesse momento, o cinema – notadamente o cinema clássico  norte-americano e europeu – influenciou diretamente seus valores morais e estéticos, delineando a sua subjetividade e o seu olhar sobre o mundo.

Foi com o imaginário do cinema clássico que José de Oliveira se identificou e quando resolveu fazer filmes, recriou-o à sua maneira: amadora, resultando em uma estética singular, retratando a sociedade sãocarlense – os seus valores, seus hábitos, seu imaginário coletivo -  com um grande poder de sedução.

A linguagem clássica é o ponto de partida da proposta do longa-metragem de ficção, fazendo do filme uma experiência de fácil absorção por parte do público, para acompanhar a trajetória da vida do Zé – passagens que todos nós vivemos de algum modo: brincadeiras na infância, morte de parentes, primeiro emprego, dificuldades emocionais.

Foi a partir do encadeamento dos acontecimentos da sua vida, que Zé Pintor escolheu ser cineasta, ser artista, para encarar as dificuldades e os dramas da sua vida material. José de Oliveira se construiu Zé Pintor, em uma relação imanente com as condições que a vida lhe apresentou.
Para ele, o cinema é a magia divina que permite um homem viver duas vezes, afastando as tristezas, encarando os fantasmas e resolvendo os ressentimentos do coração.

As escolhas estéticas de Zé Pintor evidenciam como a precariedade de recursos financeiros, técnicos e artísticos, possibilitam a criação de um cinema singular, que, autodidata, utilizou a intuição artística e o amor passional ao cinema, para criar uma estética rústica. Modo de pensar e fazer filmes que levou o imaginário clássico de cinema a uma beleza simples e paradoxal.

Fotos e texto reproduzidos do blog http://zepintor.wordpress.com/